O valor do dinheiro nos Estados Unidos

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Como o dólar nasceu do peso mexicano e sua história de Hernán Cortez a George W. Bush


Página inicial

Indicadores Econômicos


Estados Unidos

Os atuais Estados Unidos da América foram fundados por 13 colônias britânicas da América do Norte que se declararam independentes em 1776 e se federaram para formar uma única nação em 1789. Durante o período colonial, essas colônias oficialmente usavam o sistema monetário britânico (ver O valor do dinheiro no Reino Unido), mas como seu comércio com as colônias espanholas (diretamente ou através das colônias britânicas do Caribe e oriente) era mais importante que seu comércio com a metrópole, na prática a maior parte do meio circulante era formada por peças mexicanas, peruanas ou espanholas de oito reales equivalentes a 54 pence britânicos.

Essas "peças de oito", como são chamadas nos filmes de piratas, eram conhecidas nas colônias espanholas como pesos ou reales de a ocho, mas os britânicos as chamavam de dollars, por serem equivalentes a moedas chamadas thalers nos países de língua alemã (ou dalers, nos países escandinavos) com as quais haviam se familiarizado na Europa. O nome destas moedas era uma abreviação de Joachimsthaler, por que foram originalmente cunhadas com prata da mina de Joachimsthal, na Boêmia (atual República Tcheca). Essas moedas também foram conhecidas com outros nomes em outros países: piastra (sul da Itália e Oriente), pataca ou patacão (Brasil e Portugal), riyal (vários países árabes, do espanhol real), bir (Etiópia) etc.

O símbolo $ com que os colonos britânicos designavam seus dólares também é de origem espanhola. O cifrão (calderón em espanhol) foi usado na Espanha e em suas colônias (e a partir de 1747 também em Portugal e no Brasil) bem antes de existirem os Estados Unidos. Originalmente era uma simplificação de um desenho que aparecia em antigas moedas espanholas: uma faixa onde se escrevia VTRAQUE VNUM – união das duas partes (do mundo) – envolvendo duas colunas – a da direita se tornou o cifrão. Era um símbolo da união dos dois hemisférios do globo pela coroa espanhola (ver abaixo)

O peso de oito reales e a origem do cifrão (note a coluna da direita)

Durante a guerra da independência, as ex-colônias emitiram papel-moeda denominado em dólares, conhecidos como Continentals, que rapidamente perderam seu valor devido à emissão descontrolada, tanto pelo Congresso Continental quanto pelos Estados, que ainda se consideravam independentes. Em agosto/1778, seu valor havia sido reduzido a 1/4 de dólar de prata, no final de 1779 a 1/100 de dólar e em 1781 a 1/1000. Nesse ponto, o próprio Congresso Continental decidiu não mais aceitar seu próprio papel-moeda como pagamento de dívidas e ele perdeu totalmente o valor.

Porém, nos anos seguintes foi aprovada a constituição federal que entrou em vigor em 1789 e em 1792, o novo governo federal instituiu o dólar como moeda oficial, com peso ligeiramente inferior ao peso espanhol. Este tinha 27,07 gramas de prata a 92,5% até 1700, quando foi reduzido a 91,67% (22 quilates) até 1772, quando foi reduzido novamente para 90,3% (21 2/3 quilates), enquanto o dólar de 1792 tinha 26,96 gramas de prata a 89,24% e, depois de 1836, 26,73 gramas a 90%.

Como no período colonial o valor do peso já era de pouco mais de 50 pence britânicos e o dólar norte-americano foi criado com o valor de 52½ pence, pareceu natural adotar uma divisão decimal – em 100 cents ou ¢, cada um quase igual a meio penny britânico – em vez de usar os complicados sistemas mexicanos e espanhóis (1).

Um dólar também equivalia a 1,75 gramas de ouro a 91,67% (22 quilates), o que supunha que uma parte de ouro valia 15 partes de prata. Entretanto, a prata começou a se desvalorizar relativamente ao ouro nas décadas seguintes. Em 1838, como a prata ainda era a base do sistema monetário isso exigiu que o dólar de ouro passasse a ser equivalente a 1,6718 gramas a 90%, o que correspondia a uma relação de preços de 16 para 1. O dólar norte-americano passou a valer apenas 49¼ pence britânicos.

Embora o conteúdo em prata do peso mexicano de 8 reales fosse ligeiramente superior ao do dólar dos EUA – continha teoricamente o equivalente a US$ 1,016 em prata – foi considerado equivalente ao dólar e até 1858 considerado para todos os efeitos como moeda de curso legal, assim como suas subdivisões: 4 reales (equivalente a meio dólar), dois reales (quarto de dólar), um real (conhecido como bit, valendo 12½¢ mas quando desgastado se reduzia a 10¢) e meio real (conhecido como picayune, de 6¼¢, mas quando desgastado apenas 5¢).

O curso legal do peso mexicano nos EUA foi abolido em 1858, devido à rápida queda do preço da prata. As reservas norte-americanas de ouro – reforçadas por novas descobertas na Califórnia – passaram a sustentar o dólar, enquanto a moeda mexicana, que não tinha o mesmo respaldo, passou a acompanhar a cotação da prata no mercado mundial. Como a flutuação dos preços relativos do ouro e da prata dificultava o comércio com os países do Oriente, onde a prata continuava a ser a base do sistema monetário, os EUA cunharam de 1873 a 1883 uma moeda especial de prata chamada trade dollar com 27,22 gramas a 90%, equivalente ao peso mexicano de 1772. No final do século 19 e início do século 20, o trade dollar e o velho peso mexicano de prata valiam ambos 52¢.

Devido à desastrosa experiência com os Continentals, os EUA tornou-se um dos países do Ocidente que mais rejeitou o papel-moeda. Só com a Guerra da Secessão (1861-1865) voltou-se a emitir dólares de papel com caráter oficial, os greenbacks. Mais uma vez, houve forte inflação, principalmente entre os Estados Confederados do sul: o dólar de papel emitido pelo norte caiu para ½ do valor do dólar de prata e o dos estados rebeldes do sul a 1/50, antes de perder todo o seu valor com a derrota para as tropas do norte. Terminada a guerra, uma emenda constitucional proibiu expressamente ao governo federal resgatar o papel-moeda emitido pelos separatistas, mas o papel-moeda do Norte recuperou gradualmente seu valor real: para 72,3 ¢ de prata em 1867 e 100¢ em 1878, passando desde então a ser considerado tão confiável quanto o metal.

O padrão ouro, porém, foi mantido até 1933, quando foi desvalorizado em relação ao ouro para amenizar as conseqüências da crise de 1929. Desde então, os EUA mantiveram uma inflação relativamente baixa mas constante. Mesmo assim, a paridade com o ouro estabelecida em 1934 foi oficialmente mantida até 1968, quando a pressão de países estrangeiros para converter suas reservas de dólares em ouro levou a nova desvalorização e, em 1971, à total abolição da conversibilidade do dólar em ouro.

O valor médio do dólar está indicado abaixo:

 

Valor médio da unidade monetária norte-americana (espanhola até 1720)

Período

valor médio do dólar em Ð

1500 a 1559 (1)

100

1550 a 1599 (1)

80

1600 a 1649 (1)

50

1650 a 1699 (1)

44

1700 a 1719 (1)

43

1720 a 1749 (2)

46,27

1750 a 1799 (2)

31,16

1800 a 1849

26,61

1850 a 1874

24,15

1875 a 1899

23,68

1900 a 1914

20,23

1915 a 1919

13,24

1920 a 1924

9,76

1925 a 1929

9,99

1930 a 1934

11,98

1935 a 1939

12,49

1940 a 1944

10,96

1945 a 1949

8,18

1950 a 1954

6,73

1955 a 1959

6,23

1960 a 1964

5,75

1965 a 1969

5,15

1970 a 1974

4,05

1975 a 1979

2,83

1980 a 1984

1,871

1985 a 1989

1,522

1990 a 1994

1,252

1995 a 1999

1,094

dez/2000

1,000

Notas:

(1) Valor aquisitivo aproximado do peso no império espanhol

(2) Valor aquisitivo do peso (chamado dólar nos países de língua inglesa) nas colônias britânicas da América do Norte.

 

Evolução do custo de vida nos Estados Unidos

Ano

casa

carro

leite (galão)

gasolina (galão)

pão (filão de 1 lb 8 oz))

correio (carta simples)

renda média anual

valores em US$

1900

4.000

500

0,30

0,05

0,03

0,02

637,00

1910

4.800

500

0,33

0,07

0,05

0,02

963,00

1920

6.396

500

0,58

0,10

0,11

0,02

1.179,00

1930

7.146

525

0,56

0,10

0,08

0,02

1.428,00

1940

6.558

810

0,51

0,15

0,08

0,03

1.231,00

1950

14.500

1.750

0,82

0,20

0,14

0,03

3.216,00

1960

30.000

2.275

1,04

0,25

0,20

0,04

5.199,00

1970

40.000

2.500

1,32

0,40

0,24

0,06

8.933,00

1980

86.159

5.412

1,60

1,03

0,48

0,15

11.321,00

1990

128.732

9.437

2,15

1,08

1,29

0,25

14.777,00

1997

119.250

13.600

2,41

1,11

1,62

0,32

20.788,00

Ano

casa

carro

leite (litro)

gasolina (litro)

pão (kg)

correio (carta simples)

renda média mensal

valores em Ð

1900

93.423

11.678

1,85

0,31

1,03

0,47

1.239,80

1910

89.710

9.345

1,63

0,35

1,37

0,37

1.499,84

1920

57.366

4.485

1,37

0,24

1,45

0,18

881,21

1930

77.230

5.674

1,60

0,29

1,27

0,22

1.286,09

1940

80.929

9.996

1,66

0,49

1,45

0,37

1.265,92

1950

100.920

12.180

1,51

0,37

1,43

0,21

1.865,28

1960

175.168

13.284

1,60

0,39

1,72

0,23

2.529,71

1970

174.874

10.930

1,52

0,46

1,54

0,26

3.254,48

1980

173.716

10.912

0,85

0,55

1,42

0,30

1.902,14

1990

167.409

12.272

0,74

0,37

2,47

0,33

1.601,39

1997

128.639

14.671

0,69

0,32

2,57

0,35

1.868,73

Fontes:

1820 - 1874: índice anual de custo de vida calculado pelo Federal Reserve Bank em U.S. Government, Statistical Abstract of the United States –

1875 - 1912: um índice mensal de preços gerais (comparável ao IGP-DI calculado pela FGV) calculado pelo Federal Reserve Bank of New York, ponderado entre índice de preços no atacado (20%) pagamentos de salários (35%), custo de vida (35%) e aluguéis (10%), em Carl Snyder, "A New Index of the General Price Level from 1875," Journal of the American Statistical Association (junho de 1924)

1913 - 2000: o índice de preços ao consumidor do Bureau of Labor Statistics

Cost of Living Comparison 1900-1997, http://seniorliving.about.com/people/seniorliving/library/weekly/aa010700b.htm

John H. Munro, Money and Coinage in Late Medieval and Early Modern Europe em http://www.economics.utoronto.ca/munro5/MONEYLEC.htm

Kelley L. Ross, British Coins before the Florin, Compared to French Coins of the Ancien Régime em http://www.friesian.com/coins.htm


Dados complementares

Alguns dos arquivos que contêm os dados complementares têm o sufixo .rtf, isto é, estão em Rich Text Format (*.rtf), um formato que não conduz vírus, pode ser lido em qualquer editor de texto e também pode ser colado em planilhas eletrônicas sem grande dificuldade. Para descarregá-lo, clique nas ligações. Os demais, com sufixo .htm, são páginas normais da Internet, em html.


(1) Na maior parte do Império Espanhol, incluindo o México colonial, 1 peso = 8 reales = 32 cuartillos = 68 cuartos = 136 ochavos = 272 maravedis, mas em Aragão, Catalunha e Baleares, 1 peso = 15 reales de ardite = 30 sueldos = 120 cuartos = 180 doblers = 240 ochavos = 360 dineros ou ardites = 480 cornados e em Valência, 1 peso = 9 realetes = 162 dinerillos. A moeda de ouro de dois pesos era chamada escudo, a de quatro pesos dobla ou castellano e a de oito pesos um doblón ou dobrão. A expressão doblón de a ciento, porém, significa 100 doblas ou 50 doblones.

No México das primeiras décadas após a independência, 1 peso = 8 reales =32 cuartillos = 64 tlacos = 128 pilóns, sendo que o tlaco e o pilón eram freqüentemente moedas privadas, irregularmente emitidas por fazendeiros para pagar seus peões (tipicamente em regime semi-servil) e obrigá-los a gastar todo o seu ganho em seus armazéns.

Na Espanha após 1809, 1 peso fuerte = 2 escudos = 5 pesetas = 10 reales de plata = 20 reales de vellón = 680 maravedis de vellón. A moeda de ouro de 20 reales de vellón era chamada doblilla. Usava-se também como moeda de conta (imaginária) o peso de cambio valendo 15 ou 16 reales de vellón e o doblón de cambio, de 60 a 68,25 reales de vellón.

Em 1852, a Espanha adotou o sistema decimal, mas hesitou quanto à unidade monetária: até 1865 foi o real de velllón, de 1865 a 1869, o escudo e de 1870 em diante, a peseta. Todas as três unidades foram divididas em céntimos, de forma que houve três padrões diferentes de céntimos na Espanha do século 19.

voltar ao texto