Uma escolha de Sofia?

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

No futuro previsível, mínimo decente – o que significa bem mais que R$ 275 – só com calote na dívida ou exclusão dos aposentados.


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Indicadores Econômicos


A iniciativa privada já poderia pagar um salário mínimo superior a R$ 400 – ainda abaixo dos 1.000 euros da média européia, dos US$ 890 dos EUA[i], ou dos R$ 1.522,01 que o Dieese diz ser necessário para sustentar uma família brasileira, mas o suficiente para não passarmos vergonha ante a Argentina e a Venezuela que, com todas as suas dificuldades, têm hoje mínimos de R$ 380 e R$ 480, respectivamente.

Indicam isso tanto os padrões da Organização Internacional do Trabalho – o mínimo deve ser de 40% a 60% do salário médio nacional (R$ 873,90, segundo o IBGE), ou R$ 350 a R$ 520 – quanto o nosso próprio passado. O salário mínimo brasileiro já esteve nessa faixa, antes de ter a atual abrangência.

Neste País que viu os preços aumentarem quatrilhões de vezes em 60 anos, comparar preços e salários no longo prazo pode ser complicado. Os 240 mil-réis do maior salário mínimo regional decretado por Vargas em 1940 poderiam ser expressos em preços de hoje como R$ 240 se os inflacionarmos apenas pelo IPC-Fipe, ou como R$ 661 se seguirmos os critérios do Dieese.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se optarmos, porém, por um meio-termo razoável e encadearmos o IPC-Fipe e o IPC da FGV com o INPC, esse valor seria de R$ 379 a preços de hoje. Mas é preciso lembrar que só se aplicava aos cariocas: em São Luís ou Teresina, o valor era a metade; nos municípios rurais mais pobres, apenas 37,5%.

Outros equívocos que podem levar a superestimar o salário mínimo do passado incluem ignorar, em períodos de inflação elevada, a perda real do valor do salário mínimo ao longo do ano ou mesmo nos vinte ou trinta dias entre a data em que o trabalhador teoricamente ganha o salário e aquele no qual efetivamente o recebe e começa a gastá-lo. Se levarmos em conta essas defasagens e considerarmos uma média móvel dos valores reais (em vez dos picos na data dos reajustes), veremos que, mesmo assim, houve períodos bem mais favoráveis.

Em 1957, o mais alto salário mínimo regional chegou, numa média de doze meses, a ser de R$ 530 (pelo índice do Dieese, os valores de pico beiraram R$ 1.100). O piso regional mais baixo já chegou, em 1983, perto de R$ 383.

A unificação dos pisos regionais a partir de maio de 1984, combinada com o rápido crescimento do número de aposentados, resultou em nivelamento por baixo. O melhor período, desde então, foi o Plano Cruzado, durante o qual o poder aquisitivo real do salário mínimo chegou, sempre a preços de hoje, a R$ 280. O pior foi o dos meses anteriores à implantação do Plano Real, durante os quais estava em R$ 130, a metade do atual. Mas acredite: mesmo em termos reais, o atual salário mínimo de R$ 260 é o mais alto que o Brasil já teve desde a instituição da aposentadoria rural, em 1988.

Só 365 mil servidores ativos ganham salário mínimo. Se aumentasse bruscamente, municípios pobres teriam dificuldades com a lei de responsabilidade fiscal (segundo a Confederação Nacional dos Municípios, 8,8% dos seus membros já a violariam com um mínimo de R$ 275), mas compensá-los com verbas federais não custaria demasiado. O problema, para as contas públicas, é aplicar o mínimo a aposentadorias e pensões.

O governo quer desvinculá-las do salário mínimo, sem deixar de reajustá-las pela inflação. Mas é desejável que a renda mínima dos inativos seja apenas a metade dos ativos? Se não, qual a proporção aceitável? Pode-se confiar que, no longo prazo, as aposentadorias serão realisticamente corrigidas, mesmo desvinculadas do mínimo?

É preciso debater abertamente essas questões, mas o problema de fundo não pode ser ignorado. Cada real de salário mínimo eleva as despesas públicas em R$ 224 milhões a cada doze meses, considerando pensões e aposentadorias, mais as quotas de seguro-desemprego e os abonos do PIS-Pasep.

Além disso, cada real de aumento do salário-família representaria um gasto de mais R$ 78 milhões (cerca de seis milhões de quotas). Se restrito aos que recebem até 1,5 salário mínimo, como fez o governo, a soma diminui para um total de R$ 52 milhões anuais (cerca de 4 milhões de quotas).

Em relação ao Orçamento-Programa para 2004, que considerava um salário mínimo de R$ 256 e um salário-família de R$ 14,09, um aumento do mínimo para R$ 275 (14,58% em termos nominais, 8,1% em termos reais) e do salário-família na mesma proporção (para R$ 15,45) teria gerado um gasto extra de R$ 4,26 bilhões pelo mínimo e R$ 70 milhões pelo salário-família: R$ 4,33 bilhões no total.

O governo conseguiu impor um salário mínimo de R$ 260 (8,3% em termos nominais, 2,2% em termos reais[ii]) e compensou parcialmente sua exigüidade com salário-família de R$ 20 para quem ganha até 1,5 salário mínimo. Quem tem três ou mais filhos de até 14 anos ganha praticamente o mesmo que ganharia na alternativa anterior, mas o custo para os cofres públicos fica limitado a R$ 896 milhões pelo salário-mínimo e R$ 306 milhões pelo salário-família. Total: R$ 1,2 bilhão.

VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA

Exemplo

 

proposta do governo

aumento linear para R$ 275

 

2003

valor

aumento nominal

aumento real

valor

aumento nominal

aumento real

trabalhador sem filhos

240,00

260,00

8,3%

2,2%

275,00

14,6%

8,1%

salário-família

13,48

20,00

48,4%

39,9%

15,45

14,6%

8,1%

com um filho

253,48

280,00

10,5%

4,2%

290,45

14,6%

8,1%

com dois filhos

266,96

300,00

12,4%

6,0%

305,90

14,6%

8,1%

com três filhos

280,44

320,00

14,1%

7,6%

321,35

14,6%

8,1%

com quatro filhos

293,92

340,00

15,7%

9,1%

336,80

14,6%

8,1%

Obs: o aumento real foi calculado com base na variação do INPC em 13 meses (de abril/2003 a maio/2004)

O primeiro valor representa 0,25% do PIB e o segundo, 0,07%. Em relação à meta de 4,25% para o superávit primário, a diferença de 0,18% (R$ 3,1 bilhões) não é tão desprezível.

Mas R$ 3,1 bilhões são 0,8% da arrecadação federal, 0,7% da dívida pública indexada pela taxa Selic ou 1,35% da dívida externa líquida do governo federal. É exagerado afirmar, como fez o ministro do Planejamento Guido Mantega, que o aumento para R$ 275 seria “traumático” para a economia. Um aumento de 1% no juro interno ou de 2% na cotação do dólar – ou uma redução de 1% no crescimento do PIB – produz trauma maior para o endividamento público do que o efeito bruto do aumento do salário mínimo para R$ 275.

Além disso, R$ 15 adicionais mensais para cerca de dez milhões de trabalhadores do privado e 13,7 milhões de beneficiários do INSS gerariam R$ 4 bilhões anuais em consumo e quase R$ 1 bilhão em receitas federais (mais quase R$ 600 milhões em receitas estaduais e municipais). Do ponto de vista do governo federal, mais de 30% do aumento do mínimo paga-se a si mesmo.

Os R$ 15 fariam menos diferença que a margem de erro provável das variáveis decisivas para as finanças públicas. O “trauma” afetaria menos as contas do governo do que a “credibilidade” da equipe econômica – ou seja, à fé do setor financeiro em sua capacidade e disposição de colocar as ansiedades dos credores acima das pressões da opinião pública e dos partidos. A tais olhos, seria um mau precedente para as negociações com o funcionalismo, por exemplo. É permitido “errar” a favor de quem tem, não de quem não tem.

Cumprir a promessa de dobrar o valor real do início do mandato seria outra questão. Em 2004, o salário mínimo já deveria ter subido para R$ 320, elevando a despesa bruta em R$ 13,3 bilhões. Já superaria a promessa não cumprida de FHC: seria mais que o dobro do valor vigente no início de 1995.

Para se chegar a R$ 480 em 2006 (considerada a inflação) o acréscimo seria de pelo menos menos R$ 42 bilhões, 2,4% do PIB. Seria preciso deixar de pagar toda a dívida, externa e interna, ou crescer cerca de 6% ao ano e destinar metade do aumento da arrecadação apenas ao salário mínimo.

Dar tal prioridade a um só fator de política social seria exagero. O programa de governo do PT deveria ter levado isto em conta, ou explicitado já em 2002 a proposta de desvincular as aposentadorias do mínimo. Teria, hoje, mais autoridade moral para cobrar coerência dos adversários e fidelidade dos dissidentes.

 



[i] US$ 5,15 por hora. O candidato John Kerry promete US$ 7 até 2007 (US$ 1.200 mensais). Seria aumentá-lo de 33% para 40% do salário médio local, mas ainda ficaria menor, em termos reais, do que durante o governo Truman (cerca de US$ 1.380).

[ii] Em relação ao INPC, mais pertinente para os interessados que o IPCA usado para as contas públicas. O primeiro mede o custo de vida até 8 salários mínimos, o segundo, até 40.