O valor do dinheiro na Alemanha
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
A evolução da moeda alemã, do táler prussiano e austríaco do século 18 ao euro.
Ao longo da Idade Média e do início da Idade Moderna, os imperadores da Alemanha fracassaram em suas tentativas de criar um Estado centralizado e cederam cada vez mais autonomia a seus vassalos. Depois que terminou a Guerra dos 30 Anos (1618-1648), onde os principados protestantes enfrentaram os católicos, mais de 300 baronatos, cidades livres, condados, ducados, principados e outros Estados grandes ou pequenos tornaram-se independentes para quase todos os efeitos, incluindo sistemas monetários. No início do século 18, havia na Alemanha 170 sistemas monetários independentes.
A maioria dos sistemas monetários da Alemanha (e Escandinávia), porém, era baseado no Thaler ou táler, cunhado pela primeira vez no Tirol, em 1486. O nome dessa moeda era uma abreviação de Joachimsthaler, por ter sido originalmente cunhada com prata da mina de Joachimsthal na Boêmia (atual República Tcheca), anexada ao ducado da Áustria (mais tarde elevado a Império) após a guerra dos 30 anos. Seu nome também deu origem ao daler dos países escandinavos e ao dólar norte-americano, que na origem nada mais era que o peso espanhol, aproximadamente equivalente ao táler.
O táler da Áustria – Speciesthaler ou táler padrão – dividia-se em 2 Gulden, 120 Kreuzer, 480 Pfennig ou 960 Heller. Em alguns estados dentro da esfera de influência austríaca, cunhavam-se também moedas chamadas Albus (equivalentes a 2 Kreuzer), Groschen (3 Kreuzer) e Batzen (4 Kreuzer). Também foi cunhada em alguns estados uma moeda de ouro chamada Carolin, com 9,7 gramas de ouro a 77%, que equivalia a dois ducados.
Dois táleres austríacos equivaliam a um ducado de ouro de 3,5 gramas a 98,6% (23 quilates e 2/3). O Speciesthaler tinha 28,82 gramas de prata até 1753, quando uma convenção celebrada entre a Áustria e alguns principados alemães de sua área de influência definiu uma moeda comum chamada Conventionthaler, com 28,0668 gramas de prata de 20 quilates. Isso equivalia a exatamente 10 táleres por marco (unidade de peso equivalente a 233,855 g) de prata pura. Os Conventionthalers cunhados pela Áustria no século 18 – principalmente os últimos, com a efígie da imperatriz Maria Teresa – tornaram-se uma moeda de ampla circulação internacional, principalmente no Oriente Médio e África do Norte, onde foram chamados bir (na Etiópia) ou de riyal. Esta última palavra é uma arabização do nome da moeda espanhola real, pois o peso espanhol era também chamado peça de 8 reales ou real de a ocho.
Em Wurzburg, porém, a moeda era o Gutergulden, que valia 0,625 Conventionthaler, 28 Shillinger, 60 Kreuzer, 84 Drier ou Kortling e 240 Viertel. Outros estados, como Baviera, cunhavam um Kronenthaler (táler da coroa) com 29,44 gramas de prata a 87,3%.
Dentro da fragmentada Alemanha, porém, o ducado protestante da Prússia, depois promovido a reino, mostrou-se o mais eficiente do ponto de vista militar e, após as guerras napoleônicas (que reduziram os estados alemães para 39) tornou-se hegemônico na Alemanha do Norte, onde muitos Estados haviam adotado seu sistema monetário, também baseado no Thaler ou táler. O táler prussiano ou Reichsthaler (táler do Estado), porém, valia menos que o austríaco – pesava apenas 22,272 gramas de prata de 18 quilates; a razão de troca era mais ou menos 1,4 Reichsthalers por Conventionthaler – e sua subdivisão era diferente: 1 Reichsthaler = 1,5 Gulden = 24 Silbergroschen = 288 Pfennig = 576 Heller. Fazia parte desse sistema uma moeda de ouro chamada Goldgulden, com 3,25 gramas de ouro a 77% (18½ quilates) equivalente a 2 Reichstaler e outra chamada pistola (na Prússia, também Frederick d'or, por ter a efígie de seu soberano Frederico), que continha 6,682 gramas de ouro a 90,3% (21 quilates e 2/3) e equivalia a 5 táleres prussianos. Alguns dos estados que adotavam o Reichsthaler como unidade adotavam outras subdivisões: 1 Reichsthaler = 36 Mariengroschen (vários estados) = 48 Marck (Aachen) = 54 Stuber (Frísia Oriental) = 60 Stuber (estados de Wied, Cleve etc.) = 72 Kreuzer (Wied) = 288 Schwaren (vários estados) = 480 Duit (Cleve).
Havia estados que, apesar de se situarem no norte da Alemanha, conservavam sistemas que nada tinham a ver com o prussiano e estavam às vezes relacionados ao Speciedaler dinamarquês, equivalente ao Speciesthaler austríaco, como os de Schlewig-Holstein e das importantes cidades livres hanseática de Hamburgo e Lübeck, onde o Speciedaler se dividia em 60 Schilling, 120 Sechsling, 240 Dreiling e 720 Pfennig. Em Bremen (outra cidade livre) e em Oldemburgo, usava-se um Thaler de 25,98 gramas de prata a 75% (cerca de 1,2 táleres prussianos), dividido em 72 Grote ou 288 Schwaren.
Moedas alemãs na segunda metade do século 18
|
Estado |
unidade monetária |
poder aquisitivo aproximado em Ð |
|
Áustria |
Ducado |
80,64 |
|
Áustria |
Conventionthaler |
40,32 |
|
Áustria |
Gulden |
20,16 |
|
Áustria |
Batzen |
1,344 |
|
Áustria |
Groschen |
1,008 |
|
Áustria |
Albus |
0,672 |
|
Áustria |
Kreuzer |
0,336 |
|
Áustria |
Pfennig |
0,084 |
|
Áustria |
Heller |
0,042 |
|
sul da Alemanha |
Carolin |
161,28 |
|
Baviera |
Kronenthaler |
43,20 |
|
Wurzburg |
Gutergulden |
25,20 |
|
Wurzburg |
Shillinger |
0,90 |
|
Wurzburg |
Kortling |
0,30 |
|
Prússia |
Pistola |
144,00 |
|
Prússia |
Reichsthaler |
28,80 |
|
Prússia |
Gulden |
19,20 |
|
Prússia |
Silbergroschen |
1,20 |
|
Prússia |
Pfennig |
0,10 |
|
Prússia |
Heller |
0,05 |
|
norte da Alemanha |
Goldgulden |
57,60 |
|
Bremen, Oldemburgo |
Thaler |
34,56 |
|
norte da Alemanha |
Mariengroschen |
0,80 |
|
Hamburgo |
Schilling |
0,72 |
|
Aachen |
Marck |
0,60 |
|
Frísia Oriental |
Stuber |
0,53 |
|
Bremen, Oldemburgo |
Grote |
0,48 |
|
norte da Alemanha |
Stuber |
0,48 |
|
norte da Alemanha |
Kreuzer |
0,40 |
|
Cleve |
Duit |
0,06 |
Obs.: Os valores em Ð pressupõem, na falta de dados da época, que o custo de vida na Alemanha já era então aproximadamente igual ao que se observou entre 1820 e 1838.
Em 1834, a Prússia formou um mercado comum com 25 outros estados do norte da Alemanha, chamada Zollverein (união aduaneira) que em 1839, adotou uma moeda chamada Vereinsthaler (táler da união), definida como 18,5595 gramas de prata a 90%, de modo que 14 táleres faziam exatamente um marco de prata. O Vereinsthaler passou a dividir-se em 30 Groschen (na Prússia, Silbergroschen), 360 Pfennig e 720 Heller.
Enquanto isso, alguns estados alemães do sul, liderados pela Baviera e Wurttemberg, formaram um mercado comum sul-alemão e adotaram como padrão um Gulden ou florim, sendo que 24,5 desses florins equivaliam a 14 táleres prussianos. A Baviera cunhava também, desde 1803, uma moeda de ouro chamada Goldgulden, com 3,25 gramas de ouro a 77% (18½ quilates), valendo 4 florins bávaros.
Nas décadas seguintes, continuou a rivalidade entre Áustria e Prússia, mas a primeira gradualmente perdeu terreno. Em 1842, houve uma tentativa de unificar os padrões monetários do norte e do sul da Alemanha com uma moeda única, o Vereinsmünze (moeda da união) ou duplo táler, valendo 2 táleres ou 3,5 florins, mas o projeto não foi além disso. A Áustria tentou aderir ao Zollverein, mas foi rejeitada pela Prússia.
Em 1857, houve um acordo monetário entre os três padrões vigentes na Alemanha: o Vereinsthaler foi redefinido como 18,5186 gramas, para se adequar melhor ao sistema decimal: 30 táleres passaram a conter exatamente ½ kg de prata pura ou um Zollpfund (libra da união), que também equivalia a 52,5 florins do sul da Alemanha ou 45 florins austríacos. Na Áustria e dependências, o Gulden ou florim (forint na Hungria), dividido em 100 Kreuzer, passou ser a unidade monetária, embora o país também cunhasse um táler de 150 Kreuzer. De 1858 a 1870, também foi cunhada em vários estados do Norte e do Sul da Alemanha uma moeda de ouro chamada Krone (coroa) com 11,111 gramas de ouro a 90%, equivalente a 5 Vereinsmünze, 10 táleres prussianos, 15 florins austríacos ou 17,5 florins bávaros.
No período de 1857 a 1872, o poder aquisitivo médio de um Vereinsthaler era de Ð 18,25, o da Vereinsmünze Ð 36,50, o do Silbergroschen Ð 0,608, o do Pfennig prussiano Ð 0,051. O Gulden prussiano ou austríaco valia Ð 12,17, o sul-alemão, Ð 10,43. O Kreuzer austríaco valia Ð 0,12. O Goldgulden bávaro valia Ð 41,72, o ducado austríaco (ainda cunhado para fins de comércio exterior), Ð 62,83 e a Krone Ð 182,50. Nesse período, o custo de vida alemão era de aproximadamente 69% do britânico, de forma que o poder aquisitivo dessas moedas no Reino Unido seria 31% menor.
Em 1866, a Prússia derrotou a Áustria numa guerra, após a qual transformou a Zollverein numa Federação da Alemanha do Norte sob sua liderança. Em 1870, essa federação enfrentou e derrotou a França, tornou-se a maior potência militar da Europa Continental e impôs a todos os outros estados alemães (exceto Áustria, Luxemburgo e Liechtenstein), a unificação num novo Império Alemão (o II Reich) liderado pelo rei da Prússia. Monetariamente, a ruptura com o passado foi simbolizada pela adoção de uma nova moeda, o marco (Mark) de 100 Pfennig, cujo valor era sustentado em boa parte por ouro obtido através das indenizações de guerra pagas pela França: um marco passou a ser equivalente a 0,3982 gramas de ouro com título de 90%. Os táleres continuaram a circular, como moedas de três marcos. A Áustria ficou fora dessa unificação, mas também redefiniu seu Gulden segundo o padrão ouro: exatamente 2,5 francos franceses ou 0,80645 gramas de ouro a 90% até 1892, quando criou uma nova moeda chamada Krone ou coroa (na Hungria korona) de 100 Heller, com valor nominal de ½ Gulden, mas fixada segundo o padrão-ouro em 0,33875 gramas de ouro a 90%, com uma desvalorização de 16%.
Valor da moeda alemã, 1800-2000
|
Período |
Prússia |
Sul da Alemanha |
Áustria |
|||
|
unidade monetária |
poder aquisitivo médio em Ð |
unidade monetária |
poder aquisitivo médio em Ð |
unidade monetária |
poder aquisitivo médio em Ð |
|
|
1800 a 1820 |
Reichsthaler |
25,00 |
diversas |
– |
Conventionthaler |
35,00 |
|
1820 a 1838 |
Reichsthaler |
31,32 |
diversas |
– |
Conventionthaler |
43,85 |
|
1839 a 1856 |
Vereinsthaler |
23,21 |
Gulden |
13,26 |
Conventionthaler |
32,49 |
|
1857 a 1872 |
Vereinsthaler |
18,25 |
Gulden |
10,43 |
Gulden |
12,17 |
|
1873 a 1891 |
Mark |
5,00 |
Mark |
5,00 |
Gulden |
10,13 |
|
1892 a 1914 |
Mark |
4,48 |
Mark |
4,48 |
Krone |
3,81 |
Obs.: Os valores em Ð pressupõem custos de vida semelhantes nas três regiões.
Esses padrões resistiram até a I Guerra Mundial, quando o Império Austríaco desapareceu e a Alemanha, derrotada, foi condenada pelos aliados a pagar uma enorme indenização à França, muito superior à que a França havia pago à Alemanha em conseqüência da guerra anterior. A Alemanha, economicamente devastada, sofreu uma inflação muito mais grave que a dos vencedores e que, em 1923, transformou-se em hiperinflação quando o governo alemão decidiu imprimir dinheiro para pagar os salários dos trabalhadores alemães da região industrial do Ruhr que faziam greve contra a ocupação francesa. O ritmo da inflação chegou a ser da ordem de 50% ao dia e chegou-se a imprimir cédulas de bilhões e trilhões de marcos.
Em dezembro de 1923, a hiperinflação acabou e o Mark começou a ser substituído por uma moeda de conta (análoga à URV adotada no Brasil em 1994) chamada Rentenmark (marco de renda), valendo um bilhão de marcos antigos e conversível em divisas estrangeiras, à razão de 4,20 por dólar, que no ano seguinte tornou-se a moeda oficial com o nome de Reichsmark (marco do Estado).
A Áustria teve uma experiência de forte inflação, mas que não chegou a degenerar em hiperinflação. Nos anos 20, introduziu sua nova moeda, o Schilling, valendo 10.000 Krone.
A conversibilidade durou só até a crise internacional do padrão-ouro, desencadeada pela crise financeira na Áustria em 1931. Porém, mesmo com a ascensão do nazismo e do III Reich, que financiou o rearmamento e a II Guerra Mundial com emissões maciças, os racionamentos e controles de preços mantiveram a inflação manteve-se razoavelmente sob controle até o fim da guerra, em 1945. Com a substituição do totalitarismo nazista por uma administração aliada cujas punições eram menos severas, os controles de preços perderam eficácia e o confronto de 300 bilhões de marcos de papel-moeda (grande parte dos quais entesourados nas mãos de antigos membros e colaboradores do regime nazista) com uma economia destroçada que não produzia mais de 50 bilhões de marcos por ano começou a trazer à tona a inflação reprimida. Tornou-se praticamente impossível encontrar produtos fora do mercado negro.
Os aliados ocidentais (EUA, Reino Unido e França) decidiram em segredo abolir a velha moeda. Em 20 de junho de 1948, o Reichsmark (RM) deixou de ter qualquer valor e foi colocado em circulação uma nova moeda, chamada Deutschemark (marco alemão). Cada alemão teve direito a trocar até 40 RMs (valendo então aproximadamente Ð 100) à razão de 1 para 1 Deutschemark (DM) mas o resto de suas economias só pôde ser trocado à razão de DM 6,50 para RM 100 (15,38 para 1). Os salários e contratos mantiveram seu valor nominal na nova moeda e recuperaram seu valor real, permitindo a normalização do comércio e a recuperação do poder aquisitivo nas mãos de trabalhadores e capitalistas ativos, ao mesmo tempo que se reduzia em 93,5% o valor das cédulas entesouradas por nazistas.
A decisão unilateral dos aliados ocidentais, porém, contribuiu para agravar a ruptura com os soviéticos, que ocupavam a Alemanha Oriental e alimentar a nascente Guerra Fria. Em retaliação, os russos bloquearam Berlim Ocidental e introduziram seu próprio Mark na sua zona de ocupação. O rompimento levou à divisão da Alemanha em duas Repúblicas, a República Federal da Alemanha ou RFA (na zona ocidental) e a República Democrática Alemã ou RDA (na zona oriental).
Os traumas da hiperinflação de 1929 e da reforma monetária de 1948 fizeram do novo governo alemão ocidental um dos mais conservadores da Europa em termos de administração monetária. Desde 1948, a inflação do Deutschemark foi uma das mais baixas entre os países ocidentais: a moeda, que em 1953 era trocada à razão de 4,20 por dólar, chegou à década de 90 valendo 1,80 por dólar. O Mark da RDA, chamado pelos ocidentais de Östmark (marco oriental) era conversível apenas em rublos, mas ao menos oficialmente manteve a paridade com o marco ocidental até a queda do Muro de Berlim em 1989.
A viabilização da tão longamente desejada reunificação colocou à RFA um sério problema: o que fazer com a moeda oriental? Nominalmente, valia o mesmo que a ocidental. Salários nominais e preços de produtos básicos eram comparáveis dos dois lados do antigo Muro e os aluguéis e serviços públicos eram bem mais baratos do lado oriental. Porém, a maior parte das ultrapassadas mercadorias industriais produzidas na antiga RDA não valia absolutamente nada no Ocidente, enquanto as ocidentais tinham uma enorme procura do lado oriental. O resultado é que após a queda do Muro de Berlim, um marco ocidental passou a valer 4,4 marcos orientais no câmbio oficial e 10 marcos no câmbio negro.
Economistas liberais e o Bundesbank (Banco Central Alemão) aconselharam o governo da RFA a fazer a conversão à razão de 4,4 marcos orientais por DM. Porém, teria sido social e politicamente desastroso trazer os alemães orientais de volta a uma pátria reunificada, mas com suas economias e salários reduzidos em 78%. O governo da RFA acabou decidindo fazer uma conversão análoga à de 1948, numa razão mais próxima de 1 para 1. Em 1º de julho de 1990, os alemães orientais começaram a receber salários em DMs iguais aos que haviam sido pagos em marcos orientais, mas as dívidas pessoais foram convertidas à razão de 2 marcos orientais para 1 DM. As poupanças pessoais puderam ser convertidas à razão de 1 para 1 até 2.000 marcos orientais para crianças com menos de 15 anos, 4.000 para adultos com menos de sessenta e 6.000 para os mais idosos. A partir desses limites, a conversão teve de ser feita à razão de 2 para 1. O poder aquisitivo de DM 4.000 era então de aproximadamente Ð 2.500. Curiosamente a operação teve semelhanças, aparentemente significativas, com o primeiro Plano Collor, que havia sido implantado no Brasil em março do mesmo ano.
Esse plano inicialmente pareceu vantajoso para os alemães orientais, que não só passaram a ter pleno acesso às tão ansiadas mercadorias ocidentais, como a um preço 78% menor. Porém, a unificação também implicou a redução do déficit orçamentário da Alemanha Oriental através da eliminação dos subsídios estatais socialistas aos serviços e produtos básicos. Sem esses subsídios, os preços desses itens dobraram ou triplicaram. Ao mesmo tempo, os alemães orientais também passaram a pagar imposto de renda e contribuições previdenciárias segundo os padrões ocidentais. O resultado final foi uma redução da renda real disponível para consumo. Além disso, a maioria dos alemães orientais tiveram uma perda em sua riqueza líqüida: como a maioria das famílias tinha economias elevadas, a taxa média de conversão das poupanças foi de aproximadamente 1,8 marcos orientais para 1 DM: 44% das poupanças pessoais evaporou-se.
Muito mais graves, porém, foram os efeitos dessa conversão para a competitividade da indústria alemã oriental. As empresas alemãs orientais, todas estatais, tiveram seus ativos convertidos à razão de 2 marcos orientais para 1 DM, enquanto suas dívidas foram convertidas à razão de 1 para 1. A esse desequilíbrio financeiro, somaram-se os efeitos de uma tecnologia defasada e de uma produtividade três vezes menor que a ocidental, que mesmo em condições mais favoráveis as tornaria totalmente incapazes de competir pagando salários equiparados aos ocidentais. Como se isso não bastasse, as indústrias ocidentais pressionaram os varejistas orientais a vender apenas seus produtos. Na realidade, a conversão parece ter sido concebida principalmente como uma estratégia para acelerar a destruição da economia oriental e facilitar sua privatização. Uma empresa de participações (holding) chamada Treuhand foi criada para administrá-las e privatizá-las o mais rápido possível, através de um sistema fechado de leilões que permitiu às empresas ocidentais adquirir às melhores empresas orientais por preços atraentes – muitas vezes apenas para fechá-las em seguida, garantindo que jamais se tornariam novas concorrentes. Aquelas que não puderam ser privatizadas foram simplesmente dissolvidas.
Junto com o encolhimento do antigo aparelho de Estado oriental, o resultado foi uma queda de 50% no PIB de 1989 a 1991 e um terrível desemprego, que anulou qualquer vantagem econômica que os alemães orientais pudessem ter obtido com a unificação. O governo alemão gastou centenas de bilhões de marcos na reconstrução da economia da Alemanha Oriental e mesmo assim essa região ainda hoje continua com índices de desemprego altos e longe de se equiparar economicamente à Alemanha Ocidental. A própria Alemanha Ocidental também foi abalada: o governo federal criou um imposto de renda extra de 7,5% para financiar os subsídios à Alemanha Oriental e endividou-se pesadamente, elevando a taxa de juros e causando uma recessão que repercutiu sobre toda a Europa.
Isso contribuiu para o adiamento da unificação monetária européia que no ano seguinte seria negociada em Maastricht, mas ainda assim, a partir de 1999, o marco passou a ser fixado em relação à nova moeda da União Européia, o euro, numa relação de 1,96 marcos para 1 euro. Em 2002, o marco deve desaparecer, deixando o euro como moeda única.
O valor do marco desde a I Guerra Mundial está demonstrado abaixo:
Valor da moeda alemã, 1915-2000
|
Período |
unidade monetária |
poder aquisitivo médio em Ð |
|
1915 a 1919 |
Mark |
1,80 |
|
1920 a 1924 |
Mark |
hiperinflação (1) |
|
1925 a 1929 |
Reichsmark |
2,86 |
|
1930 a 1934 |
Reichsmark |
3,21 |
|
1935 a 1939 |
Reichsmark |
3,36 |
|
1940 a 1944 |
Reichsmark |
3,12 |
|
1945 a 1949 |
Reichsmark (2) |
2,52 |
|
1950 a 1954 |
Deutschemark |
2,10 |
|
1955 a 1959 |
Deutschemark |
1,90 |
|
1960 a 1964 |
Deutschemark |
1,72 |
|
1965 a 1969 |
Deutschemark |
1,51 |
|
1970 a 1974 |
Deutschemark |
1,257 |
|
1975 a 1979 |
Deutschemark |
0,971 |
|
1980 a 1984 |
Deutschemark |
0,770 |
|
1985 a 1989 |
Deutschemark |
0,692 |
|
1990 a 1994 |
Deutschemark |
0,600 |
|
1995 a 1999 |
Deutschemark |
0,541 |
|
dez/2000 |
Deutschemark |
0,512 |
(1) A inflação elevadíssima deste período torna sem sentido o cálculo de uma média qüinqüenal. O valor do marco ao final de cada ano deste período pode ser encontrado em
dinheiro01c.rtf.(2) Deutschemark a partir de junho de 1948
|
Fontes: |
1750 - 1900: Chester L. Krause e Clifford Mishler, Standard Catalog of World Coins, 1985: Iola, Krause 1820 - 1912: B. R. Mitchell, European Historical Statistics, 1750-1975, New York: Facts on File, 1980. Note que a Alemanha só começou a existir como Estado em 1870; os dados anteriores referem-se ao reino da Prússia. 1913 - 1919: índice médio dos preços de alimentos em 200 cidades alemãs com base julho de 1914 = 100 segundo Richard Calwer, Monatliche Ubersichten uber Lebensmittelpreise, Berlim, 1913ss., conforme citado em Gerhard Bry, Wages in Germany 1871-1945, Princeton, 1960) p. 440-445. 1920 - 1945: índice oficial de preços ao consumidor da Alemanha, que começou a ser calculado em fevereiro de 1920, segundo Liga das Nações; note que em 1923, depois de uma terrível hiperinflação, em dezembro e os preços foram estabilizados e foi introduzida uma nova série em Reichsmark. Neste quadro, as séries foram imbricadas para comparação. 1945 - 1948: para o período de março de 1945 a junho de 1948, quando a Alemanha esteve sob ocupação dos aliados e não havia levantamentos estatísticos centralizados, foi usado um índice de preços ao consumidor calculado em Munique, usando a base 1913/14=100, pelo Bayerischen Statistician Landesamt. Bayerischen Statistician Landesamt, Bayern in Zahlen, Munique: Bayerisches Statistisches Landesamt. 1948 - 2000: em julho de 1948 o Bundesamt voltou a calcular um índice de preços para o conjunto da Alemanha Ocidental, que continuou em uso após a reunificação de 1991 com a Alemanha Oriental. Bundesamt, Wirtschaft und Statistik. 1975-2000: paridades de poder aquisitivo segundo OCDE |
Dados complementares
Alguns dos arquivos que contêm os dados complementares têm o sufixo .rtf, isto é, estão em Rich Text Format (*.rtf), um formato que não conduz vírus, pode ser lido em qualquer editor de texto e também pode ser colado em planilhas eletrônicas sem grande dificuldade. Para descarregá-lo, clique nas ligações. Os demais, com sufixo .htm, são páginas normais da Internet, em html.