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AUTISTA E IRRESPONSÁVEL

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Estudantes franceses de economia denunciam a economia neoclássica ensinada nas faculdades como uma ciência autista e irresponsável.


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  Filosofia


Índice

Ciência autista e irresponsável

A denúncia dos estudantes franceses: a economia ensinada nas faculdades não tem nada a ver com a realidade

A resposta dos mestres

Como alguns professores reagiram ao manifesto dos estudantes

Reflexão

O que isso tem a ver com quem não é economista

Currículo mínimo da Universidade de Chicago

O currículo da Universidade de Chicago, reconhecido como padrão para os currículos de economia dos EUA e de todas as faculdades pautadas pelo modelo norte-americano.

Currículo proposto pelos estudantes franceses

Compare os currículos tradicionais com a proposta dos estudantes franceses.

Veja também

Um portal fascinante (mas em inglês) para quem estiver interessado em aprofundar o assunto.


Ciência autista e irresponsável

Há décadas, em todas as partes do mundo, todos os estudantes de economia cujo bom senso conseguiu sobreviver aos primeiros anos de faculdade se queixam do abismo que cresce entre a realidade à sua volta e as fórmulas abstrusas que estudam nos livros, sem saber direito o que fazer dessa inquietação e como propor uma alternativa. Mas em junho do ano passado, na França, alguns de seus colegas conseguiram expressar esse mal-estar em palavras certeiras que continuam repercutindo em todo o mundo e abriram uma séria discussão não só dos métodos de ensino como da própria teoria que fundamenta o pensamento único do mundo globalizado.

Clamaram aos quatro ventos que o rei está nu: denunciaram a economia ensinada nas faculdades como uma ciência autista e socialmente irresponsável, que faz da matemática um fim em si mesmo. Exigem um maior engajamento com a realidade e uma maior pluralidade de enfoques que dê conta da complexidade e da incerteza da maioria das grandes questões econômicas. Querem estudar as políticas econômicas e sociais reais, a história da ciência econômica e de suas relações com outras disciplinas e métodos para avaliar a qualidade da informação contida nos dados econômicos, restringindo a obsessão com ferramentas teóricas e com a teoria das transações do mercado na medida em que forem efetivamente relevantes para os problemas concretos.

O manifesto, publicado na Internet em junho do ano passado, denuncia o uso sem controle da matemática na ciência econômica como fim em si mesmo, que fez da economia ensinada nas faculdades uma ciência autista e socialmente irresponsável. Exige um maior engajamento com a realidade concreta e uma maior pluralidade de enfoques que dê conta da complexidade e da incerteza da maioria das grandes questões econômicas, no lugar do domínio repressivo da teoria neoclássica no currículo. Querem ciência no lugar de cientismo, reflexão e crítica no lugar do dogmatismo corrente no ensino da economia.

Para eles, os cursos não devem mais se centrar em ferramentas teóricas (modelos matemáticos para maximizar sob restrições, encontrar pontos extremos locais e gerais), mas em problemas concretos (rendas, pobreza, desemprego, política monetária, comércio internacional, União Européia, países em desenvolvimento, imigração, nova economia, ecologia etc.). As ferramentas devem ser usadas só até o limite de sua relevância para analisar tais problemas e não como um fim em si mesmas.

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A resposta dos mestres

Os mestres não foram unânimes, mas um grupo deles publicou um documento reforçando a tese dos estudantes e propondo a abertura de um debate público. O assunto imediatamente ganhou espaço na mídia francesa e foi encarado com seriedade pelo ministro da Educação francês Jack Lang, que criou uma comissão para investigá-lo. A partir de outubro, debates sobre o estado da ciência econômica foram organizados em universidades por toda a França, seguidos por uma conferência nacional em dezembro. Ao menos nesse país, uma reforma do ensino da economia que ponha fim ao reinado do dogmatismo e abra as portas à investigação crítica começou a ser vista como uma possibilidade real.

Professores mais conservadores, porém, publicaram um contra-manifesto no Le Monde, reafirmando o papel da matemática no ensino de economia e alegando ser meramente partidário o ataque dos estudantes às "teorias centrais da moderna economia científica". Isso deu a importantes economistas de outros países a oportunidade de se posicionar.

James K. Galbraith, da Universidade do Texas (filho do famoso John Kenneth Galbraith), tomou uma posição abertamente simpática ao manifesto dos estudantes, enfatizando que mesmo as teses centrais da ciência econômica são passíveis de debate, apesar da resposta dos professores sequer reconhecer a existência de quaisquer assuntos controvertidos dentro de sua disciplina: "a pretensão de que uma única estrutura teórica possa ser, ou tenha sido, de uma vez por todas construída a partir de princípios axiomáticos e verificada pela observação – o ponto de vista afirmado no contra-manifesto – apenas revela o quanto essa afirmação está afastada da realidade de nossa profissão. Também constitui a melhor evidência de que os estudantes franceses estão certos em seu apelo por uma reforma fundamental".

Quanto à "teoria da conspiração" lançando suspeitas sem provas sobre as motivações políticas dos estudantes, "não inspira confiança na disposição científica dos que assinaram o contra-manifesto". Galbraith acrescentou que três áreas vitais têm sido totalmente omitidas do ensino de economia a um alto custo para a ciência e para a sociedade: a história da economia e de suas relações com outras disciplinas; a tradição da economia política (macroeconomia e economia monetária), sufocada pela ênfase neoclássica nas transações de mercado; e o estudo dos diferentes contextos institucionais, das estruturas políticas e da histórias das políticas econômicas. Sem falar no estudo de métodos para coletar dados econômicos e avaliar a qualidade da informação neles contida.

Por outro lado, Robert Solow, um economista também conhecido, veio em socorro da ortodoxia. Mas nem ele deixou de criticar o contra-manifesto  e seus autores, que sequer compreenderam que os estudantes não contestaram o uso da matemática em economia. Para ele, os estudantes franceses até têm razão em solicitar uma abordagem mais prática da ciência por parte de mestres que "não fazem corretamente seu trabalho", mas não deixaram claro se entendiam que o núcleo da teoria e da metodologia neoclássicas são de fato incontestáveis, ainda que possa haver controvérsias em temas periféricos. Reduziu a questão a mera incompetência dos professores franceses: na "realidade" seus alunos estariam demandando o que os departamentos de economia norte-americanos já oferecem.

Solow representa a corrente principal da ciência econômica, que continua de costas para a economia real e focalizando sua atenção no refinamento de instrumentos cada vez mais abstratos e complicados, cuja principal utilidade está em desenvolver opiniões preconcebidas com tal brilho e precisão que se perde de vista que os pontos de partida e de chegada dessas teorias têm pouco a ver com a realidade, que muitos dos fatos relevantes não foram ou não podem ser quantificados ou foram traduzidos em números através de metodologias imprecisas, enviesadas e pouco confiáveis.

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Reflexão

A ilusão de saber o que na verdade não se sabe é das mais perigosas – que o digam os antigos planejadores econômicos da ex-União Soviética. E há poucas maneiras mais fúteis de desperdiçar recursos que a obsessão com aperfeiçoar instrumentos sem realmente ter como usá-los – como a desses entusiastas que gastam fortunas com equipamentos de alta fidelidade sem realmente gostar de música e desses fanáticos dos computadores que fazem questão de possuir o processador e os programas mais avançados para não fazer nada mais complicado do que enviar uma mensagem eletrônica.

O pior é que economias nacionais, principalmente nos países mais pobres, têm sido conduzidas como se essas as teorias fossem infalíveis. Propostas de restrições aos fluxos internacionais de capitais têm sido automaticamente descartadas e políticas de previdência social e de desenvolvimento nacional têm sido desmanteladas com base em postulados teóricos que garantem que a não interferência do Estado no funcionamento dos mercados necessariamente fará melhor. Mesmo quando o fracasso das previsões feitas com base nesses pressupostos é tão claro quanto nas crises energéticas norte-americana e brasileira ou nas crises cambiais da Ásia, Rússia e Argentina, é a regulamentação ou presença residual do Estado que leva a culpa; exige-se aos governos ter fé e radicalizar ainda mais a política que os está levando a um completo desastre.

A aparente sofisticação das ferramentas matemáticas da economia neoclássica e a distribuição de Prêmios Nobel para seus inventores procuram dar a impressão de que a economia tornou-se uma ciência tão exata quanto a teoria da relatividade ou a física das partículas do século 21. Na realidade está muito mais para a medicina dos tempos de Molière, quando o prestígio e a autoconfiança do médico que sabia expor com brilho e palavras complicadas as teorias de Galeno e Aristóteles não era nem um pouco afetados pela assustadora mortalidade que suas sangrias e enemas provocavam entre os pacientes. Assim como para os doentes do século 17, nossa sobrevivência depende de sabermos questionar nossos supostos salvadores.

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Currículo mínimo da Universidade de Chicago

 

O currículo da Universidade de Chicago é reconhecido como um padrão para os currículos de economia dos EUA e para todas as faculdades pautadas pelo modelo norte-americano. Compare com a proposta dos estudantes franceses:

Programa de estudos

O programa de bacharelado em economia visa equipar estudantes com as ferramentas básicas necessárias para entender a operação de uma economia moderna: origem e papel dos preços e dos mercados, alocação de bens e serviços e fatores que entram na determinação da renda, do emprego e do nível de preços.

Requisitos do programa

O bacharelado com concentração em economia... deve incluir o currículo mínimo, que consiste de teoria dos preços (Economia 200, 201) e macroeconomia (Economia 202 e 203). São também exigidos um curso em história econômica (Economia 221, 222, 223, 225, 229, ou 254) e dois em econometria; o último requisito é normalmente atendido por Estatística 220 e Economia 210... Estudantes com concentração em economia também precisam levar três cursos em matemática, além dos requisitos gerais de educação.

 

(Assim, o currículo mínimo de Chicago está dividido em 10 partes, três das quais são matemática pura; duas, econometria e estatística; quatro, "ferramentas" analíticas e uma, história econômica.  Estão listadas como segue).

 

1.       uma matéria de matemática pura

2.       outra matéria de matemática pura

3.       mais outra matéria de matemática pura

4.       Elementos de Análise Econômica I.   Este curso desenvolve a teoria econômica da escolha do consumidor. Essa teoria carateriza as escolhas ótimas para os consumidores, dadas suas rendas, suas preferências e os preços relativos dos diferentes bens. O curso desenvolve ferramentas para analisar como essas escolhas ótimas mudam com os preços relativos e as rendas dos consumidores. Finalmente, o curso apresenta várias medidas do bem-estar do consumidor. Os estudantes aprendem como avaliar o impacto de taxas e subsídios usando essas medidas. Se o tempo permitir, o curso examina a determinação dos preços de mercado e quantidades, dadas hipóteses básicas relativas à oferta de bens.

5.       Elementos de Análise Econômica II.  Este curso é continuação de Economia 200. A primeira parte discute mercados com um ou poucos ofertantes. A segunda parte focaliza oferta e demanda de fatores de produção e distribuição da renda na economia. O curso também inclui alguma teoria elementar do equilíbrio geral e economia do bem-estar.

6.       Elementos de Análise Econômica III. Sendo uma introdução à teoria e às políticas macroeconômicas, este curso cobre a determinação da demanda agregada (consumo, investimento e a demanda por moeda), oferta agregada e a interação entre oferta e demanda agregadas. O curso também discute as visões ativista e monetarista da política fiscal e monetária.

7.       Elementos de Análise Econômica IV.  Este é um curso sobre moeda e bancos, teorias monetárias, determinantes da oferta e demanda de dinheiro, operação do sistema bancário, políticas monetárias, mercados financeiros e escolha de carteiras de investimentos.

8.       Econometria A. Cobre modelos de regressão linear simples e múltipla, a teoria da distribuição associada e procedimentos de teste; correções para heteroscedasticidade, autocorrelação e equações simultâneas; e outras extensões na medida em que o tempo permita. Os estudantes também aplicam as técnicas a uma variedade de conjuntos de dados usando PCs. Os estudantes são encorajados a atender este requisito no final do terceiro ano.

9.       Métodos Estatísticos e Suas Aplicações.  Este curso é uma introdução às técnicas estatísticas e aos métodos de análise de dados, incluindo o uso de computadores. Os exemplos são tirados das ciências sociais, físicas e biológicas. Pede-se aos estudantes aplicar as técnicas discutidas a dados tirados de pesquisas reais. Os tópicos incluem descrição de dados, ténicas gráficas, análise exploratória de dados, variação e amostragem aleatórias, problemas com uma e duas amostras, análise de variância, regressão linear e análise de dados discretos. Uma ou mais seções de Estatística 220 usam exemplos tirados de economia e negócios e uma seleção de textos e tópicos mais apropriados para os que se concentram em economia.

10.    História econômica.

 

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Currículo proposto pelos estudantes franceses 

 

¨      Propostas para um núcleo comum no currículo de economia

¨      Três agrupamentos sem uma hierarquia pré-determinada:

 

Primeiro Grupo:  Economia descritiva : história dos fenômenos econômicos e sociais, atores e instituições

1.       História dos fenômenos econômicos e sociais (incluindo a história das políticas econômicas e sociais).

2.       Atores, organizações, instituições.

·         O Estado (administrações públicas, direito público, finanças públicas)

·         Empresas (métodos contábeis para empresas privadas, direito comercial, análise financeira…).

·         Sistema bancário e financeiro  (Os bancos e o Banco Central, moeda e finanças).

·         Sindicatos (negociação coletiva, lei trabalhista).

·         Associações (diversidade, economia social).

·         Instituições econômicas internacionais (relações econômicas internacionais, o sistema financeiro e monetário internacional, direito público, direito internacional …).

3.        Economia descritiva (população ativa, estrutura do sistema produtivo, orçamentos domésticos), sistemas de contas nacionais, geografia econômica (estudando as áreas de integração econômica, problemas de desenvolvimento...)

Segundo grupo : Teorias e questões

1.       História das teorias econômicas (Os Clássicos, Marx e o marxismo, marginalismo, Keynes e keynesianismo, os austríacos, os neoclássicos, os institucionalistas).

2.       Filosofia moral e política (pensamento sobre os conceitos de justiça, igualdade, distribuição, eficiência,…). Uma parte importante desse curso terá de ser dedicada ao exame de estudos de caso (tais como: "a saúde pode ser deixada ao livre jogo das forças de mercado?"; "até que ponto se deveriam abrir as fronteiras?"; "os genes deveriam ser tratados como mercadorias?")

Terceiro Grupo:  Economia aplicada e métodos quantitativos

Técnicas formais e quantitativas disponíveis para os economistas (econometria estatística, álgebra de matrizes...) se justificam apenas na medida em que possam ser aplicadas a situações concretas. É preciso, portanto, estudar essas técnicas quantitativas (pesquisa operacional, modelos de projeção, modelos de simulação...) em relação a questões de relevância atual, relacionadas a questões políticas e sociais. Este tipo de trabalho pode ser empreendido somente em pequenos grupos.. Eis uma lista não exaustiva dos temas possíveis:

 

·          Taxação (a taxa do petróleo deveria ser reduzida ? o sistema de imposto de renda deveria ser reformado ?).

·          Preços administrados e formação de preços de serviços de utilidade pública (Electricité de France, as ferrovias nacionais, SNCF, preços, os preços de medicamentos,...)

·          Poluição (o mercado de direitos de poluir, ecotaxa,…).

·          Regulamentação dos fluxos financeiros (Taxa Tobin, regulamentação prudencial).

·          Os mínimos sociais (a armadilha do desemprego, desincentivos..)

·          Previsão econômica (contribuições e limites da modelagem).

·          Competição (regulamentação de monopólios, políticas antitruste,…).

·          Seguros (assimetrias de informação, seguros sociais como a previdência social).

·          Leilões.

No mesmo espírito, incluímos neste grupo o tópico das políticas econômicas e sociais. Esta inclusão permitirá o estudo dos modelos IS-LM e Mundell Fleming etc como ferramentas voltadas para questões específicas (tais como a coordenação de políticas orçamentárias na zona do Euro, políticas de taxa de câmbio…).

 

Opções (tais como Direito, sociologia, psicologia, história, microeconomia, teoria dos jogos) podem também ser buscadas ao longo dos estudos, para estimular a abertura interdisciplinar.

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Veja também: Post-autistic economics network

Um portal fascinante (mas em inglês) para quem estiver interessado em aprofundar o assunto: http://www.paecon.net/

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