Depois de
amanhã já chegou
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Após um ano catastrófico, 189 nações
concordam em retomar as discussões sobre o controle do efeito estufa.
Como sabem os que acompanharam as carreiras de Katrina
(1.325 vítimas, principalmente em New Orleans), Rita (119 vítimas), Stan (1.153
vítimas, principalmente na Guatemala) e Wilma (60 vítimas), a América do Norte
e a América Central presenciaram em 2005 a pior temporada de furacões dos
últimos cem anos. Não foi a única aberração climática desse ano difícil.
Em 26 de julho, Mumbai (ex-Bombaim) teve a chuva mais forte
já vista sobre um continente: 944 mm em 24 horas provocaram mil mortes e US$
100 milhões em prejuízos materiais com as enchentes. Em 11 de outubro, a Europa
foi pela primeira vez atingida por um furacão, O Vince, embora reduzido a
dimensões inofensivas, varreu o sul de Portugal e da Espanha.
No início de novembro, a Amazônia brasileira começou a
enfrentar sua pior seca desde 1963. Em 28 de novembro, as ilhas Canárias foram
atingidas pela tempestade tropical Delta, a primeira de sua história, que matou
sete pessoas, causou grandes danos e deixou o arquipélago sem luz elétrica por
vários dias.
O próprio nome dessa tempestade soou como aviso. Antes de
cada temporada – oficialmente inaugurada em 1º de junho e encerrada em 30 de
novembro –, 21 nomes para ciclones do Atlântico Norte são escolhidos e
aplicados, em ordem alfabética, à medida que aparecem. Como a média anual é de
9,6 tempestades dignas de serem nomeadas, 5,9 das quais chegam a ser furacões,
isso sempre foi suficiente. O recorde havia sido 21 tempestades, em 1933.
Em 2005, pela primeira vez na história, a lista se esgotou.
As últimas cinco tempestades foram improvisadamente batizadas com nomes de
letras gregas – Alfa, Beta, Gama, Delta e Épsilon, a última das quais durou até
8 de dezembro. Foram 26 tempestades, 14 com categoria de furacão. Três ou
quatro atingiram a categoria 5, a mais violenta. Um deles, Wilma, foi o mais
potente de todos os tempos. Recordes históricos em todos os aspectos, inclusive
o financeiro: US$ 200 bilhões em perdas e danos materiais, 35% cobertos por
seguros.
O recorde anterior havia sido 2004 – US$ 145 bilhões em
prejuízos, 31% segurados – também marcado por fenômenos insólitos, como o
ciclone Catarina, o primeiro registrado na história do Brasil e do Atlântico
Sul e o furacão Ivan, descrito à época como um desastre que aconteceria “uma
vez a cada cem anos”, mas foi ofuscado em menos de 12 meses.
Um estudo
publicado na revista Science de 14 de setembro, assinado por quatro
cientistas, concluiu que, na média global, a freqüência de grandes furacões
(não do total de tempestades) cresceu 80% da década de 70 à década de 90 e, na
média de 1990 a 2004, foi cerca de 57% maior do que nos quinze anos anteriores.
PODE FICAR AINDA PIOR
Crescimento no número e porcentagem de furacões de categoria
4 e 5 até 2004
|
Bacia |
Período |
Crescimento |
|||
|
|
1975–1989 |
1990–2004 |
do
número |
||
|
|
Número |
% dos furacões |
Número |
% dos furacões |
% |
|
Pacífico
Oriental |
36 |
25 |
49 |
35 |
36% |
|
Pacífico
Ocidental |
85 |
25 |
116 |
41 |
36% |
|
Atlântico
Norte |
16 |
20 |
25 |
25 |
56% |
|
Sudoeste
do Pacífico |
10 |
12 |
22 |
28 |
120% |
|
Norte do
Índico |
1 |
8 |
7 |
25 |
600% |
|
Sul do
Índico |
23 |
18 |
50 |
34 |
117% |
|
Total |
171 |
22 |
269 |
35 |
57% |
Fonte:
Webster, Holland, Curry e Chang, Science nº 5742
A julgar pela amostra de 2005, os próximos quinze anos serão
ainda mais terríveis. Sabe-se que
furacões geralmente se formam sobre oceanos cuja temperatura na superfície é
superior a 26º C e a temperatura média dos mares tropicais subiu 0,5º C de 1970
a 2004. Kerry Emanuel, meteorologista do MIT, mostrou uma clara correlação
entre o aquecimento do Atlântico e do Pacífico e a potência e duração dos
furacões. Também se sabe que a temperatura do planeta está relacionada ao
efeito estufa e este é incrementado pela liberação de gás carbônico na queima
de combustíveis fósseis. Simulações indicam que o aumento da proporção deste
gás na atmosfera deve aumentar a temperatura média do planeta e a intensidade
dos furacões no longo prazo.
Os dez anos mais quentes, desde que começaram os registros
meteorológicos, ocorreram todos desde 1990 – e 2005 foi o mais quente de todos.
Entretanto, não são simples as mediações entre a prosperidade das classes
médias que amplia o consumo de petróleo pelas picapes do Texas e centrais
elétricas de Xangai e as misérias que se abateram sobre os pobres da Luisiana e
da Guatemala.
O clima é um sistema caótico e volátil, afetado por muitos
fatores. É difícil demonstrar cabalmente, por meios estatísticos, que o
fenômeno se deve à atividade humana e não a mera flutuação estatística ou a
ciclos naturais. Podem ser necessários 50 anos para que o número de observações
crie suficiente certeza estatística para obrigar os mais céticos – incluindo
Bush júnior e seus amigos na indústria petrolífera e na Fox News – a dar o braço
a torcer.
Mas cerca de 50% das perdas seguradas devidas a catástrofes
naturais dos últimos 40 anos ocorreram desde 1990 e o setor de seguros, com
muito a perder com mais furacões, secas, incêndios florestais, inundações e
epidemias (por ampliação do hábitat de agentes transmissores, como mosquitos)
provocadas por alterações do clima, não quer esperar tanto. Começou a estudar a
relação entre o aquecimento global e os desastres naturais desde que perdeu US$
22 bilhões com o furacão Andrew, de 1992.
A preocupação naturalmente redobrou quando uma reunião da
associação estadunidense de corretores de seguros para discutir o assunto,
marcada para oito de setembro de 2005 em New Orleans, teve de ser cancelada por
notório motivo de força maior. Mas a associação das seguradoras britânicas já
havia publicado, em junho, um estudo segundo o qual as perdas com grandes
tempestades devidas ao aquecimento global aumentariam em dois terços até 2080 e
as seguradoras teriam de aumentar em 90% o capital da cobertura de furacões
estadunidenses e em 80% o de tufões japoneses. Estudos da classificadora de
seguros AM Best indicam que o aquecimento global pode causar catástrofes que
custarão US$ 100 bilhões aos seguradores, valor equivalente à soma dos
patrimônios líquidos das 25 maiores resseguradoras do mundo.
Uma delas, a Swiss Reinsurance, aceita a idéia do
aquecimento global desde 1994, trabalhou com um grupo de seguradoras
patrocinado pela ONU que apoiou o Protocolo de Kyoto e emprega 20 cientistas e
engenheiros para estudar a questão. “Sempre se pode achar um cientista que diz
o oposto do que os outros estão dizendo”, disse o diretor de riscos emergentes
e de sustentabilidade da resseguradora, Ivo Menzinger, ao jornal Washingon
Post, “mas a maioria dos cientistas hoje reconhece que o aquecimento global
existe”.
Politicamente mais importante do que o número decrescente de
cientistas que ainda se dizem céticos é o esforço do setor petrolífero para
amplificar politicamente suas vozes.
Em 8 de dezembro, os jornais britânicos The Guardian
e The Independent publicaram um documento em PowerPoint montado pelo
advogado Chris Horner, lobista do
Competitive Enterprise Institute (CEI) de Washington (co-fundado pela
ExxonMobil, que contribuiu com US$ 1,5 milhão) e representante da “Cooler Heads
Coalition”, que visa “dissipar o mito do aquecimento global”. Horner
aparentemente atua na Europa a convite do European Enterprise Industry.
A apresentação – encaminhada aos jornais pelo Greenpeace –
dirigia-se à companhia alemã de eletricidade RWE. Esboça um plano para
arrebanhar transnacionais, acadêmicos, institutos, comentaristas, jornalistas e
lobistas da Europa para uma “Coalizão Européia para uma Política Climática
Sólida” a ser criada em Bruxelas, a ser financiado por pelo menos seis empresas,
para minar o apoio europeu ao Protocolo de Kyoto.
A proposta inclui preparo de relatórios de posicionamento,
recrutamento de peritos prontos a atuar como conselheiros e porta-vozes e
formação de redes de apoio instantaneamente disponíveis a qualquer empresa ou
político interessado em questionar a adesão ao Protocolo.
Segundo o documento, a Lufthansa, Exxon e Ford teriam
demonstrado interesse. “Nos EUA, uma coalizão informal (a Global Climate
Coalition, fundada por empresas de petróleo e outras nos anos 90) teve sucesso em ajudar a evitar a adoção de
um programa ao estilo de Kyoto. Este modelo deveria ser emulado, no que for
apropriado, para guiar esforços semelhantes na Europa”.
A apresentação afirma que os custos de Kyoto serão
insuportáveis para a Europa, pois a maioria dos países europeus não atingiria
suas metas para 2010 e isso os obrigaria a dar conta do atraso no período
seguinte, com uma penalidade extra de 30% (segundo as regras ratificadas, dias
depois, em Montreal).
Questionadas pelos jornais, algumas dessas empresas
confirmaram ter-se reunido com Horner, mas só a Exxon se alinhou à sua posição,
ao lamentar que “só um lado dessa discussão fosse visto como legítimo”. Para a
RWE, o encontro “não significa que compartilhe dessa opinião”. A Ford Europa
disse considerar a mudança climática um assunto sério, que exige medidas
apropriadas e imediatas.
Apesar dos esforços de Horner, sua proposta de lobby parece
não ter vingado. O ano terminou com notícias relativamente boas: apesar do
pessimismo da mídia, a 11ª Conferência da ONU sobre mudança climática,
encerrada em Montreal em 11 de dezembro, resultou em alguns avanços.
Os negociadores dos EUA, Paula Dobriansky e Harlan Watson,
tentaram impedir a continuação de Kyoto depois de 2012. Defenderam que a
redução das emissões e a pesquisa de tecnologias inovadoras teria de ser
voluntária e partir da iniciativa privada. Chegaram a abandonar reuniões em
protesto e ameaçar vetar qualquer nova rodada de discussões, alegando que isso só
levaria a novas metas de cortes de emissões, rejeitadas por Bush júnior por
supostamente prejudicar a economia dos EUA. Mesmo se, segundo um manifesto
divulgado por 25 economistas (3 deles Prêmios Nobel) na reunião, isso reduziria
o crescimento em apenas 1% do PIB, menos que o custo da reconstrução de New
Orleans.
Horner foi credenciado como “jornalista” pelo jornal
neoconservador Washington Times para participar das conferências de
imprensa e dar a deixa para Dobriansky proclamar a isolada posição de Washington
como liderança de um “novo consenso”. Queria se referir aos 154 países, quase
todos periféricos, que ainda não têm metas de redução e somam um terço das
emissões globais – como China (13% das
emissões), Índia (4%) e Brasil (1,3%, devido principalmente a desmatamento).
Mas estes não morderam a isca e apoiaram a continuação da negociação.
Ao final, depois das críticas do primeiro-ministro canadense
Paul Martin – “Aos países relutantes, incluindo os EUA, digo que há uma coisa
chamada consciência global e é hora de ouvi-la. Acima de tudo, agora é o
momento de agir” – e das pressões de aliados como o Reino Unido e de suas
próprias ONGs, acabaram por aceitar participar de dois anos de discussões
informais sobre cooperação no combate às alterações climáticas.
O objetivo é negociar a revisão e aprimoramento do Protocolo
de Kyoto a partir da conferência de 2006, definir metas mais ambiciosas para a
segunda fase (2013-2017) e desenvolver um plano de cinco anos para ajudar os
países pobres a enfrentar os impactos da mudança climática.
O maior desafio é convencer os não tão pobres – como China,
Índia, Brasil e México – a aceitar metas de emissão, priorizar a
sustentabilidade de seus investimentos e ajudar a financiar esse esforço. A
Agência Internacional de Energia prevê investimentos de US$ 6 trilhões no
mercado de energia até 2030, na maior parte em países periféricos. Para que
esses investimentos não afetem o clima, seriam necessários outros US$ 2
trilhões – US$ 80 bilhões anuais.
De Washington, o mais que se pode esperar – pelo menos até o fim do governo Bush júnior, em 2008 – é que não sabote ativamente esses esforços. Mesmo assim, a presente geração ganhou, em 2005, a oportunidade de presentear seus netos com alguma esperança no futuro.