O valor do dinheiro no Japão

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

A evolução da moeda japonesa dos tempos do xogum aos tempos do Pokémon.


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Indicadores Econômicos


Japão

Até o início do século 19, a unidade monetária do Japão foi o ryo, baseado no ouro e dividido em 4 bu e 16 shu. Dez ryo faziam um oban, que de 1725 a 1837 era uma placa de 165,38 gramas com 67,6% de ouro e 32,4% de prata. Depois foi desvalorizado e, de 1860 a 1862, tinha apenas 112,4 gramas com 34,4% de ouro e 63,9% de prata.

O bu tinha um valor comparável ao do liang, unidade monetária chinesa conhecida em português como tael (palavra que também passou a outras línguas ocidentais) e definida como um liang (37,4 gramas) de prata pura. O tael chinês se dividia teoricamente em 1.000 li ou qianwen de cobre – a proporção real variava de 800 a 1.600, dependendo da época e região. Essas moedas, chamadas em português sapecas (também palavra de origem malaia), tinham um furo quadrado no centro, que servia para que fossem atravessadas por um cordão e formassem enfiadas de 100 unidades, cada uma das quais eram chamadas em chinês qian ou qianchuan – em inglês mace, do português antigo maz. O tael de prata também se dividia em 100 fen, chamados em inglês candareens, do português antigo conderim. As palavras tael, maz e conderim são de origem malaia, pois as unidades de peso e valor usadas na Malásia eram semelhantes às do comércio chinês. O nome inglês da "sapeca" é cash e vem do português caxa, originalmente o nome português de uma moeda indiana, de formato bem diferente mas também de valor muito pequeno.

Poder aquisitivo aproximado das unidades monetárias chinesas em Ð

Período

liang ou tael

qian, qianchuan, maz ou mace

fen, conderim ou candareen

li, qianwen, sapeca ou cash

1520

160

16

1,60

0,16

1750 a 1830

50 a 100

5 a 10

0,50 a 1,00

0,05 a 0,10

 

Analogamente, o bu japonês se dividia (teoricamente) em 1.000 mon ou zeni de cobre idênticos aos qianwen chineses e que formavam enfiadas de 100 chamadas hyakuzashi. Apesar do furo central, as sapecas eram as peças japonesas que mais se pareciam com as moedas ocidentais: a maioria das "moedas" japonesas dessa época eram pequenas placas retangulares. Outras tinham forma de feijões ou de bananas.

O ouro era usado principalmente na região de Edo, capital do xogum onde se concentrava a nobreza japonesa. A prata, na região de Osaka - Kyoto - Sakai, centro do comércio japonês; o cobre era a moeda de uso quotidiano em todo o país.

O valor das moedas de prata era medido pelo seu peso efetivo e não pelo valor de face. As moedas de prata mais comuns, em forma de feijão (mameita) continham teoricamente um momme de prata ou cerca de 3,75 gramas. Na realidade as moedas de prata mais comuns, pesavam 5 a 8 gramas, com 46% de prata. Um ryo valia aproximadamente 60 momme.

Para se ter uma idéia de preços, uma gravura japonesa da escola ukiyo-e custava 24 a 48 mon (Ð 1,44 - 2,88); um koku (176 litros) de arroz, quantidade que às vezes também era usada como unidade monetária e representava aproximadamente o consumo de um homem durante um ano, equivalia a 5 bu (Ð 300).

Poder aquisitivo aproximado das moedas japonesas em Ð, 1725-1868

Período

oban

ryo

bu

shu

hyakuzashi

momme

mon

1725 a 1837

2.400

240

60

15

6

4

0,06

1860 a 1862

1.000

100

25

6,25

2,50

1,67

0,025

 

A partir da abertura forçada dos portos japoneses pela frota norte-americana em 1868, o Japão adotou uma unidade monetária equivalente ao dólar ou ao peso espanhol, o en ou iene, que era dividido em 100 sen, 1.000 rin ou 10.000 mon e era equivalente ao peso espanhol, mas também cunhado na forma de uma moeda com 1,67 g de ouro a 90%. A palavra en significava originalmente "redondo", pois, para o Japão, moedas redondas eram uma novidade.

Porém, o iene, assim como outras moedas baseadas principalmente na prata, perdeu rapidamente seu valor no final do século 19, quando novas técnicas de mineração reduziram o preço da prata de 1/16 para cerca de 1/35 do ouro. Os preços no Japão duplicaram antes que, em 1897, o país redefinisse o iene como 0,833 gramas de ouro a 90%, cerca da metade do dólar norte-americano. Como na maioria dos países do mundo, também no Japão o padrão-ouro foi abandonado com a I Guerra Mundial.

A China seguiu uma evolução paralela, sendo a versão chinesa do dólar denominada yuan. Foi introduzido com o valor de 0,72 taéis, mas em 1906 a taxa de câmbio oficial do tael chinês era 2,46 rúpias indianas, 1,60 ienes japoneses, 1,54 pesos mexicanos, 3 shillings e 3½ pence britânicos ou 0,80 dólares norte-americanos.

De 1945 a 1947, com a derrota na II Guerra Mundial e a ocupação norte-americana, o Japão sofreu uma forte inflação que reduziu o valor do iene até que veio se estabilizar em 1/360 de um dólar. Essa experiência inflacionária aparentemente não foi tão desastrosa quanto a da Alemanha de 1923, mas teve um efeito semelhante no comportamento posterior do Banco Central japonês, que desde então combateu a inflação de forma obsessiva. Nos anos 90, isso levou a uma longa estagnação da economia japonesa.

O valor do iene ao longo do século 20 está demonstrado abaixo:

Valor do iene japonês, 1875-2000

Período

poder aquisitivo médio do iene em Ð

1875

28

1877

19

1900

9,92

1901 a 1914

8,46

1915 a 1919

6,05

1920 a 1924

3,70

1925 a 1929

4,47

1930 a 1934

5,90

1935 a 1939

4,83

1940 a 1944

3,12

1945 a 1949

0,2147

1950 a 1954

0,0414

1955 a 1959

0,0360

1960 a 1964

0,0302

1965 a 1969

0,0231

1970 a 1974

0,0164

1975 a 1979

0,0100

1980 a 1984

0,00780

1985 a 1989

0,00720

1990 a 1994

0,00659

1995 a 1999

0,00652

dez/2000

0,00636

 


Dados complementares

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Fontes:

1750 - 1900: Chester L. Krause e Clifford Mishler, Standard Catalog of World Coins, 1985: Iola, Krause

1922 - 1945: Liga das Nações

1946 - 2000: Bureau of Statistics, Monthly Statistics of Japan

1975-2000: paridades de poder aquisitivo segundo OCDE