Uma guerra de estatísticas
Antonio Luiz Monteiro
Coelho da Costa
A batalha ideológica
por trás dos números do emprego e do desemprego.
Os ambíguos conceitos de emprego e desemprego sempre se
prestaram a prestidigitações aritméticas. Quando o poder está em jogo, mais
ainda. Nem sempre exibir mais números é chegar mais perto da verdade. Um
jornalista perguntou a FHC, durante a campanha eleitoral de 2002, se a promessa
de seu candidato José Serra, de gerar oito milhões de empregos, era viável. Ele
respondeu: “Eu só posso dizer que criamos nove milhões”.
Referia-se à Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (Pnad), do Ibge, segundo a qual o número de pessoas ocupadas no País
de fato aumentou em 8,89 milhões entre 1995 e 2002. Mas, segundo o mesmo Pnad,
o desemprego havia aumentado de 4,4 milhões para 7,8 milhões: um crescimento de
77%. De 6,2%, passou a afetar 9,4% da população economicamente ativa.
A pesquisa mensal do mesmo Ibge, nos mesmos períodos,
dava 5,2% e 6,2%, respectivamente. Mas o censo de 2000, também do Ibge, revelou
uma taxa de desemprego de 15,0%, num mês em que o levantamento mensal
indicava 7,2%. Enquanto isso, a
Fundação Seade-Dieese encontrava taxas de desemprego 2,1 a 3,6 vezes superiores
às obtidas pela pesquisa mensal do Ibge para as mesmas regiões metropolitanas
Não foi a primeira vez, nem a última em que as
divergências entre os índices de desemprego do IBGE e da pesquisa Seade-Dieese
deram motivo a atritos. Já em novembro
de 1997, o ex-presidente FHC, julgando-se prejudicado, chegou a acusar o Dieese
de manipular dados: “Taxas de desemprego se manipulam no Brasil com leveza...
ninguém pergunta: como se chega a 16 por cento em São Paulo?". Na época
(novembro de 1997), a taxa da pesquisa oficial do IBGE era de 6%.
Emprego, desemprego e demanda por emprego segundo
diferentes critérios
|
Indicador |
1993 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
|
Pessoas ocupadas, Pnad (milhões) |
66,57 |
73,35 |
n/d |
75,46 |
n/d |
|
Desempregados, Pnad (milhões) |
4,40 |
7,83 |
n/d |
7,79 |
n/d |
|
População economicante ativa, Pnad (milhões) |
70,97 |
81,18 |
n/d |
83,25 |
n/d |
|
Desemprego, Pnad (%) |
6,19% |
9,65% |
n/d |
9,35% |
n/d |
|
Desempregados, censo (milhões) |
n/d |
n/d |
11,45 |
n/d |
n/d |
|
Desemprego, censo (%) |
n/d |
n/d |
15,04% |
n/d |
n/d |
|
Desemprego Brasil, pesquisa mensal Ibge de julho (%) |
5,23% |
7,54% |
7,18% |
6,19% |
7,54% |
|
Desemprego SP, pesquisa mensal Ibge de julho (%) |
5,54% |
8,18% |
7,52% |
6,18% |
8,89% |
|
Desemprego SP, pesquisa Seade-Dieese de julho (%) |
14,80% |
20,10% |
18,60% |
16,30% |
18,10% |
|
Desemprego e subemprego, Brasil (milhões) (*) |
11 |
21 |
20 |
19 |
21 |
|
Pessoas de 10 ou mais anos, censo (milhões) (**) |
n/d |
n/d |
136,43 |
n/d |
n/d |
|
Pessoas de 18 a 64 anos, censo (milhões) (**) |
n/d |
n/d |
98,90 |
n/d |
n/d |
(*)
extrapolação sem pretensões científicas a partir dos números Seade-Dieese para
SP, apenas para apenas ilustrar o conceito em questão
(**)
extrapolado a partir do crescimento dessas faixas etárias de 1991 a 2000
Não é para desistir de entender e erguer as mãos aos
céus em desespero. O desemprego não é uma simples variável física que, como massa
ou comprimento, possa ser definida por um único número. É um problema social
que pode ser apreendido de diferentes maneiras.
Tanto a pesquisa mensal do Ibge quanto a Pnad, na forma
como eram realizadas até 2002, consideravam desempregadas só as pessoas que
procuraram trabalho na semana da pesquisa. Não as que se conformaram com o
subemprego ou fizeram, na última semana, quaisquer atividades não-remuneradas.
Muito menos as que as desistiram de procurar emprego.
Mas a primeira considerava seis regiões
metropolitanas e a segunda cobria quase todo o Brasil. E apesar da
transferência de algumas fábricas para o interior, o desemprego no campo e nas
cidades menores continua maior do que nas regiões metropolitanas.
Já o método e o contexto do censo identificaram como
desempregados uma parte daqueles que outras pesquisas do Ibge consideram
ocupadas porque, digamos, fizeram uma reforma na casa ou pescaram algo para
alimentar a família nos últimos dias.
E a Fundação Seade-Dieese ampliou ainda mais o
conceito de desemprego, ao considerar também aquele que está oculto pelo
desalento e pelo trabalho precário. Aqui se revela não só o desemprego no
sentido estrito, como também o crescimento de uma zona cinzenta de ocupação de
má qualidade, entre o emprego e o desemprego.
Estar ocupado não significa estar empregado. Muitos
dos “ocupados” não são remunerados, trabalham por conta própria ou produzem
apenas para seu próprio consumo.
Quando FHC disse que criou nove milhões de empregos,
a rigor cometeu um erro conceitual. De 1993 a 2001, o número de empregados
aumentou de 34,9 milhões para 40,9 milhões, ou seis milhões. Com carteira
assinada, o aumento foi de 19,3 milhões para 22,2 milhões, ou meros 2,9
milhões.
Mais importante, aumentar o número de empregos – ou
mesmo de ocupados – não é o mesmo que reduzir o desemprego. Emprego e
desemprego cresceram ao mesmo tempo. Aumentou o número de postos de trabalho,
mas bem menos que o número de pessoas que deles necessitam.
De 1991 a 2000, a população em idade ativa – pelos
critérios convencionais, todos que têm dez anos ou mais – cresceu a um ritmo de
2,1% ao ano (2,7 milhões por ano, em média). Se preferirmos considerar ativas
as pessoas de 18 anos a 65 anos, a taxa de crescimento foi de 2,5% ao ano (2,2
milhões por ano).
FHC prometeu doze milhões de empregos na campanha de
1994 e 7,8 milhões durante a reeleição. De fato, para oferecer emprego a todas
as pessoas que ingressaram em idade ativa durante seus dois mandatos, teria que
ter criado 18 milhões a 22 milhões de empregos.
É verdade que nem todas as pessoas que chegam aos 10
anos, ou mesmo aos 18, saem automaticamente atrás de uma ocupação remunerada.
Muitas se satisfazem com depender dos pais ou do cônjuge.
Por outro lado, adultos que antes não trabalhavam
podem passar a sentir essa necessidade, seja como uma forma de emancipação
pessoal, seja porque o rendimento da família deixou de ser suficiente. Mas, dos
que sentem essa necessidade, muitos são desalentados ao sentir que a busca é
inútil.
Essas tendências não dependem só da demografia, mas
também de movimentos sociais e da conjuntura econômica. Espera-se cada vez mais
que crianças e jovens deixem de trabalhar e se concentrem no estudo, pelo menos
até os 16 anos. Mas também que as mulheres trabalhem fora e não dependam
totalmente do marido.
Uma conjuntura favorável pode animar muito mais
pessoas a procurar emprego, ao mesmo tempo que permite a algumas adiar essa
procura. Uma conjuntura ruim força muitos, inclusive crianças, a procurar uma
ocupação de que normalmente não necessitariam, mas também desalenta a outros.
Por isso, o crescimento da população economicamente
ativa – aquela que trabalha ou procura ativamente trabalho – não acompanha
necessariamente o da população em idade de trabalhar. Pode crescer mais
rapidamente, ou menos.
Para ilustrar, entre 1993 e 2001 a população
economicamente ativa cresceu, no conjunto, 2,0% ao ano, em média 1,55 milhões de pessoas por ano – 700 mil homens
e 850 mil mulheres. A dos homens cresceu 1,5% ao ano, a das mulheres, 2,8% ao
ano.
Se essa taxa se mantiver por mais quatro anos,
deve-se esperar uma demanda de mais 6,9 milhões de ocupações. Mas 14 milhões
entrarão em idade ativa enquanto só cinco milhões vão falecer ou (teoricamente)
se aposentar. O acréscimo na demanda potencial será da ordem de 9 milhões.
Ou seja, podem ser insuficientes até os dez milhões
de empregos que o programa do PT considerava necessários para absorver os
jovens que ingressam no mercado de trabalho e reduzir o desemprego para
patamares anteriores aos gerados por FHC.
Enquanto corria a campanha eleitoral de 2002, o Ibge
já preparava uma nova metodologia. Ao lado da pesquisa tradicional, começara a
fazer levantamentos de acordo com um critério mais compatível com as
recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
|
Diferenças
de metodologia |
|
|
|
|
Situação |
CLASSIFICAÇÃO SEADE-DIEESE |
CLASSIFICAÇÃO IBGE (antiga) |
CLASSIFICAÇÃO IBGE (nova) |
|
Não
trabalhou e procurou trabalho na semana |
Desemprego Aberto |
Desemprego Aberto |
Desemprego Aberto |
|
Sem trabalho,
sem procura na semana, mas procurou nos últimos 30 dias |
Desemprego Aberto |
Inativo |
Desemprego Aberto |
|
Sem
trabalho na semana e sem procura nos últimos 30 dias, mas procurou nos
últimos doze meses. |
Desemprego Oculto pelo Desalento |
Inativo |
Desemprego Oculto pelo Desalento
(se procurou nos últimos 6 meses) |
|
procura e
trabalho irregular nos últimos trinta dias |
Desemprego Oculto pelo Trabalho
Precário |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
|
Não
procurou nos últimos 30 dias, procurou nos últimos 12 meses, trabalhou
irregularmente |
Desemprego Oculto pelo Trabalho
Precário |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
|
trabalho em caráter excepcional nos últimos
trinta dias, sem procura |
Inativo com Trabalho Excepcional |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
Ocupado, se trabalhou na semana, ou
inativo, se não |
|
trabalho não-remunerado em negócios de
parentes na semana, sem procura de emprego |
Ocupado |
Ocupado, se trabalhou 15 horas ou
mais na semana; inativo, se menos |
Ocupado, se trabalhou uma hora ou
mais na semana; inativo, se não |
|
trabalho
não-remunerado em organizações beneficentes na semana, sem procura de emprego |
Inativo |
Ocupado |
Ocupado |
|
Crianças
de 10 a 14 anos |
contam |
não contam |
contam |
Os novos números só começaram a ser divulgados em novembro, depois de terminada a campanha eleitoral e resultaram muito similares à taxa de desemprego aberto do Seade-Dieese – veja o gráfico abaixo e se quiser, descarregue as séries de desemprego nos vínculos ao lado.
|
|
Desemprego na Grande São Paulo, segundo Seade e
Ibge (dados do gráfico): Desemprego na média das regiões metropolitanas (aquele
que costuma ser chamado de “desemprego no Brasil”, embora na verdade se
refira apenas a São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto
Alegre e Recife): |
Dois meses depois, a metodologia velha foi
definitivamente abandonada. O resultado é que o órgão oficial da União deixou
de dispor de séries históricas utilizáveis. Sua atual taxa de desemprego não é
comparável com a publicada até 2002.
Pelo menos um grande banco (segundo o site Globonews.com,
24/04/2003) deixou de usar os números oficiais para analisar o mercado de
trabalho e passar a usar os dados da
pesquisa de Seade-Dieese, cujas séries de desemprego aberto, oculto e total vêm
sendo publicadas desde 1985.
Essa pesquisa foi concebida no início dos anos 80,
com apoio de José Serra, então secretário do Planejamento do governo Franco
Montoro. Queria identificar realidades sociais e trabalhistas que o IBGE não
conseguia captar. Baseou-se em estudos conjuntos da Cepal (Comissão Econômica
para a América Latina e Caribe, das Nações Unidas) e da OIT, que tinham entre
os seus condutores o ex-ministro da Educação do governo FHC, Paulo Renato
Souza.
Participaram também o ex-diretor do Seade (de 1990 a
2000) Pedro Paulo Martoni Branco e o ex-diretor do Dieese (de 1967 a 1990) e
ex-secretário do Trabalho de São Paulo (de 1995 a 2002) Walter Barelli, hoje
deputado do PSDB.
Em 17 de março de 2003, porém, o secretário do Planejamento do Estado empossou, na diretoria executiva da Fundação Seade, o economista da FEA José Eli da Veiga que, no dia 3 de junho, publicou no jornal Valor, do qual era colaborador desde o início do ano, um furioso ataque contra a pesquisa que sua instituição ajuda a produzir.
Afirmou que a pesquisa exagerava a importância da
Região Metropolitana e escondia o bom desempenho econômico das cidades do
interior. Revoltou-se com que seus números “tirem o sono dos governantes”. Escreveu que somar o desemprego aberto com o
oculto para é uma mistificação “alimentada pela imaturidade do movimento
sindical”: não se faz assim nos Estados Unidos e também não “em toda terra que
não dá jabuticaba”.
Os sindicatos usuários do Dieese reuniram-se na
segunda-feira, 9, para discutir o que fazer. O presidente eleito da CUT, Luiz
Marinho, disse que procuraria o governador para pedir a continuidade da
parceria: “uma decisão como essa é inaceitável. Espero que seja meramente uma
posição equivocada da direção do Seade e não uma decisão política, o que seria
decepcionante”.
O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos
Gonçalves também cobrou posicionamento de Alckmin. Já havia escrevido ao Valor,
para questionar o artigo de Veiga. A resposta do economista: “no próximo artigo
sobre o tema serei mais didático, para que pessoas como ele também consigam
entender." Mas também os especialistas não entenderam. Ex-diretores da
Seade e do Dieese ficaram inconformados.
Martoni foi taxativo: “estou estarrecido com o
atrevimento e a falta de respeito do Zé Eli. A crítica dele revela uma base
tecnicamente equivocada, preconceituosa. É preciso dominar a metodologia
minimamente para criticá-la. O problema não é discutir a metodologia, mas a
arbitrariedade com a qual ele trata do assunto”.
Barelli também: “o artigo do Veiga foi muito
ofensivo. Não sei o motivo de ele estar tão transtornado. É uma tempestade em
copo d’água. Ele transformou uma questão técnica em política”. Mas duvida de que a pesquisa e a parceria
sejam interrompidas, pois a Fundação Seade está sem recursos e mudar a
metodologia sem ajuda do Dieese custaria caro.
Segundo Barelli, pesquisadores da OCDE – organização
dos governos dos países industrializados – estiveram no Brasil há pouco mais de
um ano e concluíram que a metodologia do Dieese se adapta à nova realidade do
mercado de trabalho europeu.
A pesquisa, explica Martoni, foi planejada tanto para
ser comparável com as de outros países – o desemprego “aberto” do Dieese está
de acordo com o padrão tradicional da Organização Internacional do Trabalho –
quanto para dar conta das falhas do sistema de proteção social.
Em um estado de bem-estar social que funcione a
contento, o desempregado recebe indenização e seguro-desemprego que lhe
permitem procurar emprego sem precisar de bicos. A fronteira entre emprego e
desemprego é inequívoca: quem não procura emprego ou não solicita
seguro-desemprego não é contado como desempregado.
Mas na realidade que sempre foi vivida nos países
periféricos – e que muitos países industrializados, mesmo sem dar jabuticabas,
também começam a enfrentar – muitos trabalhadores jamais estiveram no lado
formal da economia ou gozaram de qualquer tipo de proteção.
Poucos podem sobreviver por muito tempo apenas
procurando emprego. A maioria se vira com bicos ocasionais ou outras
alternativas precárias de sobrevivência e pode abandonar por muito tempo a procura
de emprego, embora permaneça disponível para isso se perceber melhora no
mercado de trabalho.
Nesta realidade, a zona cinzenta, entre emprego
satisfatório e desemprego aberto, é particularmente decisiva. Ao analisá-la,
não há como deixar de perceber que o problema é amplo e estrutural. As soluções
teriam de ser buscadas em políticas de geração de emprego (crescimento
econômico, serviços públicos, ampliação do mercado consumidor via distribuição
de renda) ou de formas alternativas e aceitáveis de ocupação (reforma agrária,
organizações sem fins lucrativos).
Decidir ver só o desemprego “aberto” – pessoas à procura de emprego – permite interpretá-lo como mera ineficiência do mercado, uma variável como a taxa de juros ou outra qualquer. Nessa visão, sempre há vagas, mas os trabalhadores não estão preparados, não sabem que existem, ou são impedidos de ocupá-las pelas leis do trabalho. Bastariam medidas pontuais de flexibilização, qualificação e intermediação da mão-de-obra, ou reduzir pisos salariais e direitos trabalhistas. Cegueira voluntária é uma opção ideológica.
Felizmente, não o governo de São Paulo fez outra escolha. O governador declarou às centrais sindicais que apoiava o convênio com o Dieese e ordenou que a publicação da pesquisa, suspensa desde o início da embrulhada, fosse retomada no formato habitual. No dia 25, Eli da Veiga demitiu-se e foi publicada a pesquisa de maio, que voltou a mostrar desemprego total de 20,6% em São Paulo.
Num melancólico epílogo ao caso Eli da Veiga, de volta ao Valor na terça seguinte, queixou-se da desorientação do governador que ordenou que o Seade mantivesse a “soma burra” que faz com que jovens “que vivem com a ‘mama’” sejam contados como desempregados só porque dizem estar em busca de algo melhor e do presidente que se preocupa com o primeiro emprego. Talvez só recupere o bom-senso se algum dia for assaltado por um jovem desempregado.