Comparações
irreais
Antonio Luiz Monteiro
Coelho da Costa
O custo de vida não é um guia confiável para
adequar a taxa de câmbio.
No segundo semestre de 2002, a forte desvalorização da moeda brasileira angustiava muita gente bem informada neste País. Praticamente a cada dia, os jornais e os noticiários da tevê davam manchetes assustadoras para as novas alturas escaladas pelo dólar.
Realizadas as eleições, a moeda brasileira voltou gradualmente a se revalorizar. No início de maio, o dólar voltou a flutuar abaixo do patamar de R$ 3, como não se via desde agosto do ano passado. Mas, em vez de ser saudada com alívio, a reversão do processo que motivou tanta ansiedade de 2002 passou a ser vista, ela mesma, como motivo de preocupação.
Quanto o dólar deveria valer no mercado de câmbio, no Brasil de maio de 2003? Para os exportadores, como também para os setores ameaçados pela concorrência de produtos importados, tão alto quanto possível. Em outros tempos, isso foi ironizado, em homenagem a um ex-presidente da Volkswagen, como a “lei de (Wolfgang) Sauer” – em qualquer momento, seja qual for o critério, o câmbio sempre está defasado (subvalorizado) em 20%.
Já para as empresas endividadas em moeda estrangeira ou dependentes de insumos importados; para as transnacionais interessadas na desnacionalização da economia ou na valorização de seus ativos no país; e para os investidores (não só estrangeiros) interessados na rentabilidade em dólar das suas aplicações, é exatamente o contrário. Em homenagem a um ex-diretor do BC, digamos que vale para eles a “lei de (Gustavo) Franco” – enquanto houver alguma indústria nacional de pé, o câmbio estará supervalorizado.
Do ponto de vista dos interesses da maioria, o problema é menos simples. A alta do dólar, para começar, gera inflação. Faz subir não só os preços do que é de fato importado, como também de muitos outros itens balizados pelo mercado internacional, incluindo petróleo e produtos exportados (pois os exportadores passam a cobrar do mercado interno o mesmo preço que conseguem no externo). Esses aumentos acabam por ser repassados aos setores que os consomem e ao custo de vida, como aconteceu nos últimos meses.
Além disso, um dólar alto aumenta o ônus da dívida externa e da parte da dívida interna que está indexada ao dólar sobre as contas públicas. Ao mesmo tempo, reduz o PIB brasileiro medido em dólares, o que aumenta o endividamento do País aos olhos dos credores externos.
Por outro lado, um dólar baixo desestimula exportações e estimula importações de uma forma muito perigosa para uma nação que, como o Brasil, tem um balanço de pagamentos deficitário e nem sempre pode contar com um fluxo de investimentos suficiente para fechar as contas externas.
No médio prazo, conduz a uma crise financeira por criar dúvidas sobre a capacidade de pagamento da dívida externa; no curto, destrói indústrias e empregos, como se viu na era do populismo cambial, de 1994 a 1998. Bens importados e viagens ao exterior, teoricamente mais baratos, ficaram inacessíveis por falta de empregos para pagá-los.
Qual o câmbio “justo”? Há quem tente se orientar pelo conceito de paridade de poder aquisitivo: o normal seria que os preços médios das mercadorias, em dólares, fossem mais ou menos iguais em todos os países. A revista The Economist, por exemplo, faz periodicamente uma tentativa semi-séria de prever a valorização ou desvalorização das diferentes moedas do mundo comparando os preços locais de um Big Mac. No último levantamento, 24 de abril, era de US$ 2,71 nos EUA e de R$ 4,55 no Brasil. Portanto, a cotação “justa” do dólar seria de R$ 1,68 e o real estaria subvalorizado em 45%. Simples, não?
CARNE MOÍDA, QUEIJO, SALADA,
MOLHO ESPECIAL, PÃO COM GERGELIM, TAXA DE CÂMBIO, PODER AQUISITIVO E RENDA PER
CAPITA (ARGH!)
Índice "Big Mac" da
revista The Economist e indicadores econômicos do Banco Mundial para países
selecionados
|
País |
moeda local |
preço do Big Mac |
paridade com o dólar |
câmbio efetivo |
renda per capita |
custo de vida |
|||
|
|
|
em moeda local (a) |
em US$ (a) |
(EUA = 100) (a) |
seg. Big Mac (a) |
(a) |
pelo câmbio (b) |
por PPP (b) |
(b) |
|
EUA |
dólar dos EUA |
2,71 |
2,71 |
100 |
1,00 |
1,00 |
34.280 |
34.280 |
100 |
|
Suíça |
franco suíço |
6,30 |
4,52 |
170 |
2,32 |
1,37 |
38.330 |
30.970 |
124 |
|
Dinamarca |
coroa |
27,75 |
3,99 |
151 |
10,24 |
6,78 |
30.600 |
28.491 |
107 |
|
Canadá |
dólar canadense |
3,20 |
2,17 |
81 |
1,18 |
1,45 |
21.930 |
26.530 |
83 |
|
Hong Kong |
dólar de Hong Kong |
11,50 |
1,47 |
54 |
4,24 |
7,80 |
25.330 |
25.560 |
99 |
|
Japão |
iene |
262,00 |
2,18 |
81 |
96,68 |
120,00 |
35.610 |
25.550 |
139 |
|
Austrália |
dólar australiano |
3,00 |
1,80 |
69 |
1,11 |
1,61 |
19.900 |
24.630 |
81 |
|
Reino Unido |
libra |
1,99 |
3,08 |
116 |
0,73 |
0,63 |
25.120 |
24.340 |
103 |
|
Zona do Euro |
euro |
2,71 |
2,89 |
91 |
1,00 |
1,10 |
20.670 |
23.800 |
87 |
|
Suécia |
coroa sueca |
30,00 |
3,50 |
133 |
11,07 |
8,34 |
25.400 |
23.800 |
107 |
|
Cingapura |
dólar de Cingapura |
3,30 |
1,85 |
68 |
1,22 |
1,78 |
21.500 |
22.850 |
94 |
|
Kuwait |
dinar |
0,65 |
2,17 |
80 |
0,24 |
0,30 |
18.270 |
21.530 |
85 |
|
Nova Zelândia |
dólar neozelandês |
3,95 |
2,15 |
82 |
1,46 |
1,78 |
13.250 |
18.250 |
73 |
|
Coréia do Sul |
won |
3.300,00 |
2,63 |
100 |
1.217,71 |
1.220,00 |
9.460 |
15.060 |
63 |
|
Rep. Tcheca |
koruna |
56,57 |
1,91 |
72 |
20,87 |
28,90 |
5.310 |
14.320 |
37 |
|
Hungria |
forint |
490,00 |
2,14 |
81 |
180,81 |
224,00 |
4.830 |
11.990 |
40 |
|
Argentina |
peso argentino |
4,10 |
1,40 |
53 |
1,51 |
2,88 |
6.940 |
10.980 |
63 |
|
África do Sul |
rand |
13,95 |
1,74 |
68 |
5,15 |
7,56 |
2.820 |
10.910 |
26 |
|
Polônia |
zloty |
6,30 |
1,56 |
60 |
2,32 |
3,89 |
4.230 |
9.370 |
45 |
|
Chile |
peso chileno |
1.400,00 |
1,95 |
72 |
516,61 |
716,00 |
4.590 |
8.840 |
52 |
|
México |
peso mexicano |
23,00 |
2,14 |
81 |
8,49 |
10,53 |
5.530 |
8.240 |
67 |
|
Malásia |
dólar malaio |
5,04 |
1,33 |
49 |
1,86 |
3,80 |
3.330 |
7.910 |
42 |
|
Brasil |
real |
4,55 |
1,44 |
55 |
1,68 |
3,07 |
3.070 |
7.070 |
43 |
|
Rússia |
rublo |
41,00 |
1,31 |
49 |
15,13 |
31,10 |
1.750 |
6.880 |
25 |
|
Colômbia |
peso colombiano |
6.200,00 |
2,13 |
79 |
2.287,82 |
2.914,00 |
1.890 |
6.790 |
28 |
|
Tailândia |
baht |
59,00 |
1,37 |
51 |
21,77 |
42,70 |
1.940 |
6.230 |
31 |
|
Turquia |
lira turca |
3.750.000,00 |
2,28 |
86 |
1.383.763,84 |
1.600.500,00 |
2.530 |
5.830 |
43 |
|
Venezuela |
bolívar |
3.700,00 |
2,32 |
85 |
1.365,31 |
1.598,00 |
4.760 |
5.590 |
85 |
|
Peru |
sol |
7,90 |
2,28 |
84 |
2,92 |
3,46 |
1.980 |
4.470 |
44 |
|
Filipinas |
peso filipino |
65,00 |
1,23 |
46 |
23,99 |
52,50 |
1.030 |
4.070 |
25 |
|
China |
yuan |
9,90 |
1,20 |
44 |
3,65 |
8,28 |
890 |
3.950 |
23 |
|
Egito |
lira egípcia |
8,00 |
1,38 |
50 |
2,95 |
5,92 |
1.530 |
3.560 |
43 |
|
Indonésia |
rúpia indonésia |
16.100,00 |
1,81 |
68 |
5.940,96 |
8.740,00 |
690 |
2.830 |
24 |
|
Índia |
rúpia indiana |
não há |
não há |
não há |
não há |
47,53 |
460 |
2.820 |
16 |
Fontes: (a)
The Economist, 24/4/03; (b) Banco Mundial, abril 2003 (referente a dados de
2001)
Existem comparações mais abrangentes de cestas de consumo, que oferecem estimativas mais sérias das diferenças de custo de vida entre diferentes países. Mesmo estas devem ser tomadas cum grano salis. Há sempre muito de subjetivo em comparar o consumo de povos com costumes, necessidades e entornos diferentes.
Tentemos, por exemplo, estimar o poder aquisitivo do dinheiro na Índia. Atualmente, o dólar vale 47 rúpias no mercado de câmbio. Não há Big Mac: a vaca é sagrada. No máximo, pode-se comprar um McMaharajah, de carneiro, por 19 rúpias. Entretanto, 30 rúpias compram, na Índia, alimentos básicos em quantidade equivalente à que se pode comprar com um dólar nos EUA e, quando se trata de serviços pessoais (corte de cabelo, faxina doméstica, contratação de motorista particular etc.), um dólar em Nova York não compra mais do que meras 3 rúpias comprariam em Nova Délhi.
Ao contabilizar uma ampla cesta de consumo, o Banco Mundial concluiu que, em termos de paridade de poder aquisitivo, um dólar vale cerca de oito rúpias. Para quem? A rigor, apenas para aqueles que de fato consomem essa cesta, a classe média indiana . Para um indiano pobre, cujo consumo se reduz a alimentos básicos, o dólar vale mais – ou melhor, a rúpia vale menos (leia sobre as consequências disso em Querida, encolhi a pobreza).
Pelo mesmo critério, o poder aquisitivo do dólar equivale hoje ao de cerca de R$ 1,20 – e as razões para duvidar da validade geral dessa equivalência são igualmente boas.
O mais importante, porém, é entender que esses cálculos podem servir – bem ou mal – para comparar padrões de vida e consumo de países diferentes, mas de forma alguma para tirar conclusões sobre o câmbio ideal. Tanto o Brasil quanto a Índia estariam condenados a um rápido colapso externo, caso tentassem condicionar suas taxas de câmbio à paridade de poder aquisitivo.
Devido à escassez de capitais e ao atraso tecnológico, a produtividade dos países periféricos é baixa no que se refere à maioria dos artigos transacionados no mercado internacional, produtos para os quais a tecnologia geralmente é decisiva. Como os preços desses produtos, em dólares, são igualados pela concorrência em todo o mundo, os salários pagos pelos setores que os produzem, em países de produtividade inferior, têm de ser mais baixos. Na Índia, um operário só pode produzir aço e um camponês só pode plantar trigo se ganhar muito menos que seus equivalentes nos EUA.
Como os mercados de trabalho são nacionais, os salários dos setores que não concorrem no mercado global são balizados por esses mesmos padrões. Mas, nesses, as diferenças tecnológicas em relação aos países centrais costumam ser muito menores, ou inexistentes. Não há grande diferença de produtividade entre os EUA e a Índia quando se trata de pentear cabelos ou de servir refeições – ou mesmmo de operar uma hidroelétrica.
Por isso, esses itens tendem a ser, proporcionalmente, bem mais baratos. Se os preços relativos de produtos exportados e importados determinarem a taxa de câmbio, o custo de vida nos países periféricos será tanto mais baixo – e sua moeda será tanto mais “fraca” para comprar produtos importados – quanto maior for a defasagem em produtividade relativamente aos EUA e quanto maior for a participação dos produtos não comercializados internacionalmente nos seus custos.
Países atrasados com fortes vantagens comparativas em um único produto, como petróleo, podem ter uma moeda relativamente “forte” e um custo de vida alto. É uma faca de dois gumes: os que vivem do setor exportador têm acesso fácil a produtos importados, mas o resto da economia permanece atrofiado, incapaz de concorrer com o mundo exterior. É a bênção e a maldição da Venezuela.
Países relativamente atrasados, mas grandes e razoavelmente auto-suficientes podem ter (pelos critérios do Banco Mundial) custos de vida surpreendentemente baixos: um quarto do custo dos países ricos na China, um sexto na Índia. É razoável que o Brasil de hoje, um caso intermediário, encontre seu equilíbrio com um custo de vida dois a três vezes mais baixo que o dos EUA – com o dólar entre R$ 2,40 e R$ 3,60, a preços de maio de 2003.
A história confirma essa dedução. Pode-se ver, no gráfico Gangorra Cambial, a relação entre o saldo, em dólares, da balança comercial (deflacionado pelo IPC norte-americano) nos últimos 25 anos e a taxa de câmbio, deflacionada a preços de hoje por dois critérios: o IGP (que revela a situação do ponto de vista dos exportadores) e o IPC (que a mostra do ponto de vista do consumidor, para o qual as oscilações foram maiores).

A correlação não é perfeita. Ao limitar-se à taxa de câmbio do dólar, deixa de levar em conta outras moedas importantes para o comércio exterior brasileiro. Ainda mais importante, muitos incentivos e desincentivos não cambiais tiveram efeitos sobre o comércio exterior, ao longo desses anos. Em fins dos anos 80 e início dos anos 90, por exemplo, a balança comercial foi favorável com uma taxa de câmbio real oficialmente menos alta. A inflação galopante dessa época, porém, proporcionava ganhos financeiros aos exportadores que recebiam adiantamentos sobre contrataos de câmbio que equivaliam, na prática a um câmbio mais favorável. Veja abaixo um gráfico que procura dar conta desse fator considerando não a taxa de câmbio do próprio mês, mas a do mes seguinte (para mostrar parte do ganho financeiro).

Está claro o quanto o câmbio é importante para o comércio exterior. O gráfico sugere que, em tempos de inflação moderada, o saldo da balança comercial tende a zero quando a taxa de câmbio real gira em torno de R$ 2,60 (a preços de maio de 2003) e superávites como os dos tempos do “exportar é o que importa” – ou como os US$ 16 bilhões que vinham sendo projetados no início deste ano – associam-se a taxas de câmbio reais mais altas, de R$ 3,50 a R$ 4.
Em fins dos anos 80 e início dos 90, a balança comercial foi favorável com uma taxa de câmbio real oficialmente menos alta, mas a inflação galopante dessa época proporcionava, aos exportadores que recebiam adiantamentos sobre contratos de câmbio, ganhos financeiros equivalentes, na prática, a um câmbio mais favorável.
Como a abundância de divisas que provocou a queda da taxa de câmbio de outubro de 2002 a maio de 2003 parece não passar do refluxo de uma fuga de dólares provocada por receios ilusórios, uma taxa mais realista deve prevalecer quando o refluxoe se esgotar, a menos que outros equívocos venham a acontecer.
Precisamos de um dólar tão alto quanto R$ 4? Provavelmente não: exportar não é um fim em si, mas um meio de manter o equilíbrio necessário a um desenvolvimento capitalista consistente. Quanto mais favoráveis forem a conjuntura externa e o fluxo de capitais, menos se necessitará de saldo na balança comercial e de uma taxa de câmbio elevada para manter o equilíbrio.
Nesse caso, a pressão inflacionária seria menor e os juros poderiam ser mais baixos. O que favoreceria investir de forma a diminuir, no longo prazo, a diferença entre a produtividade brasileira e a dos países desenvolvidos e tornar a moeda brasileira sustentavelmente mais “forte”.