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Continente desgovernado

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

O esvaziamento da política pela soberania dos capitais fragiliza governos a ponto de preocupar Washington.


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  América Latina


O deposto presidente do Equador ainda não havia se acomodado em Brasília quando a Nicarágua saltou para as manchetes, em 26 de abril de 2005. Dos 152 prefeitos do país, 96 – incluindo tanto membros da esquerdista Frente Sandinista quanto do conservador Partido Liberal Constitucionalista, rompido com o governo que elegeu – pediram a renúncia do presidente Enrique Bolaños, enquanto milhares de estudantes e outros cidadãos protestaram nas ruas de Manágua contra o aumento das passagens de ônibus.

Bolaños disse não ter como impedir o repasse aos transportes da alta do petróleo ou subsidiar os transportes. Ao tentar sair da residência oficial para negociar, foi apedrejado por cinco mil manifestantes. Saiu ileso, mas seu filho teve de ser levado ao hospital.

Se um governo perde poderes regulatórios, recursos financeiros e instrumentos de intervenção para implantar políticas econômicas e sociais, ou mesmo sustentar decentemente os sistemas de saúde, educação e segurança, o que lhe resta? Não muito além do papel de leiloeiro dos recursos naturais de seu solo e de corretor da força de trabalho do seu povo ante o capital globalizado. Nos anos 90, alguns governantes latino-americanos julgaram poder justificar assim sua existência, mas a realidade foi mais exigente.

Nos últimos quinze anos, dez presidentes não chegaram a concluir seus mandatos – e para surpresa de quem havia se acostumado com a rotina das décadas precedentes, nenhum deles foi vítima de um levante militar respaldado pelas elites econômicas, à moda antiga. A única tentativa de seguir o velho figurino – o golpe contra Hugo Chávez em 2002 – fracassou redondamente.

Também começam a parecer exceções os casos, como o da expulsão do presidente boliviano Sánchez de Lozada, nos quais um movimento com lideranças identificáveis se ergue contra um ato ou política determinada (no caso, um plano de exportação de gás).

Às vezes, não se trata sequer de reação a uma crise econômica no sentido usual do termo: vários presidentes foram depostos enquanto ouviam elogios do FMI e de analistas econômicos. No caso do equatoriano Lucio Gutiérrez, em um momento de excepcional bonança, após um ano de inédito superávit fiscal, crescimento econômico de 6,6% e a menor taxa de inflação em três décadas.

Ainda que nem sempre o saibam com clareza, as pessoas se opõem não tanto a este ou aquele governo quanto à impotência do governo, seja qual for, ante o capital transnacional. Tanto mais quanto mais se entusiasmaram com as primeiras medidas liberais, como a classe média argentina com a conversibilidade e a equatoriana com a dolarização.

O que fazer quando a economia vai bem e o povo vai mal? Simples, respondeu Delfim Neto no especial sobre Economia de CartaCapital nº 327: “substituir no momento adequado, nas urnas, o governo e seus economistas”. Leitores estranharam: falava sério ou se tratava de alguma sutil ironia? Já haviam passado dois anos desde a mais notável virada eleitoral deste país em décadas e não se notava qualquer mudança de substância nos rumos da economia.

O problema é precisamente a redução do processo político a um ritual vazio e irrelevante, que em nada modifica a inexorável marcha do sistema. Esta situação tem sido aceita por cidadãos dos países centrais com um fatalismo que em outros tempos teria sido desprezado como tipicamente muçulmano, mas isto é possível porque a maioria desses eleitores se sente, apesar de tudo, incluída na condição de passageiros do carro de Juggernaut.

Outro é o caso nas partes do mundo em que uma parcela crescente da população se vê excluída ou à beira de despencar dessa máquina que guina erraticamente para direções imprevisíveis e esmaga impiedosamente quem estiver em seu caminho.

É o caso da América Latina. Teve um crescimento de 80% em sua renda per capita de 1960 a 1979, mas os 25 anos seguintes foram de virtual estagnação em praticamente todos os países. De 1980 a 1999, a renda per capita cresceu 11%, o pior desempenho para qualquer período de vinte anos em mais de um século, incluindo os anos da Grande Depressão. De 2000 a 2004, mal cresceu mais 1%.

Nesse período, o neoliberalismo não conseguiu nenhuma revitalização fundamental do capitalismo, avançado ou periférico, apesar de essencialmente ter atingido seus objetivos. Criou sociedades mais desiguais, mais globalizadas e menos regulamentadas, ainda que não tão perfeita e utopicamente privatizadas quanto seus ideólogos têm sonhado.

Isto sempre permitirá ao doutrinário de plantão alegar que o fracasso não foi do “verdadeiro” neoliberalismo, sempre além do horizonte. Mas, depois de uma década já estendida em quarto de século perdido, já ficou difícil encontrar na América Latina alguém em quem coincida certa honestidade intelectual, uma razoável inteligência e alguma crença no Consenso de Washington.

Pouco importa: o neoliberalismo não precisa mais de profissões de fé e de defensores intelectuais. Tornou-se a aparência da realidade, das coisas “como são”, às quais de boa ou má vontade, apoiando ou contestando, é preciso se adaptar por incapacidade de ousar alternativas. Críticas e transgressões simbólicas fazem parte do jogo e a convicção é irrelevante: ao sistema, basta que cada um se comporte, mecanicamente, de acordo com seus pressupostos.

Na maioria, os governos encontram-se espremidos entre restrições objetivas legadas por seus predecessores e a sua própria incapacidade de propor e implementar rumos que não sejam os do piloto automático do capital financeiro. Na verdade, arriscam-se a robotizá-lo ainda mais, a ampliar a liberdade de movimento dos capitais e a “independência” do Banco Central com a contraditória esperança de obter alguma autonomia por meio de umas migalhas mais de aplicações financeiras.

Entre os poucos com margem de ação para atender a uma fração significativa das expectativas de seus eleitores, estão o Chile, a Argentina e a Venezuela. O primeiro, por ser pioneiro ao aplicar e sofrer os princípios neoliberais no continente, teve cautela para não demolir sua máquina estatal e conservar os mecanismos de controle de capitais e uma rede de segurança para amparar os excluídos a cada abalo produzido pelos altos e baixos das commodities em sua economia.

A Argentina, pelo contrário, foi demasiado longe e depressa na aplicação desses mesmos princípios e levou suas contradições à conclusão lógica: o colapso da conversibilidade e a explosão social. Com pouco ou nada a perder em termos de credibilidade junto à comunidade financeira internacional, já não se importa em escandalizá-la com seu pouco caso para com as solenes garantias da era Menem para com os credores externos e com o capital transnacional.

Ainda que difícil, a autonomia dentro da limitação dos seus recursos internos tem proporcionado a seu governo uma oportunidade superior à de outros países que cumprem compromissos externos na esperança de manter em aberto a possibilidade de financiamentos internacionais.

Quanto à Venezuela, é uma exceção difícil de imitar – não só pelos riscos inerentes ao ambíguo exemplo de Hugo Chávez, como também porque sua capacidade de desafiar o consenso neoliberal, atender demandas sociais e conquistar as massas marginalizadas sem romper radicalmente com o capital transnacional depende em boa parte da margem de autonomia proporcionada pela condição de grande exportador de petróleo em um momento de alta histórica do preço do produto.

O Brasil e o México, pela sua dimensão econômica, estão algo menos expostos às intempéries e caprichos das finanças globais do que os países menores, retêm alguma capacidade de regular detalhes e às vezes compensam algumas das frustrações internas com iniciativas diplomáticas de certa repercussão, mas de resto não chegam a ser exceção à impotência geral.

O governo de Vicente Fox, saudado como primeiro de oposição em muitas décadas, está hoje virtualmente paralisado e à espera das próximas eleições. Só lhe resta tentar sabotar o caminho do rival mais promissor e com mais apoio popular, o prefeito da capital López Obrador. Quanto ao governo brasileiro, como mostra a última decisão do Copom, continua refém de um mercado financeiro alheio às necessidades da economia real e da sociedade e perde pouco a pouco a capacidade de tomar iniciativas legislativas, enquanto se aproximam as nuvens da tempestade global pressagiada pelo crescimento explosivo do déficit estadunidense.

O que não tem remédio, remediado está, gostariam talvez de dizer certos governos. Mas a contradição entre a aparente natureza das coisas e as exigências dos excluídos não deixa de existir apenas por não ter solução à vista.

Vista de Washington, a fragilidade do quadro não é menos evidente. Durante sua visita ao Brasil, a secretária de Estado Condoleezza Rice citou Bolívia, Equador e Venezuela como “Estados democráticos muito frágeis”.

Classificar desta maneira o governo de Caracas (e não, digamos, o impopular e inoperante governo de Alejandro Toledo em Lima) causa espécie e o chanceler brasileiro Celso Amorim o defendeu. Rice foi ríspida: “Democracia não é só eleição. Um processo democrático não se faz com soluções fáceis que parecem boas, mas não são baseadas na realidade econômica”. Abraham Lincoln estranharia. Mas, para Rice, “democracia” não é governo do povo, para o povo e pelo povo e sim a ditadura da “realidade econômica” estadunidense.

Ficou confirmada a inclusão de pelo menos três latino-americanos na lista de países “instáveis” acusados, pela última versão da doutrina militar do Pentágono, de ameaçar a segurança dos Estados Unidos com sua própria fraqueza e sujeitos a intervenção militar. Aqueles que o chefe do “Escritório de Reconstrução e Estabilização” do Departamento de Estado, o cubano-americano Carlos Pascual, julga saber como colocar na linha justa da economia de mercado.

No limite, o modelo é o Haiti, onde o Banco Mundial impõe parcerias privadas à saúde e educação em troca de financiamentos que recusou ao governo de Jean-Bertrand Aristide com o pretexto de supostas irregularidades eleitorais, mas não recusa agora que o país está sob ocupação estrangeira e formalmente dirigido por um “Conselho de Notáveis” extraconstitucional e não eleito.

Um caso menos drástico pode ser o do Equador, onde após um movimento relativamente cordato, urbano e de classe média, a embaixadora dos EUA Kristie Kenney patrocinou uma saída inconstitucional mas suave para o derrotado Lucio Gutiérrez e agora tenta ajudar seu sucessor a controlar a situação sem sair da “realidade econômica”. Mas na Bolívia, onde a revolução é uma possibilidade concreta, ou na Venezuela, cujo governo parece disposto a resistir de armas na mão, soluções à moda de Washington certamente não seriam tão limpas.

Na verdade, nem seriam soluções. Como se viu no Iraque e no Haiti, intervenções estrangeiras tendem a agravar as contradições que afligem países formalmente independentes ao colocá-los sob a direção de um poder dogmático e imperial, sem legitimidade e sem percepção da história dos conflitos e problemas locais. Mais parece uma receita para  incendiar o Hemisfério.