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De Colombo à NASA

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Quanto custaram, em termos reais, as viagens da Era dos Descobrimentos e por que, do ponto de vista social e econômico, foram completamente diferentes da moderna exploração do espaço.


  Página inicial

  Indicadores econômicos


Índice

Os maravedis de Colombo

Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e as Índias

O Mayflower e os “pais peregrinos”

Brigham Young e os mórmons

Colonização do espaço

Colonização de Marte

Bibliografia


Os maravedis de Colombo

Segundo Eduardo Bueno, depois de conseguir uma audiência em 1486, Cristóvão Colombo pediu ao rei português D. João II, chamado o Príncipe Perfeito, três navios e dois milhões de maravedis para financiar seu projeto de chegar às Índias pelo Ocidente. Após consultar sua junta de cosmógrafos – formada pelos astrônomos judeus Abraão Zacuto (expulso da Espanha) e José vizinho e pelo bispo D. Diogo Ortiz –, o rei dispensou os serviços de Colombo.

Aliás, com ótimas razões: os cosmógrafos portugueses sabiam que a Terra era bem maior do que Colombo imaginava. Pelo Ocidente, seriam mais de 25.000 km de Portugal às Ìndias – o que poderia significar navegar nove meses ou mais sem poder reabastecer, a menos que por acaso houvesse alguma terra no caminho. Naquela altura, nem Colombo nem os sábios portugueses imaginavam que pudesse haver todo um novo continente no caminho, a menos de três meses de viagem.

Talvez tenha sido apenas por falta de conhecimento geográfico que os reis da Espanha, Fernando e Isabel, tenham por fim aceitado financiar a aventura de Colombo. Este teve, porém, de suar para conseguir os fundos de que precisava. Foi só a muito custo e graças a um empréstimo do secretário e tesoureiro do rei, Lluís de Santàngel (neto de um judeu convertido, segundo http://www.amuseum.org/jahf/virtour/ ) que por fim a rainha Isabel dispôs de 1.000.000 maravedis, aos quais Santàngel acrescentou 140.000 maravedis do seu próprio bolso.

Além disso, Colombo levantou outros 500.000 maravedis, dinheiro emprestado, segundo o sítio catalão http://www.bcngrafics.com/cristobalcolon/, por Don Isaac ben Yudah Abravanel (será um ancestral da família de Sílvio Santos?), um judeu que chegou a deter uma alta posição na corte – mas que não pôde se despedir do navegador quando partiu de Palos em 3 de agosto de 1492 nem muito menos receber seu dinheiro de volta, pois em 31 de março foi expulso da Espanha junto com todos os demais judeus que recusaram se converter. Como Colombo, a nobreza espanhola conseguiu com isso se livrar de boa parte de suas dívidas.

Sabe-se que 73 dos marinheiros da expedição de Colombo foram contratados por 1.000 maravedis por mês e 17 outros, mais especializados, por 2.000 mensais, o que dá uma folha de pagamento de 107.000 maravedis mensais. Como a viagem durou nove meses (a volta foi em 15 de março de 1493), o pagamento total deveria ter sido de 936 mil maravedis. Mas 40 homens foram deixados por Colombo na ilha de Hispaniola (sob protestos de Pinzón) quando a Santa María ali encalhou. Talvez nunca tenham visto a cor do seu dinheiro.

Ah, sim, Colombo prometeu uma recompensa de 10.000 maravedis para o primeiro marinheiro que avistasse terra. Mas acabou embolsando o prêmio, alegando que quatro horas antes da ilha de Guanahani ter realmente sido avistada, havia observado uma pequena luz no horizonte. Mais tarde, concordou em ceder 5.000 a Martin Alonso Pinzón, o comandante da Pinta que reportou a verdadeira descoberta.

Quanto representam esses valores em moeda moderna? No final do século 15, o maravedi valia aproximadamente  Ð 0,64 (ver, neste mesmo sítio, http://sites.uol.com.br/antonioluizcosta/moeda_med.htm). Temos assim:

 

Item

maravedis

Ð

R$ julho/2001

Soma pedida por Colombo a D. João II

2.000.000

1.280.000

1.379.649

Soma de fato investida pela coroa espanhola

1.000.000

640.000

689.824

Soma investida por Lluís de Santàngel

140.000

89.600

96.575

Soma emprestada por Isaac Abravanel

500.000

320.000

344.912

Custo real da primeira expedição de Colombo

1.640.000

1.049.600

1.131.312

salário mensal dos marinheiros

1.000

640

690

salário mensal dos marinheiros especializados

2.000

1.280

1.380

prêmio prometido (mas não pago) ao primeiro que avistasse terra

10.000

6.400

6.898

folha de pagamento mensal de Colombo

107.000

68.480

73.811

 

É interessante notar que, à primeira vista, os salários pagos aos marinheiros eram bastante razoáveis para a época. Eram cerca de quatro vezes mais altos que os de um camponês sem-terra europeu do século 19 – ou, por falar nisso, quase quatro vezes superiores ao salário mínimo brasileiro do início do século 21. Mesmo hoje, seriam motivo de inveja para muitos trabalhadores brasileiros. Mas deve-se levar em conta que nessa época taxas de mortalidade da ordem de 50% eram comuns em longas expedições marítimas. A principal causa mortis era o escorbuto, causado pela carência de vitamina C nas rações fornecidas aos marinheiros, seguida pelos piratas e pelos naufrágios.

Mesmo assim, o custo total da expedição parece módico pelos padrões modernos: cerca de R$ 700 mil a preços de hoje, aproximadamente o preço de um apartamento de luxo em São Paulo. Um navio moderno custa dezenas de milhões de dólares, para não falar de uma nave espacial.

O custo seria alto em relação às possibilidades dos governos da época? Vejamos as rendas anuais em ducados (um ducado de Barcelona = 375 maravedis) dos principais Estados da Europa no século 15, segundo o Atlas da História Moderna de Colin McEvedy (São Paulo: Verbo, 1990):

 

Estado

Renda anual em ducados

Renda anual em maravedis

Renda anual em Ð

Renda anual em R$ julho/2001

Império Otomano

4.000.000

1.500.000.000

960.000.000

1.030.000.000

França

2.750.000

1.031.250.000

660.000.000

710.000.000

Castela

1.300.000

487.500.000

312.000.000

340.000.000

Veneza

900.000

337.500.000

216.000.000

230.000.000

Aragão

500.000

187.500.000

120.000.000

130.000.000

Borgonha

500.000

187.500.000

120.000.000

130.000.000

Milão

300.000

112.500.000

72.000.000

80.000.000

Nápoles

300.000

112.500.000

72.000.000

80.000.000

Estados papais

300.000

112.500.000

72.000.000

80.000.000

Inglaterra

300.000

112.500.000

72.000.000

80.000.000

Portugal

300.000

112.500.000

72.000.000

80.000.000

Obs.: Nenhum outro Estado europeu tinha renda superior a 200.000 ducados.

A título de curiosidade, acrescentamos que Carlos V conseguiu sua coroa de Imperador pagando 850.000 ducados (Ð 204 milhões) aos príncipes da Alemanha e que Luis XI pagou 150.000 ducados (Ð 36 milhões) para que eles fizessem a paz, mais 10.000 por ano (Ð 2,4 milhões)  para mantê-la.

O custo total da expedição de Colombo representou 0,24% da renda anual conjunta dos reinos de Aragão e Castela, que era de 1,8 milhão de ducados ou Ð 432 milhões, um pouco menos, portanto, que a renda diária da coroa espanhola.

Comparemos esse valor com o orçamento anual do governo federal dos EUA:as receitas obtidas no ano fiscal encerrado em setembro de 2000 totalizaram US$ 1,88 trilhão (Ð 1,92 trilhão). É um valor 4.440 vezes superior ao orçamento de Fernando e Isabel. Ou seja, o custo do projeto de Colombo para o estado espanhol seria comparável ao de um projeto de Ð 4,66 bilhões (ou cerca de US$ 4,7 bilhões de dólares) para os EUA de 2001. Este é aproximadamente o custo das missões tripuladas da NASA previstas para 2001: cerca de US$ 5,5 bilhões.

Fica mais fácil compreender, então, a atitude de D. João II: para Portugal, com uma renda seis vezes menor que a Espanha, seria loucura arriscar quase uma semana de arrecadação com um projeto que certamente teria dado com os burros n’água (literalmente) se não fosse a inesperada existência de um Novo Mundo no meio do caminho.

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Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e as Índias

Até o dia de sua morte em 1506, Colombo continuou teimando que não havia topado com uma nova terra desconhecida, mas realmente chegado às Índias. Mas a essa altura os portugueses já haviam realmente chegado às Índias pelo caminho do leste, numa expedição comandada por Vasco da Gama que partiu em 8 de julho de 1497 e retornou em 10 de junho de 1499 (um total de 23 meses), com uma carga de especiarias que pagou 60 vezes o custo da expedição (segundo http://www.areliquia.com.br/27brasil.htm ), apesar de terem voltado apenas 55 dos 170 homens que partiram (e dois dos quatro navios).

Não encontrei nenhuma referência, porém, sobre quanto custou de fato a expedição. Considerando que foram 170 homens em 23 meses, contra 90 homens e 9 meses no caso de Colombo, estimo que o custo deve ter sido aproximadamente 4,8 vezes o da expedição que descobriu as Américas, ou pouco mais de 20.000 cruzados (Ð 4,8 milhões). O cruzado português tinha o mesmo valor intrínseco do ducado de Barcelona e era equivalente a 400 réis.

Como prêmio, Vasco da Gama ganhou uma renda perpétua de 400$000 ou mil cruzados anuais, a maior pensão paga até então a um navegante português. Seu capitão Nicolau Coelho ganhou 50$000 por ano e os pilotos Pero Escobar e Pero de Alenquer 4$000.

A segunda expedição portuguesa às Índias foi a de Pedro Álvares Cabral que em 22 de abril 1500 descobriu o Brasil e partiu para consolidar a presença portuguesa na Índia (13 navios com 1.500 homens). Seus comandantes receberam no total cerca de 30.000 cruzados pelos seus serviços, lucrando o dobro do que haviam investido. Considerando a duração (16 meses e 20 dias) e o tamanho da expedição, seu custo total deve ter sido de mais ou menos 135.000 cruzados.

Segundo Eduardo Bueno, o banqueiro florentino Girolamo Sernige – que financiara boa parte da viagem de Vasco da Gama – foi mais uma vez convidado a participar do empreendimento e a ele juntou-se seu conterrâneo Bartolomeu Marchione, tido como o homem mais rico de Lisboa, dono de uma fortuna pessoal avaliada em um milhão de ducados.

Segundo http://www.moderna2000.com.br/matematicas/matrans/ancebra2.htm, “o capitão-mor comandava toda a esquadra, inclusive tomando decisões militares, recebendo para tanto 10.000 cruzados pela viagem; cada um dos outros capitães cuidava de seu navio, recebendo 1.000 cruzados para cada 100 tonéis de carga transportada em seus porões". Nicolau Coelho, por exemplo, comandava uma nau de 180 tonéis; Gaspar de Lemos, uma naveta de mantimentos de 70 tonéis.

A terceira expedição, de João da Nova, partiu antes mesmo do retorno de Cabral em julho de 1501. Cabral ganhou uma pensão perpétua de 30$000.

A quarta expedição portuguesa à Índia, que também foi a segunda de Vasco da Gama, mobilizou vinte navios de 10 de fevereiro de 1502 a primeiro de setembro de 1503 (18 meses e 20 dias) e, segundo Eduardo Bueno, seu custo total foi de 200 mil ducados (equivalentes a cruzados). Voltaram quinze navios, com uma carga de 35 mil quintais de especiarias valendo um milhão de ducados.

Um quintal português equivalia a 58,75 kg (e não deve ser confundido com o moderno quintal métrico de 100 kg), portanto a carga era de 2.056 kg. O quintal de pimenta, que era vendido pelos venezianos por um preço que variava entre 60 e 80 ducados, passou a ser comercializado pelos lusos por 30 a 40 ducados, arrasando o comércio em Veneza.

Além disso, na viagem de ida, a frota de Vasco da Gama capturou e saqueou o navio muçulmano Mery que voltava da peregrinação a Meca, saqueou seus passageiros e tripulantes (conseguindo 10 mil ducados em mercadoria e 12 mil em dinheiro) e depois de ordenar que seus soldados se apossassem de todos os bens pessoais dos peregrinos – as jóias das mulheres e as vestes de seda dos passageiros mais ricos – mandou incendiar o barco, matando  380 homens, mulheres e crianças.

A título de curiosidade, anote-se que, mais tarde, os portugueses compraram de Castela as ilhas Molucas – origem das mais valiosas especiarias – por 350.000 ducados, menos que o valor de um único carregamento do produto.

Vejamos a quanto equivalem essas quantias em moeda de hoje:

 

Item

Valores em cruzados ou ducados

Valores em réis

Valores em Ð

Valores em R$ julho/2001

 

Custo da primeira expedição de Vasco da Gama

20.000

8.000.000

5.120.000

5.519.000

 

Pensão anual dada a Vasco da Gama

1.000

400.000

256.000

276.000

 

 - valor mensal

83,3

33.333

21.333

23.000

 

Pensão anual dada a Nicolau Coelho

125

50.000

32.000

34.000

 

 - valor mensal

10,4

4.167

2.667

2.833

 

Pensão anual dada aos pilotos

10

4.000

2.560

2.800

 

 - valor mensal

0,8

333

213

233

 

Custo da expedição de Pedro Álvares Cabral

135.000

54.000.000

34.560.000

37.251.000

 

Valor total pago aos capitães de Cabral

30.000

12.000.000

7.680.000

8.278.000

 

Valor pago ao capitão-mor

10.000

4.000.000

2.560.000

2.759.000

 

Valor pago a Nicolau Coelho

1.800

720.000

460.800

497.000

 

Valor pago a Gaspar de Lemos

700

280.000

179.200

193.000

 

Pensão anual dada a Pedro Álvares Cabral

75

30.000

19.200

21.000

 

 - valor mensal

6,3

2.500

1.600

1.750

 

Custo da segunda expedição de Vasco da Gama

200.000

80.000.000

51.200.000

55.186.000

 

botim do Mery

22.000

8.800.000

5.632.000

6.070.000

 

Receita da expedição de Vasco da Gama com especiarias

1.000.000

400.000.000

256.000.000

275.930.000

 

Receita por kg de especiarias

0,5

195

124

134

 

Preço médio do quintal de pimenta em Veneza

70

28.000

17.920

19.315

 

Preço médio da pimenta em Veneza, por kg

1,2

477

305

329

 

Preço médio do quintal de pimenta em Lisboa

35

14.000

8.960

9.658

 

Preço médio da pimenta em Lisboa por kg

0,6

238

153

164

 

Preço pago por Portugal à Espanha pelas ilhas Molucas

350.000

140.000.000

89.600.000

96.575.000

 

Do ponto de vista dos seus interesses, os portugueses tiveram toda a razão em mandar Colombo passear e concentrar seus esforços na busca de um caminho pelo Oriente. Mostraram-se investidores mais racionais que os espanhóis: negaram 5 mil cruzados ao navegador talvez genovês (há quem diga que era um judeu português – ver http://www.apol.net/dightonrock/colombo_era_100.htm ), mas aparentemente gastaram 20 mil cruzados na primeira expedição de Vasco da Gama.

Guardadas as proporções, seria como os EUA gastarem hoje US$ 128 bilhões numa viagem a Marte (que teria, aliás, uma duração comparável). Mas, ao contrário do que os EUA poderiam hoje esperar, os portugueses sabiam a viagem seria imediatamente lucrativa.

E ao contrário da descoberta espanhola das Américas, que para os castelhanos só começou a valer realmente a pena décadas depois, quando conquistaram os Impérios Asteca e Inca e começaram a explorar suas fabulosas minas de prata. Foi por isso que Vasco da Gama ganhou uma pensão principesca e, pouco depois, Colombo morreu quase na pobreza.

Na viagem seguinte, o reino de Portugal se dispôs a levantar grandes empréstimos junto ao setor privado para investir quantias muito maiores: agora tinha a certeza de que o retorno valeria a pena. O custo da viagem de Cabral equivaleu quase à metade da receita anual da coroa portuguesa pré-descobertas. Proporcionalmente aos respectivos orçamentos, seria como se os EUA lançassem hoje uma missão espacial de US$ 860 bilhões. Porém, a recompensa de Cabral foi bem mais modesta que a de Vasco da Gama: já não se tratava de uma aventura no desconhecido, mas do início de um lucrativo comércio regular.

A despesa com a segunda viagem de Vasco da Gama foi ainda maior, mas então a receita da coroa portuguesa também já era muito maior: o comércio com as Índias a elevou a cerca de 1 milhão de ducados por ano, inferior apenas à das duas maiores potências da Europa Ocidental, França e Espanha.

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O Mayflower e os “pais peregrinos”

Em Disturbing the Universe, Freeman Dyson cita uma carta de Robert Cushman de 10 de junho de 1620 em Londres, dois meses antes da partida do Mayflower – o navio que levou para as costas da Nova Inglaterra um grupo de colonizadores ingleses da América do Norte hoje conhecidos como os “pais peregrinos” (pilgrim fathers). Os livros de história norte-americanos os tratam como os antepassados imaginários do povo dos Estados Unidos.

 

Querido amigo, recebi algumas das vossas cartas, cheias de afeto e de queixas, e não compreendo o que desejais de mim; de vosso grito “negligência, negligência, negligência”, me espanta por que eu, homem tão negligente, fui empregado neste negócio. Contando com 150 pessoas não pude reunir mais que 1.200 libras e um pouco mais de todos os negócios que podeis imaginar, além de alguns panos, meias e sapatos que não contam; assim, nos faltarão pelo menos 300 ou 400 libras. No começo, eu teria preferido economizar em cerveja e outras provisões na esperança de outros negócios; e agora, em Amsterdam e Kent, poderíamos ter cerveja suficiente, mas não podemos aceitá-la sem prejuízo: vós dizeis 500 libras bastarão; de resto, que há de se gastar aqui ou na Holanda, iremos nos arranjando. Pensai melhor em tudo isso e suportai com paciência o que falta e que o Senhor nos guie a todos.

Vosso amigo, Robert Cushman

A carta mostra que Cushman era responsável por fazer compras num total de 1.500 libras, o que não inclui necessariamente todos os gastos. A carga total do Mayflower – um navio construído por volta de 1606 para servir ao comércio de vinhos entre França e Inglaterra – era de 180 toneladas longas (183 toneladas métricas) e foram transportados 103 colonos – uma carga média de 1.775 kg por pessoa – mais uma tripulação de 20 a 30 marinheiros.

Três semanas depois, em 1° de julho de 1620, firmou-se um contrato entre os acionistas que haviam investido seu dinheiro na expedição e os colonos. Estipulava que depois de sete anos, o capital e os lucros – incluindo casas, terras, bens e gado – seriam divididos por igual entre os investidores e os colonizadores. Outra cláusula dava uma ação a cada um dos pioneiros como bônus por seus sete anos de trabalho: “cada pessoa que vá, de 16 anos ou mais, será calculada em 10 libras e 10 libras será considerado uma só ação”.

Sabe-se também, por outros documentos históricos, que o salário de operários da construção em 1620 eram da ordem de 8 a 12 pence diários. Note-se que a avaliação em 10 libras (ou 2.400 pence) do salário dos colonizadores por sete anos de trabalho implica (supondo 300 dias de trabalho por ano) um salário diário de 1,1 penny, um décimo do salário de um operário na Inglaterra. A maior parte do pagamento deveria consistir na posse do produto da metade do produto do trabalho ao fim dos sete anos.

Foram preparados dois navios para a viagem: 90 colonos seguiriam no Mayflower e 30 num navio menor, o Speedwell. Os futuros colonos o haviam comprado na Holanda, onde haviam previamente se estabelecido e o haviam utilizado para levá-los à Inglaterra. Porém, assim que partiram, viram que o Speedwell estava vazando e não conseguiria atravessar o oceano. Decidiu-se então acomodar todos no Mayflower, mas alguns (18 a 20) desistiram da viagem e resolveram ficar na Inglaterra.

A travessia do Atlântico durou 67 dias, durante os quais um dos passageiros morreu e nasceu uma criança. Chegaram às costas do Novo Mundo em 11 de novembro de 1620, mas só desembarcaram dez dias depois – mas não na Virgínia, como haviam planejado. A direção dos ventos impedia o Mayflower de seguir para o sul. Ficaram no Cabo Cod, no que mais tarde seria conhecido como Nova Inglaterra, um lugar então completamente selvagem, onde nenhum apoio poderia ser esperado da Inglaterra ou do governador colonial da Virgínia.

 Começaram sérios desentendimentos entre os colonos e uma ameaça de motim, afinal superada com a assinatura de um pacto entre 41 dos colonos. Alguns deles encontraram e saquearam um depósito de grãos de milho construído por índios Wampanoag que habitavam a região. Mesmo assim, apenas 52 dos 103 colonos sobreviveram ao primeiro inverno para tentar plantar sua primeira safra no continente americano.

Metade dos marinheiros do Mayflower também morreu antes que o navio pudesse partir de volta para a Inglaterra, em 5 de abril de 1621. A volta, ajudada por ventos favoráveis, levou apenas 31 dias. O navio continuou a ser utilizado no comércio; em 1624, provavelmente então em mau estado, foi avaliado em 128, 8s. e 4 d.

A sobrevivência dos colonos a seu primeiro ano só foi possível graças à solidariedade dos índios Wampanoag. Em abril de 1621, foram encontrados por um índio chamado Samoset, que falava inglês e os colocou em contato com o chefe dos Wampanoag, Massasoit que vivia na aldeia de Pokanoket e esperava obter o apoio dos colonos ingleses contra a tribo dos Narragansetts, que os exploravam. Massasoit designou o intérprete Tisquantum como representante da tribo junto aos recém-chegados.

Tisquantum, ou Squanto, como era chamado pelos colonos, havia sido raptado pelo inglês Thomas Hunt (um dos homens de John Smith, o inglês salvo pela índia Pocahontas) que tentou vendê-lo como escravo em Málaga, Espanha, por vinte libras.  Mas, resgatado por frades espanhóis, o índio conseguiu escapar à escravidão e juntar-se à Newfoundland Company, para a qual trabalhou como intérprete. Em 1619, tentou voltar para sua casa na aldeia de Patuxet – que ficava justamente na vila de Plymouth onde os passageiros do Mayflower haviam se estabelecido – mas descobriu que era o único sobrevivente de seu povoado, cuja população havia sido aniquilada pela peste bubônica trazida pelos europeus.

Sem a ajuda de Tisquantum, os colonos certamente não teriam sobrevivido. Suas tentativas de plantar trigo e cevada com sementes trazidas da Inglaterra fracassaram; prosperou apenas a plantação de milho, que o índio os ensinou a cultivar nas colinas, usando peixe como fertilizante. Além disso, Tisquantum os ajudou a fazer amizade com outras tribos da região. A celebração da primeira colheita, em outubro de 1621, reuniu os 50 colonos sobreviventes e 90 vizinhos índios. Muito mais tarde, em 1863, Abraham Lincoln instituiu como feriado nacional a comemoração desse evento na quarta quinta-feira de novembro, conhecida como o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day).

Em 1626, um ano antes da planejada divisão com os investidores dos bens criados pelos colonizadores, foi imposto um novo contrato estipulando que os colonos venderiam aos investidores, “em consideração da soma de 1.800 libras esterlinas... tudo o que pertença à totalidade dos mencionados aventureiros”. Os investidores ficaram devendo essa quantia aos pioneiros, que levaram 22 anos para receber o dinheiro.

Isso sugere não só que a história dos Estados Unidos começa com um mau negócio que teria dado errado sem a ajuda dos generosos índios da Nova Inglaterra, como também que o custo total de alugar e equipar o Mayflower foi provavelmente inferior a 3.600 libras. Do contrário, teria havido um tremendo prejuízo do ponto de vista dos investidores, o que não parece ter sido o caso. Freeman Dyson adota um valor de 2.500 libras.

Vejamos a quanto correspondem esses valores em moeda moderna:

 

Item

libras

pence

Ð

R$ julho/2001

Custo total

2.500

 

559.621

603.188

Total pago (a crédito) aos colonizadores no final dos sete anos

1.800

 

402.927

434.295

Total pago aos colonizadores, por cabeça

17,5

 

3.911,91

4.216,46

Total pago aos colonizadores, por cabeça e por mês de trabalho

 

49,9

46,57

50,20

valor da ação prometida aos colonizadores  (fora 50% do produto do trabalho)

10

 

2.238,48

2.412,75

salário diário de trabalhadores da construção - máximo

 

12

11,19

12,06

salário diário de trabalhadores da construção - mínimo

 

8

7,46

8,04

salário mensal (*) de trabalhadores da construção - máximo

 

300

279,81

301,59

salário mensal (*) de trabalhadores da construção - mínimo

 

200

186,54

201,06

custo da expedição por kg de carga

 

3,3

3,08

3,32

custo da expedição por colono

24,3

 

5.433,21

5.856,19

preço do escravo índio no mercado de Málaga

20

 

4.476,97

4.825,50

Avaliação do Mayflower em 1624

128

100

28.745,85

30.983,74

 (*) supondo uma média de 25 dias de trabalho por mês

 

Note-se que em termos reais o salário dos trabalhadores da construção da Inglaterra de 1620 não está muito fora da realidade dos aprendizes de pedreiro (vulgos “peões de obra”) da construção civil no Brasil de hoje, indicando que as taxas de conversão usadas são satisfatoriamente realistas.

Considerando famílias de quatro pessoas, vê-se que o recebido pelos “pais peregrinos” não era muito mais do que poderiam ganhar trabalhando na Inglaterra. Seus motivos para emigrar eram mais ideológicos do que econômicos: pertenciam a uma facção calvinista radical inglesa chamada “separatista” que não aceitava o anglicanismo restaurado junto com a monarquia após a queda do regime republicano e puritano de Cromwell na Inglaterra e havia emigrado para a Holanda, onde viveram mais que uma década. Porém, tão ferrenhamente ingleses quanto calvinistas, não queriam que seus descendentes fossem absorvidos pela sociedade calvinista local e se tornassem holandeses. Emigrar para o Novo Mundo era a maneira de permanecerem ingleses sem precisar se integrar à odiada igreja anglicana.

Claro que a longo prazo criaram extraordinárias oportunidades de para seus descendentes enriquecerem no Novo Mundo, mas era algo que não tinham como imaginar, muito menos calcular.

Porém, não poderiam ter financiado a expedição com seus próprios esforços e necessitavam do capital de terceiros. Considerando salários de trabalhadores da construção, teria seria preciso poupar 6,5 a 9,7 anos de um salário que mal seria suficiente para uma família puritana subsistir em condições decentes.

Note-se que o custo total da empreitada – cerca de 600 mil reais a preços de julho/2001 – é comparável como o da expedição de Colombo. E que o preço pelo qual foi avaliado o Mayflower quatro anos depois da famosa viagem, cerca de R$ 30 mil, é comparável ao de um caminhão velho.

No século 19, quando a mão-de-obra (30%-50% do custo da construção naval) era mais cara do que no século 17, o custo de construir um veleiro de boa qualidade era da ordem de US$ 50 a 100  (Ð 1.250 a 2.500) por tonelada nos EUA e £ 8 a 20 (Ð 800 a 2.000) na Inglaterra. Isto sugere que o Mayflower, mesmo quando novo, provavelmente não valia mais do que R$ 180 mil.

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Brigham Young e os mórmons

 

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia (cujos membros são conhecidos popularmente como mórmons) foi criada por Joseph Smith em 1830, quando publicou o Livro de Mórmon como sendo uma nova revelação divina, supostamente traduzida de placas de ouro enterradas perto da pequena cidade de Palmyra (estado de Nova York), encontradas graças à ajuda de um anjo e que continham uma história contada numa língua desconhecida chamada por ele de “egípcio reformado”, segundo a qual certos índios americanos eram descendentes de hebreus que haviam chegado à América através do Pacífico.

Em 1839, Smith, com seus primeiros seguidores (incluindo Brigham Young, convertido em 1832), fundou em Illinois uma comunidade chamada Nauvoo, que logo se tornou a maior cidade do Estado, com 20 mil habitantes. Smith tornou-se prefeito de Nauvoo e comandante de uma respeitável milícia local.

Em 1844, o profeta sentiu-se suficientemente poderoso para se lançar candidato à presidência dos EUA, mas um grupo de mórmons dissidentes o atacou através de um jornal de oposição, acusando-o de poligamia e ambição política. Ambas as acusações eram verdadeiras. Foi só em 1852 que a Igreja Mórmon veio a reconhecer oficialmente que admitia a poligamia, mas Smith já tinha 50 esposas.

Smith mandou destruir o jornal e em seguida convocou a milícia de Nauvoo para protegê-lo da violenta reação popular. Foi, com isso, acusado pelo governo estadual de traição e preso na cadeia da cidade de Carthage – e, a despeito das promessas de proteção do governador do Illinois, uma multidão de homens armados, com rostos enegrecidos, invadiu a cadeia e o assassinaram, junto com seu irmão Hyrum. Numa América do Norte ainda visceralmente puritana, um homem podia ser perdoado por fundar uma nova religião e tentar tornar-se um ditador, mas praticar a poligamia era um crime hediondo e imperdoável.

A nova igreja, naturalmente, dividiu-se. Uma minoria, sob a liderança de um dos irmãos de Joseph Smith, migrou para a cidade de Independence, Missouri. A maioria aceitou a liderança do sucessor Brigham Young que, também temendo novos linchamentos, organizou uma migração em massa dos seus seguidores para o Oeste, onde fundaram uma nova cidade chamada Salt Lake City em 1847, que se tornou a sede do movimento mórmon.  Em 1849, proclamaram um Estado de Deseret, mas no ano seguinte aceitaram tornar-se um território dos EUA com o nome de Utah, com Young como governador. No isolamento do Utah, puderam praticar a poligamia em paz (Young teve 20 esposas) até 1896, quando renunciaram a essa prática (e a ter seu próprio partido, o People’s Party) para que o território pudesse se tornar o 45° Estado dos EUA.

Qual foi o custo de criar Salt Lake City no coração do deserto do Utah? Escrevendo em seu acampamento de inverno em 1845, Young informou:

 

Para um equipamento que requer cada família de cinco pessoas: uma boa carreta, três juntas de gado, duas vacas, duas reses de engorda, três ovelhas, mil libras (459 kg) de farinha, vinte libras (9,2 kg) de açúcar, um fuzil e munições, uma tenda e varas para a tenda: o custo seria perto de 250 dólares, desde que a família não tivesse nada com que começar, apenas roupas de cama e utensílios de cozinha, e o peso seria de cerca de 2.700 libras (1.240 kg), incluindo a família.

As artes também estavam incluídas no orçamento de Young, que pagou 150 dólares por instrumentos para a banda de metais para amenizar os sentimentos de hostilidade que encontrou nos povoados ao longo do caminho e elevar o moral de seus peregrinos.

Em 1847, a primeira leva de peregrinos que cruzou as planícies com Young incluía 1.891 pessoas, 623 carretas, 131 cavalos, 44 mulas, 2.012 bois, 983 vacas, 334 cabeças soltas de gado, 654 ovelhas, 237 porcos e 904 galinhas. Pode-se estimar que a carga total da expedição de Young foi de 3.500 toneladas longas (3.556 toneladas métricas, na maior parte animais), 1.880 kg por pessoa. O custo total foi de 150.000 dólares de 1847.

Segundo Dyson, os salários médios de operários da construção ingleses na época eram de 33 a 49 pence por dia. Os salários nos EUA eram provavelmente algo melhores, mas não temos dados a respeito.

 

Item

dólares

pence

Ð

R$ julho/2001

Custo por família, segundo Brigham Young

250

 

7.837,84

8.448,02

Banda de música

150

 

4.702,70

5.068,81

Custo total da expedição

150.000

 

4.702.702

5.068.811

Custo real por pessoa

79,32

 

2.486,89

2.680,49

salário diário de trabalhadores da construção - máximo

 

49

17,63

19,01

salário diário de trabalhadores da construção - mínimo

 

33

11,88

12,80

salário mensal (*) de trabalhadores da construção - máximo

 

1.225

440,84

475,16

salário mensal (*) de trabalhadores da construção - mínimo

 

825

296,90

320,01

custo da expedição por kg de carga

0,042

 

1,32

1,43

custo da expedição por colono

79

 

2.486,89

2.680,49

(*) supondo uma média de 25 dias de trabalho por mês

 

O custo total da aventura foi mais significativo que o das travessias marítimas dos colonizadores – mais de R$ 5 milhões em moeda de junho/2001.

Porém, o custo por pessoa para atravessar o continente em 1847 foi, pelo menos neste caso, menos de metade do custo de atravessar o oceano em 1620 e os padrões de renda eram mais altos. Uma família de 4 pessoas podia pagar sua parte com 1,9 a 2,8 anos de salário de um trabalhador da construção inglês e provavelmente ainda menos anos considerando o salário de um trabalhador norte-americano. Graças a isso, os mórmons de Brigham Young puderam fazer sua migração por conta própria, sem necessidade do patrocínio de terceiros.

 

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Colonização do espaço

 

Freeman Dyson compara os valores do Mayflower e da peregrinação mórmon com o custo da colonização do espaço segundo o método proposto por Gerard O’Neill – a construção de gigantescas estações orbitais, segundo um projeto popularizado muito mais tarde pelo seriado Babylon 5.

Em 1975, o custo estimado para a Ilha Um, uma “pequena” colônia orbital O’Neill de 3,6 milhões de toneladas, para 10 mil pessoas, era de US$ 96 bilhões (mais de R$ 300 bilhões, a preços de hoje).

Comparando com o piso salarial dos trabalhadores da construção de Nova York da época (US$ 9,63 por hora), resultaria que o custo por família de 4 pessoas seria equivalente a 1.660 anos de salário de um trabalhador da construção.

 

Item

dólares de 1975

Ð

R$ julho/2001

Custo da estação espacial

96.000.000.000

300.972.972.972

324.403.923.522

Custo por pessoa

9.600.000

30.097.297

32.440.392

Custo por quilo

26,67

83,60

90,11

salário horário de trabalhadores da construção

9,63

30,19

32,54

salário mensal (*) de trabalhadores da construção

1.926

6.038,27

6.508,35

(*) Supondo 25 jornadas de 8 horas de trabalho.

 

Segundo O’Neill, o projeto poderia se pagar em 24 anos com a energia solar captada pela estação no espaço e exportada para a Terra, mas mesmo que isso fosse verdade, o projeto jamais poderia ser implementado como uma aventura privada. Mesmo sendo os salários reais de 1975 bem mais polpudos que o dos séculos precedentes (na verdade, os salários da época eram melhores que os atuais, mesmo nos EUA), a relação entre capital e trabalho tornou-se totalmente desproporcional.

Um projeto mais modesto de colonização dos asteróides também foi sugerido por O’Neill. Segundo suas contas, um grupo de 23 particulares com 50 toneladas de equipamento poderia poupar dinheiro suficiente para mudar-se, por sua própria conta, da gigantesca estação espacial para uma pequena base auto-suficiente no cinturão dos asteróides, por cerca de um milhão de dólares de 1975.

 

Item

dólares de 1975

Ð

R$ julho/2001

Custo da ocupação do asteróide

1.000.000

3.135.135

3.379.207

Custo por pessoa

43.478

136.310

146.922

Custo por quilo

20,00

62,70

67,58

salário horário de trabalhadores da construção

9,63

30,19

32,54

salário mensal (*) de trabalhadores da construção

1.926

6.038,27

6.508,35

(*) Supondo 25 jornadas de 8 horas de trabalho.

 

Dyson preferia esta última idéia. Embora o custo por quilo não fosse muito menor que o da Ilha Um e o custo por pessoa fosse elevado pelos padrões do século 17 ou 19, as rendas mais elevadas do século 20 e a escala relativamente modesta do empreendimento permitiria realizá-lo como projeto privado (desde, é claro, que se contasse com a Ilha Um como ponto de partida): teoricamente, bastariam 7,5 anos de salário de um operário para viabilizar o estabelecimento de quatro pessoas.

Mas por que cargas d’água vinte e poucas pessoas jovens, capazes de dispor de um capital significativo e de extraordinária coragem e habilidade técnica, iriam se dispor a viver isoladas e trancadas num asteróide inóspito a centenas de milhões de quilômetros de qualquer outra comunidade humana?

Não por motivações econômicas: se minerar asteróides for lucrativo, faria mais sentido explorá-o através de máquinas. Mesmo que não fosse assim, mesmo que exista um asteróide de ouro maciço e que um governo ou grande empresa não se apodere dele primeiro, ainda seria difícil justificar que alguém com motivações econômicas quisesse se estabelecer de forma permanente num lugar onde seria tão difícil gozar sua fortuna.

Motivações políticas ou ideológicas? Dificilmente; ainda que se quisesse fugir de uma tirania insuportável, provavelmente haveria meios mais viáveis. Uma pequena colônia num asteróide distante não poderia se manter independente por muito tempo: mais cedo ou mais tarde necessitaria de recursos técnicos que não poderia produzir no local.

 

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Colonização de Marte

 

O livro de Robert Zubrin, The Case for Mars, propôs em 1996 um curioso plano para viajar a Marte que veio a fundamentar os posteriores projetos da NASA.

Em 1989, no 20º aniversário da chegada dos astronautas à Lua, o Presidente dos EUA George Bush (pai), havia feito um grandiloqüente discurso proclamando o início de uma Iniciativa de Exploração Espacial, como complemento científico à militarista Iniciativa de Defesa Estratégica (mais conhecida como Guerra nas Estrelas). A exploração espacial dos anos 60 seria retomada, sendo seu eixo central a construção de uma estação espacial chamada Freedom, a criação de bases permanentes na Lua e a preparação de uma grandiosa missão tripulada à Marte.

Uma equipe da NASA foi encarregada de esboçar um plano em 90 dias, mas veio com más notícias. A viagem à Marte necessitaria de 30 anos de preparação e seria o programa mais dispendioso desde a II Guerra Mundial. Seria preciso criar uma colônia permanente na Lua, incluindo uma considerável base industrial envolvendo tecnologias ainda não testadas; depois, uma estação orbital em torno do satélite; e nela finalmente seria construída uma nave-mãe com propulsão nuclear de 1.000 toneladas, capaz de carregar todas as provisões, equipamento e combustíveis necessários plantar a bandeira americana no planeta vermelho.

Paradoxalmente, a nave partiria da órbita da Lua quando Marte estivesse mais distante da Terra, porque tal trajetória reduziria o tempo total da missão a 640 dias. Porém, isso também obrigaria a nave a tomar impulso perto de Vênus, expondo-se a intensa radiação solar. Além disso, assim que a nave-mãe começasse a orbitar Marte, os astronautas que participariam da exploração teriam de descer num módulo, realizar suas explorações e retornar para a viagem de volta em menos de 30 dias. Isso praticamente reduziria a missão a um gesto de propaganda que, depois do fim da guerra fria com o colapso da União Soviética em 1991, deixou de ter qualquer sentido.

Com um custo literalmente astronômico – US$ 450 bilhões – o projeto foi merecidamente engavetado na era Bill Clinton, que fez da tecnologia um sinônimo de Internet. Apenas o projeto da estação (ampliada e transformada na Estação Espacial Internacional, da qual o Brasil também participa) foi levado adiante.

O engenheiro aeronáutico Robert Zubrin, da Lockheed Martin, não se conformou com o abandono da missão marciana. Em 1996, no livro The Case for Mars (A Causa de Marte), propôs a missão "Marte Direto", que reduz os custos em mais de 90%. A solução, uma vez apresentada, parece quase óbvia:

1.       reduzir o peso a ser transportado produzindo combustível a partir da atmosfera de Marte, em vez de levá-lo pronto da Terra e

  1. dividir o peso do equipamento entre dois lançamentos. Isso reduziria carga de cada lançamento a ponto de poderem partir da Terra ao estilo Apollo, usando uma versão mais parruda (cujo esboço foi apelidado de lançador Ares por Zubrin) dos lançadores usados para colocar em órbita os ônibus espaciais.

Os lançamentos devem partir num dos momentos em que Marte estaria mais perto da Terra, reduzindo o gasto de energia e evitando a necessidade de se aproximar de Vênus. Com isso, o tempo total da missão saltaria para 879 dias – 150 de ida, 110 de volta e estada em Marte de 619 dias. Isso permitiria um trabalho científico muito mais completo, mas também implica expor os astronautas à radiação, à ausência de gravidade e a um confinamento mais longo do que qualquer missão anterior, que também terão de enfrentar o desafio de criar um ambiente habitável num planeta hostil que permita sobreviver por mais de um ano, extraindo água e oxigênio do solo marciano.

O custo seria da ordem de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões mais US$ 2 bilhões por lançamento adicional – comparável ao do projeto Apollo que segundo Zubrin teria custado um total de US$ 70 bilhões a preços de 1996 – e a primeira missão poderia ser realizada em 2005.

Tentando surfar a onda neoliberal, Zubrin também sugeriu que, em vez de conduzida pela NASA, a missão fosse proposta à iniciativa privada na forma de um concurso: a primeira empresa que completasse a missão ganharia um prêmio de US$ 20 bilhões. Presumiu que, livre da corrupção e da burocracia estatal, uma empresa privada realizaria o projeto por 5 bilhões, fazendo um belo lucro.

A NASA reconheceu que Zubrin colocou o ovo de Colombo em pé. Desde 1998 trabalha com um projeto apelidado "Marte Semi-direto", uma versão algo mais cara e sofisticada do seu projeto, com custo total estimado preliminarmente em US$ 55 bilhões, dando um pouco mais de atenção ao problema do conforto físico e psicológico dos astronautas. As principais diferenças em relação à proposta original são seis tripulantes em vez de quatro, uma estrutura mais sofisticada de reciclagem, bio-regeneração e produção de alimento e um hábitat mais amplo (parcialmente inflável) em Marte. Isso exige distribuição da carga por um número maior de lançamentos: três iniciais, mais três a cada missão.

Item

dólares correntes

valor

do dólar

 em Ð

Ð

R$ julho/2001

Projeto Apollo (a preços de 1996)

70.000.000.000

1,10

76.796.973.518

82.775.670.114

Projeto Marte de 1989

450.000.000.000

1,38

620.935.765.266

669.276.036.708

Projeto Marte Direto de Zubrin, 1994

25.000.000.000

1,16

29.058.116.232

31.320.310.335

idem, por lançamento adicional

2.000.000.000

1,16

2.324.649.299

2.505.624.827

Projeto Marte semi-direto da NASA, 1994

55.000.000.000

1,16

63.927.855.711

68.904.682.737

O projeto da NASA não vai além da exploração científica de Marte. Porém, Zubrin propõe muito mais: a colonização de Marte e, a longo prazo, a transformação do ambiente marciano em algo relativamente habitável. Depois das missões pioneiras, o próximo passo seria um lançador bem maior, capaz de enviar 24 pessoas com o equipamento necessário para construir uma colônia permanente, a um custo de US$ 1 bilhão por lançamento ou US$ 40 milhões por pessoa. Quatro lançamentos anuais seriam suficientes para criar em Marte uma população de 10 mil habitantes em quarenta anos e 200 mil em 160 anos.

Esse custo estaria ao alcance de um milionário excêntrico ou de uma superpotência decidida a anexar o planeta vermelho, mas não ao de empresas ou indivíduos privados. Na visão de Zubrin, porém, a colonização dos planetas pela iniciativa privada terá de ser a chave de todo o futuro progresso humano, assim como a colonização das Américas teria sido a chave do progresso da Europa e a colonização do Oeste a chave do progresso americano. Isso exigiria que o custo de uma passagem a Marte fosse algo ao alcance de um imigrante ambicioso.

A solução básica seria um veículo capaz de transportar viajantes de estações espaciais na órbita da Terra à órbita de Marte em regime permanente. Os passageiros subiriam até a estação com um ônibus espacial aperfeiçoado e ali pegariam o expresso marciano. Supondo que o cruzador espacial seja capaz de reciclar água e oxigênio com 95% de eficiência (o padrão é hoje 80%) e realizar um grande número de missões, o custo por passageiro seria da ordem de US$ 320.000. Segundo Zubrin, o imigrante pagaria a passagem com um ou dois anos de salário no planeta vermelho e em seguida traria a família.

Isso lembra as promessas feitas pelos barões do café aos imigrantes do século 19 para virem trabalhar em suas plantações. Mesmo que os salários em Marte fossem altos em termos nominais, isso pouco significaria  frente ao custo da vida num planeta estéril, onde não só a comida, a energia e a informação, como também a água e até o ar que se respira teriam que ser pagos a peso de ouro. E muito provavelmente, controlados por fornecedores monopolistas.

Na vida real, o salário anual médio dos trabalhadores norte-americanos era de US$ 37.735 no final de 2000 (quando US$ 1 = Ð 1) e metade deles recebiam menos que US$ 29.938. Ou seja, mesmo num cenário muito otimista, pagar a passagem de uma pessoa a Marte custaria mais de dez anos de trabalho de um trabalhador médio, ou seis anos de um engenheiro (segundo calculou o próprio Zubrin). Ver http://www.losangelesalmanac.com/topics/Employment/em16b.htm .

Segundo Zubrin, a economia de Marte poderá inicialmente se basear na exportação de metais raros e deutério, variedade de hidrogênio usado na refrigeração de reatores nucleares que é particularmente abundante nesse planeta.

A partir daí, progressos posteriores poderiam aumentar ainda mais a eficiência. Substituir, na subida para a estação, o ônibus espacial por um estato-reator (scramjet) hipersônico como o que está prestes a ser testado para vôos na atmosfera da Terra reduziria a tarifa para US$ 96 mil. Se também se melhorar a eficiência da reciclagem para 99%, ficaria em US$ 67 mil. Substitua-se ainda a propulsão química oxigênio-metano por uma nuclear-elétrica e se chega a uma pechincha de US$ 40 mil. Isto significa usar um reator nuclear para aquecer e ionizar um gás inerte (como argônio) a ponto de transformá-lo num plasma capaz de atingir velocidades enormes, controlado por campos elétricos. O processo foi experimentado num satélite soviético em 1964 e desde então usado em pequenas sondas, mas uma grande missão tripulada exigiria um reator milhares de vezes maiores do que os já testados.

Paradoxalmente, o sistema propulsor mais radical e eficiente hoje tecnicamente concebível envolve uma drástica volta ao passado, mais precisamente às caravelas de Cabral e Vasco da Gama. Trata-se de navegação a vela em pleno espaço, tirando proveito do vento solar – um fluxo constante de plasma que sai do Sol em todas as direções a uma velocidade de 500 km/s. Seria preciso uma enorme "vela" magnética – um enorme aro formado por um cabo supercondutor geraria um campo de força magnético, que ainda teria a vantagem de proteger completamente a nave contra a radiação das tempestades solares. Zubrin estima que uma passagem a Marte numa caravela interplanetária custaria US$ 28 mil, sem gastar absolutamente nenhum combustível. O problema é que ainda não se descobriu um supercondutor capaz de funcionar em temperaturas razoáveis, embora exista pesquisa nesse campo.

Item

dólares de 1996

Ð

R$ julho/2001

meses de salário

 médio nos EUA,

final de 2000

Custo do transporte Terra-Marte por pessoa,

 lançadores convencionais

40.000.000

43.883.985

47.300.383

13.955,4

Custo do transporte Terra-Marte,

 "expresso marciano"

320.000

351.072

378.403

111,6

Custo do transporte Terra-Marte,

"expresso marciano" + estato-reator

96.000

105.322

113.521

33,5

Custo do transporte Terra-Marte,

 "expresso marciano" + estato-reator +

+ reciclagem melhorada

67.000

73.506

79.228

23,4

idem, com propulsão nuclear-elétrica

40.000

43.884

47.300

14,0

idem, com "caravela" movida a vento solar

28.000

30.719

33.110

9,8

A forma hoje mais viável de aproveitar a energia solar seria com uma vela de verdade – uma finíssima película de plástico espelhado, com mais de um quilômetro de extensão, impulsionada por luz solar. Mesmo resolvido o desafio técnico de esticar e manobrar uma vela desse tamanho, não é recomendável para viajantes com pressa: até a vela acumular impulso suficiente para iniciar a viagem a Marte, seriam necessários um a dois anos. Se essa tecnologia for usada, será provavelmente apenas em transporte de carga.

Nessa fase, terrenos em Marte seriam vendidos por US$ 25 por hectare. Segundo esse esquema, o planeta inteiro valeria 358 bilhões de dólares. O governo americano garantiria o monopólio de propriedade e exploração mineral, punindo através de sobretaxas punitivas as iniciativas que desafiassem os direitos por eles reconhecidos. Isso, diga-se de passagem, violaria frontalmente o Tratado do Espaço Exterior proposto pela ONU e assinado em 1967 pelas superpotências, segundo o qual os corpos celestes não estão sujeitos a apropriação nacional ou privada e sua exploração deve beneficiar todos os povos independentemente de seu desenvolvimento econômico e científico. Mas também não seria a primeira vez que os EUA violam uma convenção internacional.

Do ponto de vista das necessidades humanas, a tênue atmosfera marciana é hoje quase inexistente. Viver nesse ambiente implica habitar bases subterrâneas pressurizadas, que os colonos teriam que construir com suas próprias mãos a partir dos equipamentos contidos nas pequenas cápsulas que os transportariam, incluindo estufas para cultivo de alimentos. Só seria possível sair das bases dentro de veículos pressurizados e com um traje de astronauta completo. Zubrin não se intimida e diz que a vida em tais bases poderia ser até agradável: dá como exemplo a filha adolescente que "pularia de alegria com a oportunidade de viver num shopping center".

Os pioneiros, porém, poderiam criar um mundo melhor para seus descendentes. Supostamente, o mesmo efeito estufa que ameaça transformar a Terra num deserto árido poderia tornar o árido deserto marciano num mundo verdejante. Esse processo é chamado de "terraformar" um planeta, isto é, torná-lo mais semelhante à Terra.

Na segunda etapa da colonização, o efeito estufa seria incrementado com a produção industrial de gases como o CFC, com o cultivo de bactérias capazes de liberar metano e/ou concentrando energia solar nas calotas polares com espelhos de 200 mil toneladas e 125 km de diâmetro (o que significa uma área de 12 mil km², mais de metade de Sergipe), suspensos no espaço. A evaporação das calotas, basicamente gelo seco – gás carbônico congelado – e, num segundo momento, também do gás carbônico contido no solo, tornaria a atmosfera marciana cada vez mais espessa e mais capaz de reter calor.

Entramos no âmbito do extremamente hipotético, pois a composição e profundidade do solo e das calotas polares não são bem conhecidas, mas Zubrin estima que em duzentos anos Marte teria uma atmosfera basicamente de gás carbônico com um terço da pressão atmosférica da Terra, à qual a ação de bactérias acrescentaria 1% de oxigênio. Ainda longe de ser respirável por seres humanos, mas suficiente para deixar temperatura, pressão e radiação em níveis toleráveis. Seres humanos poderiam viver em tendas oxigenadas e sair ao relento sem trajes espaciais, usando apenas uma máscara de oxigênio. Muitas plantas poderiam se desenvolver muito bem nesse ambiente e a agricultura ao ar livre se tornaria possível. Marte deixaria de ser vermelho para ser um planeta verde.

Segundo Zubrin, isso elevaria para US$ 36 trilhões o valor total dos terrenos marcianos. Isso proporcionaria um retorno de 9.900% para os que tivessem investido em comprar terrenos marcianos na primeira fase, mas num prazo de duzentos anos, isso significa, na verdade, um retorno de apenas 2,3% ao ano – bem menos do que a maioria dos investimentos de baixo risco disponíveis na Terra.

Mesmo com as hipóteses ousadamente otimistas de Zubrin e supondo que um fluxo de colonos de 100 imigrantes por ano começasse em 2010, a população de Marte levaria 40 anos para atingir dez mil habitantes e 160 para se chegar a 200 mil. Relativamente à população da Terra – 6 bilhões hoje e provavelmente mais de 10 bilhões na segunda metade deste século 21 – é como querer esvaziar um oceano com conta-gotas. Fica claro que colonizar Marte não ajuda a solucionar o problema da superpopulação na Terra. Muito antes de que Marte chegue a ser verde – se esse dia chegar a existir -, o problema da superpopulação na Terra terá de estar resolvido, de uma forma ou de outra.

Para Zubrin, porém, esse projeto não é apenas um megaempreendimento imobiliário, mas a condição necessária para evitar a decadência da civilização na Terra. Assim como a colonização do Novo Mundo teria sido o fator principal do progresso da civilização ocidental na era moderna e a colonização do Oeste o fator do progresso americano no século 19, a ocupação da fronteira marciana seria o remédio contra a estagnação sociológica e a homogeneização das culturas da Terra.

As forças econômicas e sociais em jogo no passado, porém, eram muito diferentes das que estariam em jogo numa colonização marciana. A perspectiva de ocupação de terras virgens serve como válvula de escape para as pressões sociais quando é uma saída viável para imigrantes pobres que aplicam suas esperanças e sua vontade de trabalhar num meio propício que não exige qualificações especiais. Isso também ajuda indiretamente os que ficam na pátria a melhorar de vida – os patrões, por exemplo, são levados a oferecer salários melhores a seus empregados para convencê-los a não emigrar.

Porém, para Marte, mesmo contando com tecnologias que hoje só podemos imaginar, só os mais abonados e mais bem preparados poderiam ir. Mesmo “terraformado” a ponto de ficar verde, Marte ainda seria mais inóspito do que a Antártida e imensamente mais distante. Não bastaria aos pioneiros serem suficientemente corajosos (ou loucos) para desafiar as imensas dificuldades: eles também necessitariam de talento e qualificações extraordinárias em física, biologia e medicina para sobreviver adequadamente num ambiente tão hostil. Por que tais pessoas pagariam uma fortuna para ir viver num planeta hostil? Se pessoas tão brilhantes não puderem encontrar uma boa aplicação para seus talentos na Terra, quem poderá?

A conclusão necessária é a ficção científica está enganada:  não é possível fazer analogias simplistas entre a colonização do mundo pelo Ocidente e a conquista do espaço. A primeira pôde ser feita com muito trabalho físico, empregando habilidades relativamente comuns e recursos financeiros modestos, ao alcance de um pequeno Estado como Portugal e, numa fase posterior, de pequenos grupos de investidores privados.

Hoje, ao menos dentro do futuro que pode ser razoavelmente planejado, a colonização do espaço exige recursos financeiros fabulosos e tecnologia de ponta, com a qual só os EUA (e no futuro, talvez também União Européia, Japão e China) podem sonhar.

Não é impossível: os custos que têm sido estimados para esse tipo de missão representam uma parcela dos orçamentos dos EUA comparável à que representavam para Portugal, Espanha ou Inglaterra as primeiras missões de exploração e colonização do ultramar.

É inviável, porém, como uma aventura privada do cidadão comum. Uma missão tripulada a Marte, carregando quatro tripulantes, custaria, dentro da tecnologia disponível nesta década, um mínimo absoluto de US$ 2,3 bilhões – cerca de 13 mil vezes o custo de uma nau do século 16. Cerca de 2.200 vezes o custo total da viagem de Colombo que transportou 90 pessoas ou 4.200 vezes o custo da viagem do Mayflower que levou 120 pessoas (incluindo tripulação). Em outras palavras, o custo por pessoa é 50 mil vezes a 120 mil vezes maior, enquanto os salários aumentaram cerca de 7,6 vezes (se faz sentido comparar o salário de um engenheiro da década de 1990 com o de um marinheiro do século 16.) A proporção necessária entre capital e trabalho aumentou seis mil a dezesseis mil vezes.

A exploração espacial exige também um extraordinário grau de especialização: nenhum pequeno grupo, mesmo que constituído dos mais qualificados técnicos e cientistas, reuniria todas as capacidades necessárias para colonizar um mundo inóspito e nele sobreviver. É necessário o respaldo de todo o aparato (incluindo burocracia) de uma sociedade complexa. Não é uma missão para grupos de aventureiros e sim para toda uma civilização.

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Bibliografia

·         Velho, Álvaro (com introdução e notas de Eduardo Bueno) – O descobrimento das Índias: o diário da viagem de Vasco da Gama, Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

·         McEvedy, Colin – Atlas da História Moderna, São Paulo: Verbo, 1990

·         Dyson, Freeman – Trastornando  el Universo, México: Fondo de Cultura Económica, 1983  págs. 137 a 146. Trata-se do capítulo 11, Peregrinos, Santos e Homens do Espaço. O título original em inglês é Disturbing the Universe (Perturbando o Universo), mas, que eu saiba, ainda não existe tradução para o português).

·         Paine, Lincoln – Ships of the World: an Historical Encyclopedia, Londres: Conway, 1997

·          Sechrest, Larry J. – American Shipbuilders in the Heyday of Sail: their rise and decline, http://www.mises.org/journals/scholar/sechrest2.PDF

·         Zubrin, Robert – The Case for Mars: the plan to settle the red planet and why we must, Nova York: Free Press, 1996.

 

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