As reencarnações da moeda brasileira
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Sendo um dos casos mais sérios de inflação crônica da história da Economia, o Brasil teve de mudar de moeda muitas vezes. Se você se perdeu nessa trilha, eis aqui o caminho das pedras.
O primeiro Plano Real, o de 1435
Os Descobrimentos e o único Cruzado que deu certo
O dinheiro chega ao Brasil: 1580 - 1640
Os mil-réis do Brasil independente: 1822 - 1942
Os nem tão saudosos tempos do cruzeiro
O dinheiro dá marcha a ré: de volta ao cruzado e depois ao real
Poder aquisitivo médio da unidade monetária brasileira em Ð, de 1550 a 2000
Conteúdo em metal do real português de 1435 a 1889
Demonstrativo das alterações legais da unidade monetária brasileira
Portugal Medieval: o sistema LSD
A primeira moeda de Portugal foi o dinheiro. Deriva do denarius criado pelo Imperador Carlos Magno em 800 d.C., quando 240 dinheiros correspondiam a uma libra-peso de prata e cada dinheiro tinha 1,725 gramas, com um poder aquisitivo inicialmente em torno de Ð 6 (ver
Europa Medieval).Porém, essa moeda já estava consideravelmente desvalorizada quando, em 1253, Afonso III taxou o marco de prata (1 marco = 227,8 gramas = meia libra-peso) em 12 libras portuguesas, 240 soldos ou 2.880 dinheiros. Esse sistema é conhecido com L - S - D (libra - soldo - dinheiro).
O dinheiro se dividia em duas mealhas palavra que deu origem às palavras "mealheiro" e "amealhar", ainda muito usadas. A moeda de maior valor era o morabitino (em espanhol, maravedi), cujo nome vinha de murabiti, nome árabe da poderosa dinastia dos almorávidas que dominou grande parte da Península Ibérica de 1093 a 1148 e ditou o primeiro padrão para essa moeda. Em 1264, um morabitino velho valia 27 soldos, um morabitino novo, 22. Doze dinheiros valiam um soldo até o reinado de Afonso IV (1325-1357), quando um soldo passou a valer apenas 9 dinheiros.
Moedas portuguesas, 1253 -1325
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unidade monetária |
poder aquisitivo aproximado em Ð |
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mealha |
0,15 |
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dinheiro |
0,30 |
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soldo |
3,60 |
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libra |
72,00 |
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morabitino novo |
79,20 |
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morabitino velho |
97,20 |
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Obs.: esses valores em Ð supõem que o poder aquisitivo da prata em Portugal era semelhante ao que tinha na
Inglaterra no mesmo período
O primeiro Plano Real, o de 1435
Após várias desvalorizações para financiar guerras contra Castela, que criaram uma grande confusão monetária e transtornaram as relações entre dinheiro, soldo e libra, o rei D. Duarte, em 1435, decidiu abolir a libra como unidade monetária, colocando em seu lugar o real branco (sendo 1 real = 35 libras portuguesas) cuja cunhagem havia sido iniciada pelos seu predecessor D. João I.
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Moeda de ½ real branco, de D. João I |
O adjetivo o distinguia do real preto (de cobre), também cunhado pelo seu predecessor, pois o real branco era cunhado em uma liga de prata com cobre chamada bolhão (ou bilhão), contendo até 41,67% (5/12) de prata e freqüentemente apenas 25%. O real branco, ou simplesmente real, tornou-se, por mais de 400 anos, a unidade monetária de Portugal e do Brasil.
Uma grama de ouro correspondia então a 35 reais logo chamados réis, pois a freqüência do uso da palavra levou a abreviá-la. Havia ainda velhos soldos em circulação, de diversos valores: ao que parece, houve soldos que valeram um real, quatro ceitis e 2/7 réis. Algumas fontes também indicam que um dinheiro valia Ό de real.
Moedas e unidades monetárias portuguesas, 1435 - 1452
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unidade monetária |
valor médio em Ð |
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libra |
0,04 |
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real branco |
1,40 |
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ceitil |
0,23 |
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soldo (?) |
0,40, 0,93 ou 1,40 |
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dinheiro (?) |
0,35 |
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Obs.: esses valores em Ð supõem que o poder aquisitivo da prata em Portugal era semelhante ao que tinha na
Inglaterra no mesmo período
Em 1448, para substituir o real preto retirado de circulação em 1442, começou a ser cunhada uma nova moeda de cobre chamada ceitil, valendo 1/6 do real branco. Continuou a circular até 1580, quando seu valor aquisitivo havia caído para cerca de Ð 0,025 e havia se tornado sinônimo de insignificância, dando origem a expressões que ainda permanecem na língua, como "ficar sem ceitil" e "não pagar um ceitil".
Os Descobrimentos e o único Cruzado que deu certo
Novas desvalorizações fizeram a grama de ouro chegar a 107 réis e a de prata a 11 réis já no início do século 16, quando o Brasil foi descoberto. O carro-chefe do sistema monetário português era então o cruzado, uma moeda com 3,45 gramas de ouro, inicialmente de 400 réis, aproximadamente equivalente ao florim ou cequim italiano, ao Gulden alemão ou ao escudo francês e espanhol, cujo peso em ouro permaneceu inalterado de 1452 a 1536; chamava-se também "manoel", em homenagem ao rei D. Manuel I, o Venturoso. Circulavam também o tostão de 80 réis, o vintém (também chamado esfera, por levar a insígnia da esfera armilar portuguesa) que valia 1/20 de cruzado ou 20 réis e continha 3,58 gramas de prata e o rial (real castelhano) que nos domínios portugueses valia 36 réis, junto com moedas de ½ e Ό de rial.
Moedas e unidades monetárias portuguesas, 1435 - 1452
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unidade monetária |
valor em réis |
valor médio em Ð |
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|
ceitil |
1/6 |
0,083 |
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|
real |
1 |
0,50 |
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vintém ou esfera |
20 |
10,00 |
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rial |
36 |
18,00 |
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tostão |
80 |
40,00 |
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|
cruzado |
400 |
200,00 |
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Obs.: esses valores em Ð supõem que o poder aquisitivo da prata em Portugal era semelhante ao que tinha na
Inglaterra no mesmo período
A partir de meados do século 16, a receita das especiarias do Oriente e do açúcar brasileiro foram suficientes para proporcionar equilíbrio financeiro ao reino português. A moeda foi estabilizada em 142 réis por grama de ouro (desde 1555) e 13 réis por grama de prata, depois 16 réis (desde 1573), paridades que foram mantidas até 1642. No reinado de D. Sebastião (1577-78), o cruzado voltou a ser cunhado com valor nominal de 500 réis.
A título de curiosidade, em 1553, quando Luís de Camões serviu na Índia como soldado raso, seu soldo anual era de 9$600 réis. O poder aquisitivo desta quantia era na época de aproximadamente Ð 2.100, ou Ð 175 por mês comparável a um salário mínimo de hoje.
O dinheiro chega ao Brasil: 1580 - 1640
A colonização do Brasil, porém, só se iniciou de fato algumas décadas depois do descobrimento e só a partir de 1572 há registros da presença de moedas e de preços na colônia. A escassez de moeda metálica era tão grande que em 1614, por ordem do governador Constantino Menelau, o açúcar passou a valer como dinheiro. O valor da arroba (14,68 kg) de açúcar branco foi fixado em 1$000 réis, o do mascavo em 640 réis, e o das outras espécies em 320 réis (Ð 218,75, Ð 140 e Ð 70, respectivamente). O açúcar branco, portanto, valia Ð 14,90 o quilo era uma rara especiaria. Para comparação, em 27/04/2001 o preço na bolsa de mercadorias para açúcar disponível na usina era de R$ 24,50 a saca de 50 kg ou Ð 0,466 o quilo 32 vezes menor.
De 1580 a 1640, com a união das coroas de Portugal e da Espanha devida à extinção da casa de Avis, passaram a circularar no Brasil as moedas espanholas, sendo que um real espanhol ou hispano-americano valia 40 réis portugueses. A famosa peça espanhola de oito reales chamada em diferentes países peso, táler, dólar ou piastra foi cotada nos domínios portugueses a 320 réis (exceto na Índia, onde valia 480 réis) e conhecida como pataca. No Brasil, circulavam principalmente moedas cunhadas em Potosí, na atual Bolívia.
As únicas moedas cunhadas no Brasil nesse período (em 1645 e 1646) devem-se aos invasores holandeses de Pernambuco: foram cunhadas nos valores de 3, 6 e 12 florins, sendo que na época um florim equivalia aproximadamente a 100 réis. Legalmente, um marco batavo de ouro (247,047 g.) de título 91,67%, deveria fornecer na cunhagem, 32 moedas de 12 Florins (com peso de 7,72 g. ou 5 engels). Como era freqüente em situações coloniais desse período, isso representava um aumento de 20% no valor do ouro em relação ao que teria na metrópole, para que as mesmas não saíssem do país e pudessem ser recolhidas no futuro. Na realidade, os holandeses comercializavam o ouro da Guiné a 296 florins por marco.
Moedas e unidades monetárias portuguesas e brasileiras, 1580-1642
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unidade monetária |
valor em réis |
poder aquisitivo em Ð, cerca de1572 (no Brasil) |
poder aquisitivo em Ð, 1620-1640 (no Brasil) |
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real português |
1 |
0,40 |
0,20 |
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real espanhol |
40 |
16,00 |
8,00 |
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tostão |
80 |
32,00 |
16,00 |
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|
florim holandês (Pernambuco) |
100 |
|
20,00 |
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pataca |
320 |
128,00 |
64,00 |
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|
cruzado |
500 |
200,00 |
100,00 |
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12 florins holandês (Pernambuco) |
1$200 |
|
240,00 |
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Um século único de estabilidade monetária na história brasileira 1722 a 1822 e o primeiro cruzado novo
Depois de fortes desvalorizações de 1642 a 1688 (a última das quais, de 20%, só foi estendida ao Brasil em 1722), o período de 1722 a 1833 foi outro de rara estabilidade no valor da moeda brasileira e portuguesa. Graças à volumosa produção de ouro das Minas Gerais, o real brasileiro permaneceu durante exatos 100 anos na cotação de 1$600 por uma oitava (3,584 gramas ou 1/8 de onça) o que dava 487 réis por grama de ouro puro, ou $100 por oitava de prata a 90%, o que dava 31 réis por grama de prata pura. Durante esse período formaram-se várias denominações monetárias, muitas delas ainda na memória de brasileiros e portugueses. As moedas espanholas continuaram circulando, mas embora o peso hispano-americano valesse agora 750 réis, continuou-se a dar o nome de pataca à moeda de 320 réis, cujo peso havia sido reduzido a menos de metade do original.
O valor de mil réis era representado como 1U000 desde, pelo menos, 1692. O símbolo U, conhecido como "delta", ainda era usado no Brasil do século 19. Tanto no Brasil como em Portugal, porém, o $ (cifrão) começou a ser usado da mesma forma desde 1747. O conto de réis (um milhão de réis) era representado por dois pontos, como 1:000$000. Nomes comuns de moedas no Brasil eram: vintém (20 réis), tostão (80 réis), pataca (320 réis), escudo (1$600), moeda (nominalmente 4$000), peça (6$400), dobra (12$800) e dobrão (nominalmente 20$000, mas valendo na realidade 24 mil réis a partir de 1722). Nos séculos 18 e 19, houve também uma moeda de ouro de 400 réis, chamada pinto ou cruzado novo). O primeiro nome por ser a menor das moedas de ouro (0,89 gramas); o segundo para distingui-lo do cruzado velho de ouro do século 16, cujo valor nominal também havia sido de 400 réis, mas com conteúdo em ouro bem maior (cerca de 1$820, segundo a cotação do ouro após 1722).
O conteúdo em metal do real da Índia era menor que o do português e, portanto, a rúpia valia apenas 360 réis portugueses. Em Angola, havia a macuta, de 50 réis. Na Ilha da Madeira, circulavam os realetes (moeda regional espanhola, de Valência) com valor de 75 réis. Na Índia Portuguesa, havia a rúpia, dividida em 2 pardaus, xelins ou xerafins, 10 tangas, 40 atias e 750 bazarucos. Em meados do século 18 equivalia nominalmente a 600 réis, mas pesava 11,66 gramas.
Em Moçambique, ao lado das moedas portuguesas usava-se como unidade monetária o metical: 4,83 gramas de ouro em pó peso em ouro equivalente ao da antiga moeda de ouro árabe, o dinar colocado no interior de penas de aves (de preferência as maiores penas de pato), cujas extremidades eram tapadas com cera de abelha. 100 meticais faziam uma pasta, 1/8 de metical chamava-se uma tanga. Também se usavam barras de prata com uma onça.
Outras moedas não convencionais da África Portuguesa da época que além de Angola, Moçambique e Guiné incluía várias feitorias ao longo de toda a costa da África Ocidental eram as conchas marinhas. A mais importantes eram os cauris, conchas brancas ou amarelo-claras do tamanho de uma amêndoa, da espécie Cypraea moneta, procedente das ilhas Maldivas e Laquedivas (sudoeste da Índia), ou Cypraea annulus das ilhas Zanzibar e Pemba, (costa oriental da África). Foram usados na costa da África Ocidental do Senegal à Nigéria, no Sael e em partes da África Central (incluindo Uganda) de antes do século 14 (era utilizado entre 1290 e 1352 por mercadores venezianos que atravessavam o Saara) ao início do século 20. Na Ásia, foram usadas em tempos muito mais remotos e parecem ter sido a origem do dinheiro na China (onde eram usados por volta de 1.200 a.C.) pois a palavra chinesa para moeda significava originalmente "concha". Essas conchas chamadas no Brasil de búzios também são usadas pelos babalaôs nos ritos de adivinhação do candomblé de origem iorubá.
Os cauris costumavam ser perfurados e atados em conjuntos, ou reunidos em bolsas. Entre os iorubás, 40 cauris formavam 1 réstia, cinco réstias valiam um cacho (200 cauris) ou uma galinha, dez cachos equivaliam a uma cabeça (2.000 cauris, uma cabaça cheia); dez cabeças equivaliam a uma bolsa (20.000 cauris), pesando cerca de 28 kg. Já entre os fulanis de Sokoto (norte da Nigéria), 20 conchas formavam 1 jalo, 5 jalos valiam 1 hemre (100 cauris) e 10 hemres correspondiam a 1 zambarre (2.000 cauris).
Até o século 16, o nzimbu (Olivancillaria nana), em português zimbo, colhida nas vizinhanças de Luanda, também circulava no reino do Congo, enquanto a marginela (Marginella sp.), natural da Costa Ocidental da África, se limitava à bacia do Níger. Entretanto, o excesso de oferta criado pelos portugueses ao trazer das costas brasileiras outras espécies de zimbos as fez perder todo o valor e serem substituídos pelos cauris do oceano Índico, de acesso um pouco mais difícil.
No império medieval africano do Máli (século 11), 1.150 cauris equivaliam a um dinar ou metical de ouro (enquanto nas Ilhas Maldivas, um dinar era trocado por 40.000 cauris). No século 14, a relação de troca em Timbuctu era de 1.500 cauris por metical, e no final do século 16 havia subido para 3 mil cauris. Esse valor praticamente se manteve até o início do século 19 (em Ashanti, 1820, era de 3.500 cauris por dinar), de modo que, na segunda metade do século 18, um cauri valia 2/3 de um real português. A partir de meados do século 19, porém, a importação crescente de cauris de Zanzibar pelos ingleses o fez perder quase todo o seu valor. Em 1853 eram precisos 8.900 a 12.500 cauris para fazer uma libra esterlina (5.400 a 7.500 por um dinar), em 1863, 20 mil a 28 mil por libra. No final do século 19, 80 mil correspondiam a uma libra esterlina, relação que se manteve no início do século 20 até que Uganda retirou o cauri de circulação em 1901 e a Nigéria e a maioria dos demais países africanos a partir de 1923. Neste início do século 21, porém, ainda são usadas como dinheiro entre povos do sudoeste de Burkina Faso e do norte de Gana.
Outra moeda utilizada com freqüência em Moçambique era o marfim, medido em bares, que equivaliam a 294,76 kg nas regiões de Zambézia e Sofala e a 247,86 kg em Inhambane e na ilha de Moçambique. Um bar de marfim na Zambézia valia, no século 18, cerca de 200$000. Outras unidades de peso do marfim eram o grosso (mais de oito kg), o meão (mais de sete), o miúdo (mais de um) e o seira (menos de um kg).
No século 18, a abundância de ouro estimulou a cunhagem de moedas no Brasil em grandes quantidades. Em 1694, D. Pedro II criou na Bahia a primeira casa da moeda do Brasil, mas foi transferida para o Rio de Janeiro em 1698, para Pernambuco em 1700, e voltou para o Rio de Janeiro em 1703. A menor moeda cunhada no Brasil era de 5 réis, mas em Portugal houve moedas de 1½ e 3 réis e em Moçambique, de 1 real. Foram cunhadas moedas especialmente para serem trocadas pelo ouro em pó obtido nas Minas Gerais à taxa de 1$200 por oitava de ouro (3/4 da cotação oficial do metal). A menor dessas moedas, com valor de 37½ réis e que pagava 112 miligramas (1/32 de oitava) de ouro, era apelidada vintém de ouro.
Um indício interessante da abundância do ouro no Brasil e em Portugal desse período é que o dobrão brasileiro de 20$000, com 53,78 gramas de ouro de 22 quilates (equivalente a 32 pesos ou dólares da época, ou a 6,4 guinéus britânicos), foi provavelmente a moeda de maior valor intrínseco na história do Ocidente, pelo menos entre as de ampla circulação. Apenas algumas medalhas e algumas moedas cunhadas com fins comemorativos ou especiais foram maiores. O conto de réis foi também a maior unidade monetária de conta do Ocidente.
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O dobrão dos ricos... |
Esse ouro, porém, logo se encaminhou para os países que exportavam artigos manufaturados e de luxo para a corte de Portugal principalmente a Inglaterra sem deixar no Brasil qualquer riqueza duradoura além das coleções de obras de arte das igrejas barrocas de Minas Gerais e da Bahia. Às vésperas da chegada da corte de D. João VI ao Brasil em 1808, o meio circulante brasileiro estava reduzido a 10 contos o equivalente a pouco mais de 400 dobrões ou Ð 575.000.
A prata, por outro lado, ainda era relativamente escassa no Brasil. Por isso, as peças de 20, 40 e 80 réis, que em Portugal eram pequenas moedas de prata (vintém, pataco e tostão, respectivamente), foram no Brasil substituídas por grandes moedas de cobre. A maior, de 80 réis e com cerca de 50 mm de diâmetro, cunhada por D. João VI, era aproximadamente do mesmo tamanho do dobrão de ouro, que era famoso, mas raramente visto pelo povo. Por isso, foi também chamada popularmente (e ironicamente) de dobrão. Mais tarde, no reinado de D. Pedro II, muitas das antigas moedas de 80 réis, com cerca de 50 mm de diâmetro, foram carimbadas com o valor de 40 réis.
Além de servir como dinheiro, esses "dobrões" também eram usados para pressionar o arame do berimbau, regulando o seu tom. Hoje em dia, geralmente se prefere usar uma pedra lisa e resistente para essa finalidade, mas por tradição ainda se chama essa pedra de "dobrão".
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... e o "dobrão" dos pobres. |
Moedas e unidades monetárias do império português, 1650-1800
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unidade monetária |
valor em réis |
poder aquisitivo em Ð, 1650-1699 (no Brasil) |
poder aquisitivo em Ð, 1700-1722 (no Brasil) |
valor em réis |
poder aquisitivo em Ð, 1722-1749 (no Brasil) |
poder aquisitivo em Ð, 1750-1799 (no Brasil) |
|
bazaruco (1) |
|
0,048 |
0,032 |
|
0,045 |
0,037 |
|
cauri |
0,5 |
0,069 |
0,046 |
0,67 |
0,062 |
0,051 |
|
real português |
1 |
0,138 |
0,091 |
1 |
0,093 |
0,077 |
|
vintém |
20 |
2,76 |
1,82 |
20 |
1,86 |
1,54 |
|
réstia de cauris |
20 |
2,76 |
1,82 |
26,7 |
2,48 |
2,04 |
|
vintém de ouro |
|
|
|
37½ |
3,49 |
2,89 |
|
pataco |
40 |
5,52 |
3,64 |
40 |
3,72 |
3,08 |
|
macuta |
50 |
6,90 |
4,55 |
50 |
4,65 |
3,85 |
|
realete |
|
|
|
75 |
6,98 |
5,78 |
|
tostão |
80 |
11,04 |
7,28 |
80 |
7,44 |
6,16 |
|
cacho de cauris |
100 |
13,80 |
9,10 |
133 |
12,40 |
10,20 |
|
meia-pataca |
160 |
22,08 |
14,56 |
160 |
14,88 |
12,32 |
|
pataca |
320 |
44,16 |
29,12 |
320 |
29,76 |
24,64 |
|
rúpia (1) |
|
35,88 |
23,66 |
|
33,48 |
27,72 |
|
cruzado novo |
|
|
|
400 |
37,20 |
30,80 |
|
patacão (2) |
640 |
88,32 |
58,24 |
750 |
69,75 |
57,75 |
|
onça de prata |
|
|
|
800 |
74,40 |
61,60 |
|
escudo |
|
|
|
1$600 |
148,80 |
123,20 |
|
cabeça de cauris |
1$000 |
138,00 |
91,00 |
1$333 |
124,00 |
102,00 |
|
metical |
1$500 |
207,00 |
136,50 |
2$000 |
186,00 |
154,00 |
|
moeda (3) |
4$000 |
552,00 |
364,00 |
4$800 |
446,40 |
369,60 |
|
peça |
|
|
|
6$400 |
595,20 |
492,80 |
|
dobra |
|
|
|
12$800 |
1.190,40 |
985,60 |
|
bolsa de cauris |
10$000 |
1.380,00 |
910,00 |
13$333 |
1.240,00 |
1.020,00 |
|
dobrão (4) |
20$000 |
2.760,00 |
1.820,00 |
24$000 |
2.232,00 |
1.848,00 |
|
bar de marfim |
|
|
|
200$000 |
18.600,00 |
15.400,00 |
|
conto de réis |
1:000$000 |
138.000,00 |
91.000,00 |
1:000$000 |
93.000,00 |
77.000,00 |
(1) Avaliado segundo o peso da rúpia em prata. Ela valia nominalmente 480 réis e depois 600 réis, mas o real da Índia Portuguesa valia menos que o da metrópole e do Brasil.
(2) O patacão era, na realidade, o peso espanhol, que circulou com o valor de 750 réis até 1808, quando foi carimbado com o valor de 960 réis por ordem de D. João VI.
(3) o valor de face era de 4 mil réis, mas, após a desvalorização dos réis em 1722, passou a valer 4$800.
(4) O valor de face era de 20 mil réis, mas, após a desvalorização dos réis em 1722, passou a valer 24$000.
Os mil-réis do Brasil independente: 1822 - 1942
Em 1822, a independência do Brasil separou os dois sistemas monetários e provocou crises inflacionárias tanto no Brasil quanto em Portugal. Mais forte no Brasil, pois quando D. João VI retornou a Portugal, levou consigo o tesouro nacional. As reservas bancárias brasileiras reduziram-se a 20 contos de réis (Ð 800.000). Desde o dia 28 de julho de 1821, a conversibilidade do papel-moeda em ouro havia sido suspensa. Passou-se a emitir papel-moeda sem lastro metálico suficiente, ocasionando a progressiva desvalorização do dinheiro.
A libra esterlina, que valia 3$555 antes de 1822, foi temporariamente reestabilizada em 4$166 em Portugal a partir de 1826 (ou 1$875 por oitava de ouro) e em 5$555 no Brasil a partir de 1833 (ou 2$500 por oitava de ouro). Nesse período, um mil-réis português valia 1$333 brasileiros.
Isso não foi suficiente: a inflação continuou e novas reformas monetárias se mostrariam necessárias em ambos os países. No Brasil, a partir de 1846, a oitava de ouro passou a valer 4$000 e a libra esterlina passou a valer 9$000.
Além disso, em ambos os países a unidade monetária oficial deixou de ser o real para ser o mil-réis, até que este foi substituído em Portugal pelo escudo (em 1910) e no Brasil pelo cruzeiro (em 1942).
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O mil-réis (na versão da república velha) |
Em Portugal, moedas do período anterior continuaram circulando, mas com seu valor nominal aumentado em 15% a 25%. Assim, o tostão tornou-se uma moeda de 100 réis, o cruzado novo (ou pinto) de 480 réis e a peça tornou-se uma moeda de 7$500 réis. Além disso, para combater a escassez de meio circulante no país, o governo português permitiu a circulação de moedas estrangeiras e logo circulavam em Portugal moedas de 36 países diferentes.
Essa confusão mostrou-se prejudicial para os negócios. Para racionalizar o meio circulante, em 1853, Portugal tornou-se o segundo país do mundo (depois do Reino Unido) a adotar a uma moeda totalmente baseada no ouro ou melhor, na libra esterlina e a prata deixou de ser de aceitação obrigatória para pagamentos acima de 5$000. A paridade definida era de 1,7735 mg de ouro com um título de 916 2/3 por real (ou 1,6257 mg de ouro fino), de modo que o par com a libra se fixasse em 4$500 réis (ou 53 1/3 pence por mil-réis). A libra esterlina passou a ser a única moeda estrangeira com curso legal em Portugal. Com isso, na segunda metade do século 19, o mil-réis português passou a valer o dobro do brasileiro. Com a busca de racionalização e decimalização do sistema monetário: as principais moedas portuguesas passaram a ser o tostão de 100 réis, a coroa de prata de 1$000 e a coroa de ouro de 10$000.
No Brasil, o sistema monetário também tendeu à simplificação. A partir de 1849 foram cunhadas novas denominações com base no novo padrão de 9 mil-réis por libra, como tostões de 100 réis, moedas de mil-réis e peças de ouro de 10$000 e 20$000, estas com 8,9648 g e 17,9296 g de ouro de 22 quilates, respectivamente. Apesar do câmbio do papel-moeda continuar a se desvalorizar, essas moedas de ouro continuaram a ser cunhadas até 1922 quando, em papel-moeda, o dólar já valia 7$740 e a libra 35$660.
Moedas e unidades monetárias brasileiras, 1822-1899
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unidade monetária |
valor em réis |
poder aquisitivo em Ð, 1822-1830 |
poder aquisitivo em Ð, 1830-1840 |
poder aquisitivo em Ð, 1850 - 1874 |
poder aquisitivo em Ð, 1875-1900 |
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cinco réis |
5 |
0,20 |
0,15 |
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dez réis |
10 |
0,40 |
0,30 |
0,23 |
0,14 |
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vintém |
20 |
0,80 |
0,60 |
0,46 |
0,28 |
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dois vinténs (1) |
40 |
1,60 |
1,20 |
0,92 |
0,56 |
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tostão |
100 |
4,00 |
3,00 |
2,30 |
1,36 |
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cruzado novo |
400 |
16,00 |
12,00 |
9,20 |
5,44 |
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patacão (1) |
960 |
38,40 |
28,80 |
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mil-réis |
1$000 |
40,00 |
30,00 |
23,05 |
13,60 |
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dez mil-réis |
10$000 |
400,00 |
300,00 |
230,50 |
136,00 |
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conto de réis |
1:000$000 |
40.000 |
30.000 |
23.050 |
13.600 |
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(1) Os primeiros patacões eram pesos espanhóis, carimbados com o valor de 960 réis por ordem de D. João VI, mas nos reinados de D. João VI e de D. Pedro I também foram cunhadas moedas de 960 réis na Casa da Moeda do Brasil.
Os nem tão saudosos tempos do cruzeiro
Cogitou-se, na década de 20, de reduzir em 10% o peso da moeda de ouro 10$000 e transformá-la numa nova moeda chamada cruzeiro, com o mesmo valor da libra esterlina cujo poder aquisitivo era então de Ð 65 no Reino Unido em 1927, mas Ð 122 no Brasil se convertida pela taxa de câmbio corrente. Essas moedas chegaram a ser cunhadas experimentalmente em 1927, mas não foram postas em circulação. O projeto era extremamente irrealista, pois exigiria uma deflação ainda mais brutal do que aquela que estava sendo imposta ao Reino Unido na mesma época, onde os preços caíram quase 60% entre 1920 e 1932. Com as convulsões financeiras resultantes da crise de 1929, a queda dos preços do café que tornou inevitável a suspensão do pagamento da dívida brasileira e uma explosão da inflação dos anos seguintes, a idéia foi engavetada.
Só na década de 40, com o mil-réis aparentemente estabilizado numa relação próxima de 20$000 por dólar, o cruzeiro foi finalmente implantado, mas com o mesmo valor do antigo mil-réis. A quantia de 1 milhão de réis continuou a se chamar conto, mas agora equivalia a mil cruzeiros. Após o final da II Guerra Mundial e a conferência de Bretton Woods, a paridade do cruzeiro foi oficialmente fixada em Cr$ 18,72 por dólar e este manteve a paridade de 35 dólares por onça (31,103g) de ouro puro, de forma que o cruzeiro correspondia exatamente a 0,047471 g de ouro.
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O primeiro cruzeiro (na versão de Getúlio Vargas) |
Essa taxa se manteve oficialmente de agosto/46 a janeiro/53. Porém, devido à elevada inflação que acompanhou o processo de industrialização e desenvolvimento a partir dos anos 50, essa paridade teve de ser abandonada. A moeda brasileira desvalorizou-se com enorme velocidade nas décadas seguintes e o Brasil efetuou mais sete reformas monetárias entre 1967 e 1994.
A primeira reforma monetária, de 1967, foi puramente contábil mil cruzeiros velhos (ou um conto) passaram a fazer um cruzeiro novo. O modelo parece ter sido a reforma efetuada em 1960 na
França, onde cem francos velhos tornaram-se um franco novo, em parte por comodidade contábil, em parte por uma questão de orgulho nacional.|
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O cruzeiro novo da ditadura militar |
Economicamente muito mais importante havia sido a introdução, alguns anos antes (setembro/1964) do primeiro indexador oficial, a Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN), que ofereceu ao mercado financeiro e aos empreiteiros uma segunda moeda que efetivamente mantinha seu valor real, ao passo que o salário pago aos trabalhadores fosse em cruzeiro velho, fosse em cruzeiro novo continuava sendo corroído pela inflação.
Desde então, o Brasil passou, na prática, a conviver com um padrão monetário duplo, situação que perdurou, com breves interrupções, por 36 anos até o final de 2000, quando o último (até agora) indexador oficial, a UFIR, foi abolido. Essa solução mostrou-se um mal menor em relação à de outros países latino-americanos de inflação elevada, como a Argentina, onde não houve indexador oficial e o dólar assumiu esse papel na prática. Enquanto funcionou adequadamente, a existência de um indexador oficial evitou (até certo ponto) que as flutuações do câmbio fossem automaticamente repassadas para os preços, que o sistema financeiro caísse em total descrédito e que as poupanças se dirigissem totalmente para contas no exterior ou para dólares "debaixo do colchão". Ao contrário do que aconteceu na Argentina, a era da superinflação no Brasil foi de grande prosperidade para o setor bancário: os bancos chegaram a obter ganhos superiores a 20% mensais com a diferença entre a correção monetária de suas aplicações e a ausência de correção das contas correntes. Isso exigiu uma enorme agilidade, de forma que a informatização dos bancos brasileiros foi extremamente precoce em relação a de outros países periféricos e mesmo centrais.
Porém, a partir de 1973, a crise no balanço de pagamentos provocada pela súbita elevação do preço do petróleo e dos juros da dívida externa fez a ditadura militar perder o controle da inflação e das contas públicas. Durante algum tempo, tentou maquiar-se os índices oficiais de inflação, obrigando a FGV a calculá-los com base em preços tabelados pelo governo e não nos preços efetivamente praticados no mercado. A aceleração da inflação, porém, tornou impossível manter esse disfarce por mais que alguns meses. Ao mesmo tempo, a crescente insatisfação corroía a base de apoio da ditadura militar entre empresários e a classe média principalmente a partir da década de 80, quando a impossibilidade de continuar rolando a dívida pública com o seu valor real levou o governo a limitar a taxa de reajuste da própria ORTN a um índice bem inferior ao da inflação real.
O ressurgimento do movimento sindical a partir de 1979 e o enfraquecimento do regime militar, que acabou entregando o poder a civis em 1985, estenderam gradualmente a prática do reajuste mensal aos próprios salários, apesar disso não se mostrar suficiente para preservar seu valor real. A superinflação já instalada ameaçou transformar-se numa hiperinflação incontrolável e levar à queda do recém-instalado governo de José Sarney.
O dinheiro dá marcha a ré: de volta ao cruzado e depois ao real.
Para deter a inflação, foi então implantado o primeiro Plano Cruzado, seguindo o modelo do recente Plano Austral argentino: implantou-se uma moeda nova, o cruzado, na qual preços e salários foram congelados (os salários com um reajuste de 8%) na razão de 1 cruzado por 1.000 cruzeiros. Criou-se também um "gatilho" salarial, pelo qual todos os salários seriam reajustados quando a inflação acumulada (medida pelo recém-criado IPC do IBGE) superasse 20%. A população foi convocada para ajudar na fiscalização dos preços, o que nos primeiros meses do plano fez com grande entusiasmo.
O cruzeiro continuou existindo para fins de pagamento de dívidas em cruzeiros anteriores à reforma monetária e se desvalorizava diariamente em relação ao cruzado segundo uma taxa de inflação presumida, publicada no que foi chamado, como na Argentina, de tablita. A ORTN passou a se chamar simplesmente OTN porque deixou, por algum tempo, de ser reajustável.
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O cruzado de José Sarney e Dílson Funaro |
Curiosamente, os economistas que prepararam a implantação do Plano não tinham consciência de que cruzado já havia sido o nome de uma moeda brasileira e portuguesa: para eles, era apenas o codinome de cruzeiro estabilizado. Foi o Presidente Sarney que se lembrou da existência dessa conexão histórica e tornou esse nome oficial. Para ele, porém, o cruzado nunca foi muito mais do que uma estratégia para capitalizar o apoio popular e tentar vencer as eleições de 1986 para a Assembléia Constituinte. Em vez de tentar diminuir o déficit público, seja por aumento de impostos, seja por corte de despesas, o governo voltou a fazer gastos financiados por emissões inflacionárias para apoiar os candidatos de sua base de apoio parlamentar. Além disso, a combinação de câmbio artificialmente estabilizado com o aumento do poder de compra da população causou sério desequilíbrio da balança comercial.
Assim que as urnas foram fechadas, Sarney abandonou o único sustentáculo do plano, os esforços para fiscalizar os preços congelados e a inflação disparou. Seis dias após a eleição de 1986, 21 de novembro, o Plano Cruzado II liberou os preços e aumentou os impostos de cigarros e bebidas. Bebidas imediatamente subiram 100%; automóveis, 80%; combustíveis 60%. Em 20 de janeiro de 1987, com o agravamento da crise no balanço de pagamentos, foi decretada moratória da dívida externa.
O ministro Dílson Funaro foi substituído por Luís Carlos Bresser Pereira em 29 de abril de 1987, com a inflação já acima de 20% ao mês. Logo depois, foi implantado o chamado plano Bresser (junho de 1987): preços, aluguéis e salários foram novamente congelados por dois meses e extinto o "gatilho" salarial. Para reduzir o déficit público, foram aumentados os impostos, abolido o subsídio ao trigo e canceladas grandes obras já planejadas, incluindo a Ferrovia Norte-Sul, um novo pólo petroquímico no Rio de Janeiro e um trem-bala entre Rio e São Paulo. As negociações com o FMI foram retomadas e a moratória suspensa. Essas impopulares medidas de "austeridade" poderiam ter prolongado a vida do Cruzado I se adotadas mais cedo, mas o governo já estava quebrado e sua política econômica havia caído num descrédito total. A inflação logo voltou a acelerar. Em 6 de janeiro de 1988 o ministro Bresser saiu, e no seu lugar entrou Maílson da Nóbrega. Este, no início, tentou praticar uma gestão "arroz com feijão", sem planos mirabolantes, mas a inflação crescente continuava a exigir medidas mais drásticas.
Em janeiro de 1989, Maílson da Nóbrega apresentou o plano Verão I: extinguiu a OTN e a correção monetária, mas deixou no seu lugar a BTN, que logo passou a ser corrigida. Fez novo congelamento de preços e outra reforma contábil, criando um cruzado novo (outro nome inconscientemente resgatado da história) com valor de 1.000 cruzados antigos, com a intenção de ancorá-lo permanentemente ao dólar. Maílson propôs a privatização de diversas estatais, cortes nos gastos públicos e exoneração de funcionários contratados nos últimos cinco anos, mas isso não chegou a ser implementado. A taxa de câmbio inicial, de exatamente um dólar por cruzado novo, já em abril não mais podia ser sustentada. Veio o chamado plano Verão II (maio de 1989), que teve como principal conseqüência expurgar em 16,65% a correção monetária, inclusive de poupanças, salários e FGTS. Apesar disso, a inflação voltou a explodir e em março/90, mês da posse de Fernando Collor, sucessor de Sarney, atingiu seu recorde na história brasileira: 84,32% ao mês (segundo o IPC-FGV).
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O cruzado novo de Sarney e Maílson da Nóbrega |
Ao tomar posse em 15 de março, Collor colocou em prática a mesma estratégia que havia atribuído a Lula durante a campanha eleitoral: implantou um plano de estabilização que tinha como base um enxugamento drástico do dinheiro em circulação através do confisco (oficialmente, "bloqueio") de todos os depósitos bancários e poupanças (incluindo FGTS) acima de 50 mil cruzados novos, que valiam Ð 5.462 no início de março, mas Ð 2.962 no final do mês.
O nome da moeda brasileira voltou a ser cruzeiro, valendo nominalmente o mesmo que o cruzado novo. A finalidade não era cortar zeros, mas diferenciá-lo do dinheiro confiscado e implantar uma nova tablita, novamente descontando as dívidas existentes em cruzados novos segundo uma taxa de inflação presumida.
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O segundo cruzeiro, de Fernando Collor e Zélia |
Como não houve correção monetária referente à primeira quinzena de março das quantias confiscadas (que deveria ter sido de pelo menos 44,8%) tudo se passou como se a conversão das poupanças fosse de 1,448 para 1, sem contar sua retenção por prazo indefinido. Historicamente, a operação pareceu uma versão um pouco amenizada das reformas monetárias de junho de 1948 na
Alemanha Ocidental e julho de 1990 na Alemanha Oriental, onde salários, contratos e poupanças até um determinado valor limite foram convertidos numa nova moeda à base de 1 para 1, mas as poupanças acima desse pequeno valor (incluindo, no caso alemão, as poupanças em papel-moeda) sofreram uma forte desvalorização.Porém, enquanto na Alemanha o confisco foi aberto e claramente irreversível, no Brasil, tentou-se camuflar seu caráter: as poupanças confiscadas foram tratadas como um empréstimo compulsório por prazo não claramente definido e governo e bancos simplesmente escamotearam a inflação de março. Com o pretexto de que o indexador havia sido abandonado, creditaram às poupanças confiscadas um rendimento de apenas 2% a 4% referente a esse mês. Pouco depois, várias entidades começaram a entrar na Justiça pleiteando a restituição dos valores não creditados. No ano de 2001, esse imbroglio jurídico armado por Collor continua sem ser desatado: embora os sindicatos tenham teoricamente obtido de FHC a correção atrasada do FGTS, os trabalhadores ainda não a conseguiram receber.
O confisco mostrou-se inútil: as quantias retidas de pessoas jurídicas logo tiveram de ser liberadas para possibilitar o funcionamento da economia e antes que as de pessoas físicas também fossem por sua vez gradualmente devolvidas, a própria necessidade de emissão do governo já estava novamente inflacionando a economia. Embora tivesse dito, em março de 1990, que seu primeiro plano era a "única bala" em seu "revólver", Collor voltou à carga em janeiro de 1991, com um Plano Collor II que cuja principal conseqüência foi a abolição da BTN e, portanto, da correção monetária das dívidas públicas. Porém, na prática a BTN continuou a existir formalmente para fins de correção de impostos, multas e serviços públicos na forma de Unidade Fiscal de Referência (UFIR) e informalmente também nos contratos privados, através da aplicação da TR Taxa de Referência uma taxa de juros básica que havia sido criada como referência para o mercado financeiro e não como indexador de inflação, mas assim foi considerada pelo mercado (apesar de geralmente superar a inflação real).
Fernando Collor foi deposto através de impeachment e seu sucessor, Itamar Franco, mais uma vez tentou estabilizar a economia. Em agosto de 1993, foi criado o cruzeiro real (CR$) com valor de 1.000 cruzeiros. Seria mais uma operação meramente contábil se em seguida não tivesse sido apresentado o Plano Real.
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5 cruzeiros reais de Itamar Franco |
Em vez de se criar de surpresa uma nova moeda acompanhada de uma tablita para desvalorizar as dívidas antigas, desta vez primeiro foi introduzido um novo indexador a Unidade Referencial de Valor ou URV, reajustada diariamente e com valor de um dólar (não exatamente, por que sua correção não era precisamente igual à do câmbio) e os preços, tarifas e salários passaram logo a ser fixadas em URVs, embora o cruzado real continuasse circulando fisicamente e sofrendo elevada inflação até 30 de junho de 1994, quando deixou oficialmente de existir e foi lançada como nova moeda o Real, valendo exatamente 1 URV inicialmente igual a um 1 dólar.
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O real de Fernando Henrique Cardoso (primeira versão) |
Foi a maior substituição de dinheiro já realizada no mundo, recorde que só deverá ser quebrado com a troca das moedas européias pelo euro em 01/01/2002. O Banco Central recolheu e incinerou 3,4 bilhões de cédulas de cruzeiro real e emitiu 1,5 bilhão de cédulas de real, no valor total de 27 bilhões de reais (Ð 53,5 bilhões) 90% fabricadas na Casa da Moeda, do Rio de Janeiro, e 10% impressas em 4 países. Também foram distribuídos 900 milhões de moedas de aço inoxidável, com um peso total de 2 mil toneladas. A mudança custou aos cofres do governo 10 milhões de reais (Ð 19,8 milhões).
Mais uma vez, os economistas trouxeram de volta um nome que já havia sido o da moeda brasileira e aparentemente sem perceber, pois a intenção era dar a entender que a moeda agora tinha "valor real". A rigor, os nomes do Real antigo e o do atual são duas palavras etimologicamente diferentes: o primeiro (por ter seu valor garantido pela monarquia portuguesa), vem do latim rex (rei), tinha como plural réis e era cognato de "realeza". Já o segundo vem do latim res (coisa) tem como plural reais e é cognato de "realidade", por representar a promessa de um valor mais constante em termos reais.
Essa promessa não foi inteiramente cumprida: em dezembro/2000 o poder aquisitivo do real já havia se reduzido à metade do que era em agosto/1994. Mesmo assim, e apesar do ceticismo inicial da oposição, o Plano Real mostrou-se muito mais eficaz e duradouro que os planos anteriores. Não por que sua concepção que simplesmente inverteu a ordem dos fatores do Plano Cruzado tenha sido tecnicamente muito superior à dos planos precedentes, mas por que sua articulação política, facilitada pela união de centristas e conservadores frente ao risco de vitória do PT e pelo esgotamento do movimento sindical frente ao desemprego, foi mais cuidadosa e bem preparada e permitiu que fossem efetuadas parte da necessária redução do déficit público, sem o qual as emissões inflacionárias teriam que continuar.
Na prática, essa redução do déficit público significou uma forte deterioração dos serviços públicos (principalmente nas áreas de Saúde e Educação) e seus efeitos foram em grande parte anulado pela necessidade de assumir as dívidas de vários bancos mal administrados que, após perder os ganhos que tinham com as elevadas taxas de inflação não repassadas para as contas correntes de seus clientes, logo foram à falência.
Como na Argentina, mas com menor rigidez, o sustentáculo do valor do Real passou a ser a fixação da taxa de câmbio com o dólar. Nos primeiros meses de vigência do plano, o retorno de dólares ao país e a entrada de investimentos estrangeiros havia alterado a paridade inicial em favor do real: o dólar chegou a ser cotado a apenas R$ 0,84, isto é, o real chegou a valer US$ 1,19, para felicidade da classe média, consumidora de importados e de viagens a Miami.
Essa taxa de câmbio era irreal em relação à competitividade efetiva dos exportadores brasileiros e, combinada com a abertura do mercado brasileiro aos produtos importados, originou um déficit comercial brutal e crescente. Dependendo do fluxo de investimentos estrangeiros, essa situação poderia ter sido sustentada por mais tempo, mas a crise mexicana do final de 1994 deflagrada precisamente pela incapacidade do governo mexicano de manter uma paridade irreal frente ao crescente ceticismo dos investidores ameaçou interrompê-lo e o governo optou por desvalorizar gradualmente o real, de forma a evitar o agravamento do déficit comercial e inspirar mais confiança quanto à sustentação da estabilidade a longo prazo.
Porém, essas pequenas desvalorizações, mesmo combinadas com o fechamento do mercado brasileiro a certos produtos importados (principalmente automóveis), não se mostraram suficientes para restaurar o equilíbrio da balança comercial e as pressões por uma desvalorização mais significativa foram aumentando à medida que se agravava a instabilidade internacional e outros países (a começar pela Tailândia) promoviam fortes desvalorizações. No início de 1999, o presidente do BC Gustavo Franco, principal defensor da estabilidade cambial, foi afastado e substituído por Francisco Lopes. A intenção era promover uma desvalorização apenas ligeiramente mais rápida, mas no ambiente de convulsão financeira daqueles dias, a "banda diagonal endógena" imaginada por Lopes revelou-se uma quimera. O real passou a flutuar livremente e desvalorizou-se em mais de 50% frente ao dólar.
Francisco Lopes foi rapidamente afastado e substituído por Armínio Fraga, um empregado do especulador internacional George Soros. A única garantia da relativa estabilidade do real passaram a ser as metas de inflação estabelecidas pelo BC, isto é, a promessa de Armínio Fraga de que elevaria os juros quanto fosse necessário para impedir que essas metas fossem seriamente ultrapassadas.
Os efeitos do fim da estabilidade cambial sobre a inflação foram muito menores do que os imaginados pelos que defendiam sua continuação, como Gustavo Franco e, até fins de 1998, o próprio Francisco Lopes. Por outro lado, os efeitos sobre a balança comercial também foram muito menores do que os defensores da desvalorização haviam imaginado. O problema continuou e a partir do final de 2000 voltou a se agravar. Combinado com o agravamento da crise argentina, com o esfriamento da economia norte-americana depois de uma década de expansão e com a redução do fluxo do investimento estrangeiro, resultou em nova desvalorização do Real. Apesar do aumento das taxas de juros, as metas inflacionárias, último sustentáculo do Plano Real estão ameaçadas. Que virá depois a volta da libra de Afonso III ou do morabitino de D. Afonso Henriques?
Poder aquisitivo médio da unidade monetária brasileira em Ð, de 1550 a 2000
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Período |
unidade monetária |
valor médio da unidade em Ð |
indexador oficial (1) |
valor médio do indexador em Ð |
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1550 a 1599 |
real |
0,3521 |
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1600 a 1649 |
real |
0,2058 |
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1650 a 1699 |
real |
0,1447 |
|||||||
|
1700 a 1749 |
real |
0,0967 |
|||||||
|
1750 a 1799 |
real |
0,0817 |
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1800 a 1849 |
mil-réis (a partir de 1833) |
39,66 |
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1850 a 1874 |
mil-réis |
23,05 |
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1875 a 1899 |
mil-réis |
13,60 |
|||||||
|
1900 a 1914 |
mil-réis |
7,86 |
|||||||
|
1915 a 1919 |
mil-réis |
6,10 |
|||||||
|
1920 a 1924 |
mil-réis |
3,47 |
|||||||
|
1925 a 1929 |
mil-réis |
2,46 |
|||||||
|
1930 a 1934 |
mil-réis |
2,63 |
|||||||
|
1935 a 1939 |
mil-réis |
2,12 |
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1940 a 1944 |
cruzeiro (a partir de 1942) |
1,32 |
|||||||
|
1945 a 1949 |
cruzeiro |
0,596 |
|||||||
|
1950 a 1954 |
cruzeiro |
0,350 |
|||||||
|
1955 a 1959 |
cruzeiro |
0,142 |
|||||||
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1960 a 1964 |
cruzeiro |
superinflação (2) |
ORTN |
88,73 |
|||||
|
1965 a 1966 |
cruzeiro |
0,00544 |
ORTN |
89,24 |
|||||
|
1967 a 1969 |
cruzeiro novo (3) |
2,86 |
ORTN |
90,17 |
|||||
|
1970 a 1974 |
cruzeiro |
1,365 |
ORTN |
88,32 |
|||||
|
1975 a 1979 |
cruzeiro |
0,362 |
ORTN |
75,60 |
|||||
|
1980 a 1984 |
cruzeiro |
0,0202 |
ORTN |
46,76 |
|||||
|
1985 a 1989 |
cruzado (a partir de 1986) |
superinflação (2) |
OTN (a partir de 1986) |
37,45 |
|||||
|
1990 a 1994 |
cruzado novo, cruzeiro e cruzeiro real |
superinflação (2) |
UFIR (a partir de 1991) |
1,477 |
|||||
|
1995 a 1999 |
real |
1,238 |
UFIR |
1,093 |
|||||
|
dez/2000 |
real |
0,964 |
UFIR |
1,026 |
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Notas: |
(1) No Brasil, a partir de 1964, foram oficialmente adotados indexadores oficiais e extra-oficiais para preservar (relativamente) o valor real de aplicações financeiras, multas e impostos. Em várias ocasiões, preços e salários também foram fixados nesses indicadores, que assim funcionaram como moedas de conta, ou quase-moedas. Os mais importantes foram ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional), OTN (Obrigação do Tesouro Nacional), BTN (Bônus do Tesouro Nacional), SMR (Salário Mínimo de Referência), UFIR (Unidade Fiscal de Referência) e a URV (Unidade Reajustável de Valor), depois transformada no Real. Esta tabela resumida mostra apenas o mais importante de cada período. Para mais detalhes, ver dinheiro01d.xls.(2) Nestes períodos, a inflação foi tão elevada que não tem sentido calcular uma média de cinco anos. Os únicos períodos de relativa estabilidade foram abril a dezembro de 1964, quando o cruzeiro valeu, em média, Ð 0,01 e março a outubro de 1986, quando o cruzado valeu, em média, Ð 0,395. Para o valor da moeda brasileira nestes períodos, consulte a tabela anual em dinheiro01c.xls ou, de preferência, a tabela mensal em dinheiro01d.xls.(3) O cruzeiro novo foi adotado em 1967, valendo mil cruzeiros antigos (então Ð 3,82), mas em 1970 passou a se chamar simplesmente cruzeiro. |
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Conteúdo em metal do real português de 1435 a 1889
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Período de Vigência |
Fundamento Legal |
Equivalência em metais; Portugal (1) |
Equivalência em metais; Brasil (1) |
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1435 a 1452 |
n/d |
31 mg de ouro de 22 1/8 quilates; 1,13 g de bolhão com 25% de prata |
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1452 a 1555 |
n/d |
10,14 mg de ouro 22 1/8 quilates; 98,3 mg de prata 37/40 |
10,14 mg de ouro 22 1/8 quilates; 98,3 mg de prata 37/40 |
|
1555 a 1573 |
n/d |
7,8 mg de ouro de 22 1/8 quilates; 83,2 mg de prata 37/40 |
7,8 mg de ouro de 22 1/8 quilates; 83,2 mg de prata 37/40 |
|
1573 a 1642 |
n/d |
7,8 mg de ouro de 22 1/8 quilates; 67,6 mg de prata 37/40 |
7,8 mg de ouro de 22 1/8 quilates; 67,6 mg de prata 37/40 |
|
1642 a 1646 |
n/d |
4,2 mg de ouro de 22 quilates |
4,2 mg de ouro de 22 quilates |
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1646 a 1662 |
n/d |
3,1 mg de ouro de 22 quilates |
3,1 mg de ouro de 22 quilates |
|
1662 a 1667 |
n/d |
2,8 mg de ouro de 22 quilates |
2,8 mg de ouro de 22 quilates |
|
1667 a 04/08/1688 |
n/d |
2,69 mg de ouro de 22 quilates |
2,69 mg de ouro de 22 quilates |
|
04/08/1688 a 04/04/1722 |
n/d |
2,24 mg de ouro de 22 quilates; 35,84 mg de prata a 90% |
2,69 mg de ouro de 22 quilates (2) |
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1722 a 01/09/1818 |
decreto S/N de 04/08/1688 |
2,24 mg de ouro de 22 quilates; 35,84 mg de prata a 90% |
2,24 mg de ouro de 22 quilates; 35,84 mg de prata a 90% |
|
01/09/1808 a 07/10/1833 |
alvará S/N de 01/09/1808 |
2,24 mg de ouro de 22 quilates |
2,24 mg de ouro de 22 quilates |
|
01/09/1808 a 28/07/1821 |
alvará S/N de 01/09/1808 |
2,24 mg de ouro de 22 quilates |
2,24 mg de ouro de 22 quilates |
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28/07/1821 a 1826 |
n/d |
2,24 mg de ouro de 22 quilates |
não conversível |
|
1826 a 07/10/1833 |
n/d |
1,911 mg de ouro de 22 quilates |
não conversível |
|
07/10/1833 a 1846 |
lei n o 59, de 08/10/1833 |
1,911 mg de ouro de 22 quilates |
1,434 mg de ouro de 22 quilates (3) |
|
1846 a 29/07/1854 |
n/d |
1,911 mg de ouro de 22 quilates |
0,896 mg de ouro de 22 quilates (4) |
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29/07/1854 a 1910 |
Carta de Lei de 29 de Julho de 1854. |
1,7735 mg de ouro de 22 quilates |
0,896 mg de ouro de 22 quilates (5) |
(1) uma oitava = 3,584 gramas; 22 1/8 quilates = 92,1875%; 22 quilates = 91,667%; 5/12 = 41,667%, 37/40 = 92,5%
(2) neste período, mil réis brasileiros valiam 1$200 réis portugueses
(3) neste período, mil réis brasileiros valiam 750 réis portugueses
(4) neste período, mil réis brasileiros valiam 469 réis portugueses
(5) neste período, mil réis brasileiros valiam 505 réis portugueses
Demonstrativo das alterações legais da unidade monetária brasileira
|
Moeda Vigente |
Símbolo |
Período de Vigência |
Fundamento Legal |
Equivalência |
valor nominal em réis |
Plano Econômico |
|
Libra |
£ |
1253 a 1435 |
n/d |
1/12 de marco de prata |
1/35 |
|
|
Real |
Rs |
1435 a 8/10/1833 |
n/d |
35 libras |
1 |
|
|
Mil-Réis |
1$000 |
8/10/1833 a 31/10/1942 |
lei n o 59, de 08/10/1833 |
1.000 réis |
1$000 |
|
|
Cruzeiro |
Cr$ |
01/11/1942 a 30/11/1964 |
decreto lei n o 4791, de 05/10/1942 |
Cr$ 1,00 = 1$000 (um mil-réis torna-se um cruzeiro) |
1$000 |
|
|
Cruzeiro (eliminando os centavos) |
Cr$ |
01/12/1964 a 12/02/1967 |
lei n o 4511, de 01/12/1964 |
Cr$ 1 = Cr$ 1,00 |
1$000 |
|
|
Cruzeiro Novo |
NCr$ |
13/02/1967 a 14/05/1970 |
decreto-lei n o 1 de 13/11/1965 |
NCr$ 1,00 = Cr$ 1.000 |
1:000$000 |
|
|
Cruzeiro |
Cr$ |
15/05/1970 a 14/08/1984 |
resolução do Banco Central n o 144, de 31/03/1970 |
Cr$ 1,00 = NCr$ 1,00 |
1:000$000 |
|
|
Cruzeiro (eliminando os centavos) |
Cr$ |
15/08/1984 a 27/02/1986 |
lei n o 7214, de 15/08/1984 |
Cr$ 1 = Cr$ 1,00 |
1:000$000 |
- |
|
Cruzado |
Cz$ |
28/02/1986 a 15/01/1989 |
decreto-lei n o 2283, de 27/02/1986 |
Cz$ 1,00 = Cr$ 1.000 |
1.000:000$000 |
Cruzado I 02/86 Cruzado II 11/86 Bresser 06/87 |
|
Cruzado Novo |
NCz$ |
16/01/1989 a 15/03/1990 |
medida provisória n o 32, de 15/01/1989, convertida na lei no 7730, de 31/01/1989 |
NCz$ 1,00 = Cz$ 1.000,00 |
1.000.000:000$000 |
Verão I 01/89 Verão II 05/89 |
|
Cruzeiro |
Cr$ |
16/03/1990 a 31/07/1993 |
medida provisória n o 168, de 15/03/1990, convertida na lei 8024, de 12/04/1990 |
Cr$ 1,00 = NCz$ 1,00 |
1.000.000:000$000 |
Collor I 03/90 Collor II 01/91 |
|
Cruzeiro Real |
CR$ |
01/08/1993 a 30/06/1994 |
medida provisória n o 336, de 28/07/1993, convertida na lei no 8697, de 27/08/1993, e resolução BACEN no 2010, de 28/07/1993 |
CR$ 1,00 = Cr$ 1.000,00 |
1.000.000.000:000$000 |
Real 08/93 |
|
Real |
R$ |
Desde 01/07/1994 |
leis n o 8880, de 27/05/1994 e 9069, de 29/06/1995 |
R$ 1,00 = CR$ 2.750,00 |
2.750.000.000.000:000$000 |
Real 07/94 |
|
Obs: |
Para colocar de outra forma: R$1,00 = CR$ 2.750 = NCz$ 2.750.000 = Cz$ 2.750.000.000 = NCr$ 2.750.000.000.000 = Cr$ 2.750.000.000.000.000 = 2.750.000.000.000:000$000 = £ 96.250.000.000.000.000.000 Ou seja: nominalmente, um real do FHC eqüivale a 96,25 quintilhões de libras de Afonso III, 2,75 quintilhões de réis dos velhos tempos, 2,75 quatrilhões de cruzeiros (ou mil-réis), 2,75 trilhões de contos (ou cruzeiros novos), 2,75 bilhões de cruzados, 2,75 milhões de cruzados novos ou 2.750 cruzeiros reais. Ufa! |
A partir da década de 60, não só as médias qüinqüenais como também os dados referentes ao fim de cada ano não são suficientes para dar uma idéia do valor efetivo da moeda, pois em vários períodos a inflação mensal atingiu dois dígitos. Em muitos períodos, além disso, também a taxa de câmbio do dólar funcionou como indexador extra-oficial. Para dar conta de tudo isso, elaboramos uma tabela que mostra: o valor em Ð da moeda brasileira a cada mês desde janeiro/39, o valor do dólar em Ð no mesmo mês, a taxa de câmbio dólar/moeda brasileira, o valor em ð da moeda brasileira a cada mês (isto é, o poder aquisitivo da moeda brasileira nos EUA uma vez convertida pela taxa de câmbio), o valor do dólar em Ð no Brasil a cada mês (ou seja, seu poder aquisitivo no Brasil uma vez convertido em moeda brasileira pela taxa de câmbio), o valor dos principais indexadores oficiais e extra-oficiais utilizados ao longo das últimas décadas, na unidade monetária da época e em Ð. Para a URV (1993 e 1994), que foi reajustada diariamente, indicamos tanto o valor médio a cada mês quanto o valor no fim de cada mês. Clique abaixo:
Alguns dos arquivos que contêm os dados complementares têm o sufixo .xls, isto é, sγo planilhas Excel. Para descarregá-lo, clique nas ligações. Os demais, com sufixo .htm, são páginas normais da Internet, em html.
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Evolução dos preços: |
1264 - 1572: Presumi que o custo de vida em Portugal era semelhante ao da Inglaterra, deduzido a partir de séries de índices de preços cujas fontes são: E. H. Phelps Brown e Sheila V. Hopkins, "Builders' Wage-rates, Prices and Population: Some Further Evidence," em Economica (fevereiro de 1959): p. 18-37; E. H. Phelps Brown e Sheila V. Hopkins, "Seven Centuries of the Price of Consumables, compared with Builders' Wage-rates," em Economica (novembro de 1956): p. 296-314; E. H. Phelps Brown e Sheila V. Hopkins, "Wage-rates and Prices: Evidence for Population Pressure in the Sixteenth Century," em Economica (novembro de 1957): p. 289-306 1572 - 1826: procurei fazer estimativas grosseiras da evolução dos preços gerais a partir de dados esparsos, referentes a preços de umas poucas mercadorias, nem sempre representativas do custo de vida em geral, que constam do livro de Mircea Buescu, 300 Anos de Inflação, Rio de Janeiro: APEC, 1973. Os dados se referem aos anos de 1572, 1622,1623, 1635, 1650, 1690, 1691, 1705, 1740, 1750, 1768, 1780, 1783, 1792, 1804, 1808, 1813, 1819, 1822, 1825 e 1826, o resto foi interpolado. 1826 - 1887: evolução da inflação brasileira segundo Mircea Buescu, 300 Anos de Inflação, Rio de Janeiro: APEC, 1973, p. 223. Atenção: na realidade, os levantamentos de preços se referiram apenas aos anos de 1826, 1830, 1835, 1838, 1842, 1847, 1850, 1853, 1856, 1862, 1870, 1880 e 1887 e o resto foi interpolado. 1887 - 1912: evolução da inflação brasileira, segundo segundo Guia Financeiro Dinheiro VIVO, conforme citado pelo Prof. Paulo Cézar R. da Silva em http://www.ai.com.br/pessoal/indices/INFLAC.HTM. Os levantamentos de preços se referiram aos anos de 1887, 1896, 1900 e 1912 e o resto foi interpolado.1912 - 1939: comportamento provável dos preços ao consumidor (custo de vida), segundo Guia Financeiro Dinheiro VIVO, conforme citado pelo Prof. Paulo Cézar R. da Silva em http://www.ai.com.br/pessoal/indices/INFLAC.HTM.1939-1944: IPC-FIPE 1944-2000 : IPC-RJ (FGV) |
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Outras informações: |
Chester L. Krause e Clifford Mishler, Standard Catalog of World Coins, 1985: Iola, Krause J. C. Paes, Moedas do Brasil em http://www.jcpaes.hpg.com.br/brasil/moedabrasil.htmJorge Braga de Macedo, Álvaro Ferreira da Silva e Rita Martins de Sousa, War, Taxes and Gold: the inheritance of the Real, preparado para o 12Ί Congresso Internacional de História Econômica em Sevilha, agosto de 1998 (ver http://www.fe.unl.pt/~jbmacedo/papers/war.htm).Expresso 01/05/98, História do Cifrão, em http://www.expresso.pt/ed1331/e32.asp?e23,e41,e32,e33,e34,e61,e62,e22,e21,pu11Rui Pedro Esteves e Fabiano Ferramosca, O mecanismo dos câmbios em padrão-ouro. Estabilidade cambial e violações dos pontos de ouro, 1854-1891, em http://www.fep.up.pt/investigacao/workingpapers/WP94.pdfCláudio Marcos Angelini, Os Holandeses no Brasil e sua cunhagem obsidional em http://www.acervus.com.br/numismatica/artigos/htm/35.htmHistória de uma moeda em http://www.alomundo.com.br/sf/junho280/02junho280.htmA. Félix Iroko, As Valiosas Conchas da África em http://sites.uol.com.br/marina.ribeiro/moeda/moeda3.htm |